Ivone Mendes da Silva (1959) estudou Línguas e Literaturas Clássicas e é mestre em Línguas Literaturas e Culturas. Defendeu tese sobre as (re)citações de Eurípides na Medeia de Mário Cláudio. Gosta de tragédia, portanto, e do quotidiano o que é quase sempre a mesma coisa. Tem colaborado com a revista Ler e com a Egoísta e possui publicação dispersa em antologias de poesia. Publicou em 2011 o livro de poemas Ordem Breve.
A minha vida não foi boa mas se não fosse a imensidão de livros, de escritores, de personagens, de poemas, de frases curtas, de frases longas e de parágrafos inteiros que a habitaram e habitam teria sido muito mais difícil atravessá-la.
Tentei esticar esta leitura ao máximo, uns quantos fragmentos por dia, a fim de adiar o inevitável: a devolução à biblioteca de “Dano e Virtude”. Mais um livro que a Língua Morta devia reeditar, sobretudo depois do êxito (à escala microscópica de Portugal, claro) de “O Fulgor Instável das Magnólias”, que, para meu grande consolo, ainda tenho por ler.
Este é um diário convulso. Traz dos dias algumas horas e nem sempre as melhores. Umas vezes diz a verdade. Outras evita-as.
Tenho de elogiar profusamente este livro, mas desejo sobretudo que quem leia esta recensão possa usufruir da escrita intimista de Ivone Mendes da Silva, que é sublime na sua simplicidade, por vezes até poética, e com que me identifico a ponto de sorrir e emocionar-me.
Prendo-me às manhãs porque me fogem e a dor do efémero atravessa-me lenta e incisiva. Talvez eu não saiba dizer de outra coisa para além do tempo e do lugar. Da circunstância me mantenho. Dela construo o meu barco e levanto a minha casa. Escrevo-a e respiro.
O tempo não fecha portas atrás de si e corre no meu joelho ao deus-dará. O tempo com a sua cauda e o seu cortejo que a cada dia se acrescenta.
Impelir uma frase até ao limite da sintaxe. E ficar depois de guarda ao seu pulsar de pássaro cansado rente à tarde. E apagá-la da página de novo inacabada. Soltá-la para que regresse ao caos onde dormem em segurança todas as frases.
A vida interior desta autora, a absorção dos pormenores, a profunda análise daquilo que a rodeia em casa, ou na esplanada habitual ou até mesmo num dos seus frequentes passeios pelas cercanias, é a prova de que, em havendo talento para a escrita e sensibilidade, pode escrever-se um livro onde praticamente nada acontece a não ser a sucessão dos dias, a malfadada rotina pontuada por um ou outro contratempo ou por algum momento excepcional inesperado.
Também queria uma grande braçada de jarros brancos e viria depois mergulhá-los em água que os mantivesse. Deveria antes ansiar por uma valente limpeza de pó ou outras arrumações permanentes mas os longos jarros terminariam melhor a minha tarde.
Apesar da melancolia que emana destes textos, o apreço pelos objectos bonitos, “frioleiras” como lhes chama, o realce que dá às cores, aos odores, às flores e aos sons (ou à ausência deles) permitem à autora transcender o quotidiano que tanto a obceca.
A manhã em volta está quieta e sossegada e isso agrada-me como um conforto longamente ansiado. Moro numa cidade de província e tenho a mais desengraçada das vidas. Escrevo a manhã e a esplanada. Escrevo-as para as vencer.
Ontem deram-me um ramo de louro ainda verde e tive pensamentos que sorriam. Podia fazer com as folhas tenras uma infusão que me tornasse sibila e clarividente. Assim eu teria visto para além delas e das suas manhãs de água e café e saberia que desconfortos as esperam venturos. Ou alegrias que sei também existirem.
É sempre um conforto encontrar num livro a voz de alguém tão introvertido como eu, que sente as energias drenarem-se com convívios excessivos.
Muitas vezes a presença dos outros é uma violência de que estão completamente inocentes.
Sei de silêncios onde não mora ninguém mas outros há que são como uma casa em festa com as janelas fechadas e deixando entrever luz por todas as frestas.
"Este é um diário convulso. Traz dos dias algumas horas e nem sempre as melhores. Umas vezes diz a verdade. Outras evita-a."
"Desci as persianas e faz sombra da minha sala. Encostei-me a ler e na verdade continua a não haver nada de melhor do que estar « in ângulo cum libro»."
"Tudo o que conto parecerá sem história mas a diarística é isso mesmo: supor à trivialidade uma morfologia épica."
