Lançado pela primeira vez em 1974, este livro introduz uma nova fase da escritora: é o primeiro volume de poesia depois de sua estreia na ficção.
Autora de uma extensa produção de poesia, que teve início com Presságio, em 1950, Hilda na década seguinte passou a se dedicar a outros gêneros literários. No fim dos anos 1960, em apenas três anos ela produziu oito peças de teatro. Logo na sequência, viriam dois livros de ficção: Fluxo-floema, de 1970, e Qadós, de 1973.
Júbilo, memória, noviciado da paixão se tornou uma das obras mais lidas, festejadas e estudadas de Hilda Hilst, autora homenageada na Flip 2018. Com a forte marca da prosa, este volume de poemas apresenta os temas que consagraram a poeta: a entrega amorosa, a devoção mística, o anseio pelo encontro, o temor da morte. “Se te pareço noturna e imperfeita”, ela escreve, “Olha-me de novo.”
Hilda de Almeida Prado Hilst, more widely known as Hilda Hilst (Jaú, April 21, 1930–Campinas, February 4, 2004) was a Brazilian poet, playwright and novelist, whose fiction and poetry were generally based upon delicate intimacy and often insanity and supernatural events. Particularly her late works belong to the tradition of magic realism.
In 1948 she enrolled the Law Course in Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo(Largo São Francisco), finishing it in 1952. There she met her best friend, the writer Lygia Fagundes Telles. In 1966, Hilda moved to Casa do Sol (Sunhouse), a country seat next to Campinas, where she hosted a lot of writers and artists for several years. Living there, she dedicated all her time to literary creation.
Hilda Hilst wrote for almost fifty years, and granted the most important Brazilian literary prizes.
Vejam bem, eu amo a Hilda. Eu acho a Hilda uma mulher cultíssima, engraçadíssima, finíssima - superlativa, de uma forma geral. É bastante provável que ela seja minha escritora brasileira favorita.
Mas esse livro.
Eu gosto desse livro a contragosto. Eu gostaria de ser uma pessoa coerente e dizer que não gosto desse livro, apesar de gostar tanto da Hilda. Mas a vida e meus gostos estão longe de serem coerentes.
A priori, eu tenho pavor de lírica amorosa. Acho cafona demais. Esses extremismos e desfalecimentos todos, meh. Essa in-ten-si-da-de.
Não tem nada que eu deteste mais que esse caldeirão de sentimentos. Argh. Por mais que o poeta seja um fingidor, claro. Ainda assim a minha vontade é ligar uma mangueira num hidrante e ensopar todos eles, os in-ten-sos.
E, no entanto, essa mulher escreve tão bem a ponto de eu achar até a lírica amorosa dela muito boa.
Claro, há o pulo do gato - porque sempre há o pulo do gato. E ele está além do diálogo que me interessa com a poesia clássica (Catulo é outro de quem gosto a contragosto) ou as cantigas de amigo medievais, ou ainda à última parte, mais política, dedicada aos "homens de nosso tempo".
No fundo eu gosto desse livro porque eu sei que ela vai além do verniz da lírica amorosa. Que o que está em jogo, na verdade, é o exercício da construção do amor como estética. Ariana já avisa Dionisio que ele é, na verdade, uma construção dela - e o amor é, nesse caso, e de uma forma muito mais interessante, linguagem.
Porque tu sabes que é de poesia Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio, Que a teu lado te amando, Antes de ser mulher sou inteira poeta. E que o teu corpo existe porque o meu Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio, É que move o grande corpo teu
Ainda que tu me vejas extrema e suplicante Quando amanhece e me dizes adeus.
Tépido Túlio, o reino Não é feito para os mornos. Esse reino de amor onde és o rei Por compulsão e ímpeto do poeta, É feito de loucura, de atração E não compreende tepidez, mornura E vícios da aparência, palha, Túlio, Tem sido o teu reinado, inconsistência. Ou te transformas, rei de fogo e justo, E, a quem merece, dás amor e alento
Ou se refaz em ira a minha luxúria Me desfaço de ti, muito a contento.”
Vendaval de lindo* "Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me. E eu te direi que o nosso tempo é agora. Esplêndida avidez, vasta ternura Porque é mais vasto o sonho que elabora Há tanto tempo sua própria tessitura. Ama-me. Embora eu te pareça Demasiado intensa. E de aspereza. E transitória se tu me repensas.