Entrei nestes acasos, neste quotidiano alheado e livre, e fui testemunha de Pedaços de nada e de tudo Pedaços de cores e de cheiros do mundo Pedaços de sons ou de ecos Pedaços de silêncios e de sossegos De raios de sol impondo reflexos De luz que torna nítidos os pormenores Da representatividade das sombras Das horas que sobem um a um os degraus do dia Dos indícios dourados de Outono à Primavera que rejubila. Da leveza do Verão às melhores memórias nas sumptuosas e gélidas noites de Inverno. De como viver bem de e com o silêncio.
Momentos e minudências!
"Estendo-lhes a mão e trago-os até à página onde os escrevo."
Sei que li e reli. Frases simples, frases compostas, frases insignificantes, frases imponentes.
"Os meus pensamentos são sempre muito vagabundos e cada um deles bifurca noutros dois que por sua vez se dividem e cada coisa é o caminho para uma outra."
Senti-me seduzida! Presa neste aparente caos de palavras, sem eira nem beira, caídas nas folhas do caderno, e citando a própria autora, "que são concha e casa."
"Os grandes solitários sofrem muito com as investidas do mundo."
Li. Senti. Vivi as palavras. Identifiquei-me com o texto, com as emoções, com as sensações.
"Escrevo no caderno textos curtos de seis linhas. Sou uma fragmentária e nada a fazer."
“Quando saí para beber café já as pessoas de sábado tinham voltado a casa com os sacos cheios de compras e alfaces. Havia por isso um belo silêncio. Pude olhar demorada para os agapantos na praceta sem que ruído ou conversa me distraíssem da contemplação. O pássaro de sábado pousou e ficou.”
A banalidade dos dias tornada pérola da literatura. Gostei tanto que fiquei deprimida quando terminei este livro. Vou caminhar. Ou ao lidl comprar croissants. Ou aspirar.
81. "O sábado de manhã enche-se das pessoas que voltam das férias. Reaparecem rostos que deixei de ver há um mês. Numa das cartas que escrevi para a LER disse que "a província é uma condição e é sempre longe. E é também repetitiva. Uma opressiva repetição."
139. "Agora sim arrefeceu. Saí para a rua já de noite e lembrei-me de Sophia: "A respiração de novembro verde e fria / Incha os cedros azuis e as trepadeiras". Sou habitada por frases e versos das mais variadas proveniências e pensar que poderei um dia perder esses hóspedes bem-amados é das coisas que mais me assustam."
O dia-a-dia e olhar para as coisas mais simples de forma atenta. E romântica. Fala imenso de dióspiros e traz sempre uma palavra nova para cada dia. Tive que parar e demorar muito mais tempo para ler porque estava sempre a ir ao dicionário. Algumas coisas roubadas de lá:
“Continuo contente por não ter pensamentos notáveis”
“Vai lá alguém saber se o que se reencontra quer ser trazido de novo à vida”
“61. Creio que hoje ainda não disse palavra alguma se exceptuar o “obrigada” à menina que trouxe a chávena de café e a pousou sobre a mesa. Posso até esquecer-me de como soa a minha voz. Vivo bem de silêncio e de água fresca.”
“Afinal não estou sozinha no prédio. Lamento porque havia nisso algumas potencialidades literárias.”
“A rapariga que lava as escadas sabe muitas coisas”
“91. Esta noite sonhei com dióspiros. Foi o primeiro sonho de Outono e não creio que seja um mau presságio.”
“110… uma vez um homem disse-me que não compreendia como é que uma pessoa como eu - que se vestia quase sempre de preto ou branco e de cinzento ou azul - era tão sensível às cores do mundo. Entendi não dever perder tempo a explicar-lho.”
“161…. Mais imaginar do que ver é sempre uma forma de perdição.”
“169… Já uma vez escrevi que a inspiração é uma obsessão bem tratada. …”
“178. … tomei o pequeno almoço com demoras (deve ser isto a que os pós-pós-modernos chamam brunch)…”
Conheceis, de certeza, aquele desenho de Escher em que uma mão se desenha a si própria. Pois há neste livro de momentos, mais do que é habitual em diários (onde tais abandonos abundam por natureza) uma virtude igual à desse desenho, onde temos dificuldade em distinguir o que desenha o quê e de onde parte a realidade, se da folha, se da mão (sendo que a mão que desenha, perceba-se, está na folha e é difícil distingui-la, se é que é possível, da que está a ser desenhada). O quotidiano é o assunto, pois, a conhecida repetição dos dias, da rotina que os leva. Contudo, às vezes quase parece que é a escrita que produz os dias, quando os inscreve nos cadernos, e não os dias que dão azo às elucubrações. (Falamos do efeito da escrita e não da estricta conformidade da entradas aos dados da realidade - isso já não é da nossa conta). Muita sinestesia, claro, perfumes e cores e frutas em jeito de natureza morta na Holanda, muita atenção ao que há de personagem em quem passa e o desmesurado afastamento necessário para ver tudo como um filme em que ninguém se atrevesse a incluir-nos. Mas é bem verdade que o produto desta escrita não são os dias e as suas repetições, mas o que de súbito escapa a eles e os ilumina. Às tantas (porque as referências literárias são muitas, claro) eis o Ehev fugaces, Postume, Postume, labuntur anni, de Horácio, usado como oposição à alma da autora, que em vez de se surpreender com o gastar do tempo se exaspera com a sua lentidão. Já no sentido deste livro corre, porém, aquele muitíssimo conhecido carpe diem. Com muito menos luzes de latim do que a autora, o deste texto depende um pouco de aproximações comparativas. E se na tradução portuguesa encontramos o comum "colhe cada dia", eis que na tradução inglesa, que não se dá ao trabalho (provavelmente inglório nessa língua) da métrica, e aliás verte tudo em prosa corrida, eis que na tradução da Loeb, dizíamos, nos surge um sentido perifrásico, talvez, mas mais explicativo para o leigo: reap the harvest of to-day. Que lido à letra dirá: corta a colheita do dia (li algures, pode ser engano, que carpe era vocábulo da agricultura, algo aparentado a ceifar). É isto o que estas entradas diarísticas tentam e várias vezes conseguem: apanhar a colheita do dia, quer dizer, aquilo que após ter sido plantado pelo tempo (todo o abrangente espalhar da rotineira semente) pode servir de consolo, quando fruido, à existência. As frases são exactas, o estilo policiado, curto e redondo, como se pretende, e os arroubos de alma apenas os necessários para afiar a foice. Para terminar citamos Gombrowicz, cujos diários temos cruzado, por acaso, com este: "Gombrowicz " (o autor gosta de falar na terceira pessoa, como os jogadores de futebol) " Gombrowicz julgava que tinha direito a uma tempestade metafísica, a uma catástrofe cósmica e a uma chuva transcendental. Sob uma condição: a de não comprometer, porém, o quotidiano. Ele acreditava que tinha o direito a navegar em alto-mar, desde que tivesse sempre o pé em terra firme, naquela terra dali, em Buenos Aires".
Acabei de ler Dano e virtude, de Ivone Mendes da Silva, que comprei há já algum tempo na excelente livraria Fonte de Letras , em Évora. Li-o quase todo nos transportes públicos. Adoro o jeito de escrita da autora e o seu olhar arguto face à banalidade do quotidiano. Uma diaristica diferente. Vou comprar mais livros desta autora para os poder sublinhar.
Não é bem um diário ou talvez seja, é de certeza uma pérola de honestidade, elegância, escrita refinada até à partícula essêncial. O quotidiano tem sempre algo para contar, sempre, quando temos olhos para o ver e coração para o sentir. Que maravilha de livro!
Ao longo das 330 entradas que compõem o livro, vamos descobrindo o dia a dia de uma professora de meia idade, solitária e observadora. A passagem do tempo, o ritmo dos dias e dos meses, a importância do silêncio, o trabalho de escrita, o estar á margem, são temas recorrentes destas entradas que em jeito de diário acompanham quase um ano da vida da narradora. Escrita depurada e sublime, com frases que são verdadeira poesia.
"O sábado de manhã está cheio de mulheres cansadas [...]. Encontro-as nos corredores do supermercado sempre com pressa porque se faz hora do almoço. Eu escolho uma dessas mulheres e começo a imaginar-lhe uma outra circunstância. Vejo-a a mandar às abóboras o sábado de manhã e a ir-se embora para nunca mais. Imagino-lhe aeroportos e portos. Pequenos quartos de hotel com janelas sobre praças quadradas com esplanadas silenciosas. Noites com uma grande pele em frente à lareira. Encontros com homens que têm belas conversas sobre livros e pintores antigos e nunca almoçam nem jantam nem usam camisas que precisam de ser passadas a ferro."
“A minha vida não foi boa mas se não fosse a imensidão de livros, de escritores, de personagens, de poemas, de frases curtas, de frases longas e de parágrafos e inteiros que a habitaram e habitam teria sido muito mais difícil atravessá-la.”
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“Difícil é amanhã voltar a ser um dia útil. Por hoje estou conforme. Vi a chuva e sentei-me a escrever. Como quem só por ver o passar das estações julgasse que via o mundo.”