E tu, lúcido, fazedor da palavra, Inconsentido, nítido
Nós dois passamos porque assim é sempre É singular e raro este tempo inventivo Circundando a palavra. Trevo escuro Desmemoriado, coincidido e ardente No meu tempo de vida tão maduro.
Sorrio quando penso Em que lugar da sala Guardarás o meu verso. Distanciado dos teus livros políticos? Na primeira gaveta Mais próxima à janela? Tu sorris quando lês Ou te cansas de ver Tamanha perdição Amorável centelha No meu rosto maduro?
E te pareço bela Ou apenas te pareço Mais poeta talvez E menos séria? O que pensa o homem Do poeta? Que não há verdade Na minha embriaguez E que me preferes Amiga mais pacífica E menos ventura?
Que é de todo impossível Guardar na tua sala Vestígio passional Da minha linguagem?
Eu te pareço louca? Eu te pareço pura? Eu te pareço moça? Ou é mesmo verdade Que nunca me soubeste?
A memória de nós. É mais. É como um sopro De fogo, é fraterno e leal, é ardoroso É como se a despedida se fizesse o gozo De saber Que há no teu todo e no meu, um espaço Oloroso, onde não vive o adeus."
Mulher.Literatura.Paixão.PESSOA! A dama Rainha da poesia brasileira::::) A mulher a ultrapassar a literatura!!!
Para mim, é o que há de melhor. Diria que é incansável (não deixa de ser), mas aqui se conseguiu imprimir, na forma, a paixão; e a paixão consome, queima energia. Logo, lhe cansa. Mas quem consegue imprimir a paixão? Numa relação de implicação, vemos que Hilda a compreendia bastante bem, principalmente aquela que os gregos nos contam. Lendo-a, sente-se bastante próximo dessa experiência. Lendo-a, potencializa-se esta mesma experiência, a do movimento da paixão. O modo lírico da poesia é essencialmente estático, dizia Hegel. Ele descreve o mundo exterior, não nos conta uma história. Mas o acontecimento exterior não é se não pretexto para o rutilar da palavra, na meditação, na emoção, nas vozes íntimas, na subjetividade do poeta. Em "Dez chamamentos ao amigo", por exemplo, são os matizes da humilhação sem comiseração, porque o produto da paixão é gratificante e criador. É revelador. Os ritmos das canções, das árias, dos prelúdios são espantosamente belos. E mesmo a segunda seção, "O poeta inventa viagem, retorno e sofre de saudade", - que acalento. Incansável. Está no meu panteão.
Ó céus, essa é uma vertiginosa descida ao inferno dos poemas de amor, como não tenho mais idade para esse tipo de falácia e apesar dos mesmos serem monumentalmente escritos com a mais fina veia poética, as coisas acabam melhorando a partir das poesias presentes em "Poemas aos homens do nosso tempo", dos quais o poema dedicado a Federico Garcia Lorca é o ápice.
Hilda Hilst é pura víscera. Derrama os mais tórridos versos de amor sem ser melodramática. Hilst é intensa. É intensidade; o substantivo e a substância da intensidade.
“Livra-me de ti. Que eu reconstrua Meus pequenos amores. A ciência De me deixar amar Sem amargura. E que me deem
A enorme incoerência De desamar, amando. E te lembrando
— Fazedor de desgosto — Que eu te esqueça.”
Hilda Hilst é pura víscera e intelecto. Não existe fronteira entre razão e emoção; elas formam um todo coeso. Hilst é léxico e sonoridade. Do mesmo modo, seus versos reclamam a unicidade do passado e do presente, do amor-sentimento e do amor-memória. E também do futuro (“Que boca há de roer o tempo?”),ao abordar a morte.
“Tudo demora. E tudo é véspera e nostalgia Desse Agora, quando tu pensas que tudo se demora.”
Hilda Hilst é pura poesia. E metapoesia. Há como amar e não ser poeta? Há como viver e não amar? Há como viver e não fazer poesia? Há amor sem engajamento?
“Enquanto faço o verso, tu decerto vives. Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue. Dirás que sangue é o não teres teu ouro E o poeta te diz: compra o teu tempo”
Hilda Hilst, voando como um sonho para se tornar minha escritora favorita…
"A minha Casa é guardiã do meu corpo E protetora de todas minhas ardências. E transmuta em palavra Paixão e veemência
E minha boca se faz fonte de prata Ainda que eu grite à Casa que só existo Para sorver a água da tua boca."