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“Percebi que o dia me começava feio e que mais valia voltar para casa. Depois de dois dias inteiros de reclusão o mundo arranha-me ainda que não diga coisa alguma. Sempre hei-de viver esta dualidade: querer rostos e pretextos e tanto precisar de distância.”
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“Muitas vezes a presença dos outros é uma violência de que estão completamente inocentes.”
não nos deixemos enganar pela aparente simplicidade da Ivone Mendes da Silva: estamos perante um golpe de mágica, uma cilada.
são pequenos poemas disfarçados de diário. são meditações sobre a mística disfarçadas de reportagem dum quotidiano cíclico. quem os lê de forma directa, "at face value", está a perder uma boa parte do que torna a Ivone Mendes da Silva entusiasmante e fresca. e é uma grande grande pena.
Um livro absolutamente simples e, em simultâneo, delicioso de ler, pois apesar de não acontecer nada e ser apenas uma narrativa da vida e dos pensamentos, através de pequenos textos, é de um português soberbo, tanto que devia fazer parte do plano nacional de leitura.
“Dano e Virtude” tem a forma de um diário. Um diário “convulso”, no dizer da autora. “Traz dos dias algumas horas e nem sempre as melhores. Umas vezes diz a verdade. Outras evita-a”. São trezentas e trinta entradas que acompanham os dias que se repetem, as estações do ano que se sucedem. A marcá-las, a rotina do quotidiano onde tudo cabe: Relógios desacertados, um cheiro de oregãos, um tanque de pedra, o preço vertiginoso de uns figos no Lidl, armários de roupa branca, cães que ladram ao longe, uma memória de pó-de-arroz no ar, rosas murchas numa jarra, um cortejo de carros antigos, uma frase perdida, os 94 anos de Agustina, a fugacidade do fim-de-semana, o “Take this Waltz” na voz do Leonard Cohen, a manga de uma camisola de rojo no chão, o homem que corre e diz boa noite, facturas com número de contribuinte, um Pai Natal pendurado na varanda, o mistério que há nos gatos, árvores a florir em Janeiro, o aro da lua ainda deitada no céu, os likes no Facebook.
Um caderno, uma lapiseira, olhar atento e ouvido à escuta é tudo quanto Ivone Mendes da Silva precisa para alimentar este seu “vício autobiográfico”. Nada mais pede, tanto lhe basta para uma entrada do seu livro. Parece que estou a vê-la sentada à mesa da esplanada do Café, a vida feita de pequenos nadas a correr à sua frente (com Sérgio Godinho ou sem ele). Na mesa do lado estou eu, cúmplice de um olhar agudo onde ternura e ironia cabem em partes iguais. Também eu vejo que “do outro lado da rua saem do banco três homens muito altos e esgalgados e param a conversar na esquina. A ponta incandescente de um cigarro brilha no escuro. Parecem estranhas aves pernaltas assim aperreados em fatos pretos muito justos. Acho até que as calças lhes ficam curtas.” Envolto nos meus pensamentos, espreito-a a escrever e pergunto-me por que raio pintará ela “os olhos com um afã egípcio se pelo meio da manhã o calor e a transpiração já [lhe] deixaram na cara um cenário de pós-guerra.” E lembro-me que “hoje ouvi chamar rosas albardeiros às flores que sempre nomeei peónias. Se as rosas são sem porquê não o são sem nome mas parece-me aquele albardeiros uma feia designação”.
Num exercício de partilha pleno, feito da alegria da novidade, do prazer do imprevisto, da bondade do silêncio ou do milagre da criação, a autora vai conquistando o leitor com o “inocente desassiso” do seu jeito muito pessoal de contar. É fácil ler Ivone Mendes da Silva, é fácil vermo-nos nas suas observações. Menos fácil é sentirmo-nos observados. Sentirmos que alguém reparou em nós e pode ter escrito que “há dias em que só encontro pessoas feias”. Mas isso faz parte do jogo que é ler este “manual da vida diária” e revermo-nos nele, em parte ou no todo. No demais, por muito estranho que isto possa parecer, “Dano e Virtude” é pura poesia. A primeira entrada deixa-nos essa sensação; com as seguintes vem a confirmação. Num aparte muito pessoal, devo dizer que li “Dano e Virtude” ao mesmo tempo que “As Pequenas Coisas”, o último livro de poemas de João Luís Barreto Guimarães. É fascinante cruzar a prosa de uma com a poesia do outro (eventualmente, fazer o exercício de dar a forma de prosa aos poemas de João Luís Barreto Guimarães e transformar em poemas as entradas do livro de Ivone Mendes da Silva). Saberão, então, daquilo que falo.