Júbilo foi o retorno de Hilda ao universo poético depois de vários anos imersa na prosa, teatro e outros processos criativos. Aparentemente isso é importante para a leitura desse volume, mas para mim, praticamente um iniciante em seu universo, um posicionamento temporal é bem menos importante que um guia que me tome pela mão. Me parece que Júbilo, assim como diz seu extenso título, é uma coletânea de intensas investigações sobre o ato de amar, ou mais especificamente sobre a potência dilacerante (e abstrata) desse sentimento. Quase todo dedicado a um muso onírico, perfeito, cruel, ouvem-se os clamores e diálogos internos de uma voz perdida (e encontrada) nos descaminhos de seu próprio desejo, o que soa bastante genérico até se bater o olho nos comos e porquês tortuosos e certeiros de Hilda. Mas creio que me falta um guia. Uma voz para abraçar ou uma base da qual discordar. Me parece que Hilda não basta sentir, há que investigar.
Esse livro de poemas evidencia a identidade intelectual da artista das letras diante do seu lirismo poético de torrencial escrita.
Por metáforas implícitas, Hilda flerta com a oratória simbolizada nos poemas remetidos ao amor por Túlio (figura de um dos mais envolventes oradores romanos). E direciona-se também a sua embriaguez poética ao deus greco-romano do vinho, Dioniso que, amando-o, demonstra-se indiferente, caminho contrário dos artistas veneradores desse deus, que por modismo estético do século XX, esteve presente em vários nichos modernistas
Esta obra conta musicalmente com sinceridade, imagens de seus independentes fluxos criativos, não sendo nem de Túlio, nem de Dioniso. Hilda é de si mesma.
eu daria 2 estrelas se não fossem as últimas 15 páginas do livros. Novamente Hilst põe no final uns poemas tão bons que chega a dar pena de dizer que o livro, num geral, é fraco. Fica reafirmada a sensação de que quando essa mulher se dispõe a deixar a imaginação solta e a experimentar com a língua, ela é gigante. O problema é que ela parece se ocupar demais com coisa besta, com homem feio que faz manipulação emocional (Túlio é nome de feio metido a inteligente). É isto, não canso de passar raiva e ser pega com a guarda baixíssima por essa mulher. Devo dar mais um tempo antes de pegar Hilst pra ler de novo, melodrama com amor meia boca é cansativo de se ler.
--- As tardes Fiandeiras, as tardes que eu amava, Matéria de solidão, íntimas, claras Sofrem a sonolência de umas águas Como se um barco recusasse sempre A liquidez. Minhas tardes dilatadas Sobreexistindo apenas
--- E ficarás assim, para sempre Como se o oceano se obrigasse A contornar apenas uma certa ilha
E eu
Faminta me desobrigasse Da minha própria água primitiva.
Como quem semeia, rigoroso, os cardos Sobre a areia, hei de ficar exata e coerente Construindo o meu verso, até que a morte Me descubra um dia, provavelmente
Como quem passeia. ---
Te pensei. E na minha alma fez-se Um gosto licoroso, mordedura
--- Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca Austera. Toma-me agora, antes Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes Da morte, amor, da minha morte, toma-me Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute Em cadência minha escura agonia. ---
O leite da tua carne, a minha Fugidia. E sobre nós este tempo futuro urdindo Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo. ---
Tateio. E a um só tempo vivo E vou morrendo. Entre terra e água Meu existir anfíbio Passeia ---
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta: Noturno girassol. Rama secreta. ---
Os dentes ao sol E o escuro momento Do girassol no muro Enlouquecendo ---
Os dentes ao sol Dentro de mim A sombra dos teus dedos Tua brusca despedida ---
Do tempo As enormes mandíbulas Roendo nossas vidas ---
Tudo vive em mim. Tudo se entranha Na minha tumultuada vida. ---
E nós na tarde repensamos mudos A limpeza fatal sobre nossas cabeças E tua sábia eloquência, homens-hienas Dirigentes do mundo. ---
Me fazendo leopardo e abstração Na ociosa crueza desta tarde. ---
Pretendo apenas, fruir apesares e partidas E júbilo também Porque o instante consente essas duplas medidas.
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não tenho o menor costume de ler poesia, então não sei bem como avaliar esse livro.
as duas estrelas são totalmente baseadas na minha experiência de leitura, portanto não são uma avaliação da lírica de Hilda Hilst, porque não possuo aparato para tal
fiquei pouco empolgada com os poemas, já que definitivamente não curto lírica amorosa. li em voz alta para conseguir me prender as páginas, porque fazendo leitura silenciosa acabava pensando em várias coisas, menos prestando atenção ao que a autora estava dizendo.
provavelmente lerei outras obras de Hilda, que não sejam poesia, e continuarei procurando uma poesia que me agrade, em outras autoras(res).
"Enquanto faço o verso, tu que não me lês Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala. O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas: 'Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas'. Irmão do meu momento: quando eu morrer Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo: MORRE O AMOR DE UM POETA. E isso é tanto, que o teu ouro não compra, E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto,
meu coração aperta, mas realmente não me identifiquei nem me comovi tanto com esse conjunto de poemas da Hilda quanto gostaria. acho que não peguei a entrada certa pra obra dela, infelizmente. mais da metade do livro (uns 60%) foi chatice e suspiro de termina-logo-isso-pqp.
dito isso: os 40% que salvaram a obra REALMENTE fizeram muita diferença. não foram muitos, mas tem um punhado de poemas aboslutamente libertadores e transcendentes nesse livro. os que falam sobre o ofício do poeta, os poemas "para os homens do nosso tempo" são de uma potência bizarra.
imagino como deva ser o resto da obra dela.
se Caio amava, é porque tem algo aí. feliz de poder chegar mais perto de ti, Hilda. na próxima vai ser ainda melhor, fé.
Do desejo, até o momento, é o meu preferido. Porém, acho muito difícil não gostar da poética da Hilda, pois ela sempre retoma essa relação especular com esse outro que não somos nós, os leitores, mas esse alguém que a faz justificar versos, contar segredos e buscar a si mesma.
Eu amo Hilda Hilst e se eu tivesse cacife, lia todos os livros dela. É uma visão profunda de um tema que já virou banal. A escrita dela é envolvente e carrega uma entrega absurda. Eu que sou meio burra tive que ler várias vezes os poemas para entender. (less)
Longe de mim falar mal da Hilda Hilste, mas desprovida de qualquer senso de localização e medida na emoção nesses poemas, me vi perdida e fazendo manchetes de como a mídia iria retratar o meu desaparecimento durante a leitura do livro de poemas da autora.
Pra ser sincera, eu esperava muito mais. Eu sempre li muitas críticas boas em relação a Hilda, porém esse não foi o trabalho que me “conquistou”. Sim, existem muitas peças boas nessa coletânea de poemas, e são para elas as minhas 3 estrelas.
Eu não tenho nenhuma experiência lendo poesia e talvez essa avaliação seja totalmente fora do que se espera de uma review do gênero. De todo modo, Hilda Hilst também foi totalmente fora do que eu esperava ao ler poesia. Sua crueza e intensidade me pegaram de solapo e desestruturaram minhas bases emocionais. Poderia com tranquilidade me dizer apaixonada por alguém imaginário após esse livro e me preocupo se dedicarei muitos poemas desses a futuros amantes. Me senti atacada por esse livro, se assim poderia dizer, por passagens pessoais até demais que tocam na ferida como se coloca uma mecha de cabelo atrás da orelha. Talvez poesia não seja tão ruim assim como eu imaginava e eu deva finalmente me aventurar mais nesse mundo, talvez seja somente a Hilda sendo a Hilda. Em verdade me pego sorrindo quando penso em que lugar guardarei esse livro na minha estante.
Minha primeira vez lendo a Hilda, comecei num primeiro momento e não estava conseguindo me conectar por conta de ser uma construção de poemas com palavras mais eruditas, tentando a segunda vez acabei me encantando e gostei que por conta desse mesmo jogo de palavras super bem feito tem emoção mas me obriga a pensar.
Poemas repetitivos e confusos, na voz de una mulher carente que se desfaz por um babaca chamado Túlio --quem não tem o mínimo interesse nela-- e não para com as lamúrias. E tem a ousadia de se auto-proclamar "poeta" constantemente. O primeiro poema e os da Ariana para Dionísio são dos poucos resgatáveis deste lamentável poemário cafona.