Sérgio Xavier Filho é um jornalista esportivo que, certa vez, quando era diretor de redação da revista Placar, autorizou a publicação de uma matéria elencando os maiores jogadores brasileiros de futebol de todos os tempos. Pelé era o primeiro, obviamente, mas o segundo nome elencado foi...o Neymar! Não pude acreditar; o pior é que o próprio Sérgio escreveu a justificativa, num texto tão absurdo e repleto de barbaridades que prometi jamais ler ou ouvir qualquer outra coisa que ele lesse ou falasse. Desde então coloco a transmissão no mudo quando percebo que ele é o comentarista (e, secretamente, passei a elencar jogadores brasileiros que mereciam e merecem estar na frente do influencer que finge ser atleta; a lista já está com mais de duzentos nomes, e segue crescendo).
Mas o mesmo Sérgio Xavier Filho é um corredor amador dedicado, já foi diretor da revista Runner's World brasileira (que eu consumia avidamente quando comecei a correr, e gostava, provando que o futebol não é o forte do referido jornalista), e adquiriu um respeitável conhecimento prático, teórico e histórico sobre o universo da corrida de rua. Parte dele está reunido nesse "Boston", que conta a história da famosa maratona, com vários fatos e relatos interessantes de pessoas que disputaram a prova (amadores e profissionais), além da trajetória do próprio Sérgio para participar da corrida.
A Maratona de Boston é mais antiga em continuidade: acontece desde 1897, e não deixou de ser realizada um ano sequer. O autor conta isso em minúcias, intercalando capítulos históricos (incluindo um bastante detalhado do atentado ocorrido na linha de chegada em 2013) com outros compostos de relatos de personagens (destaco o que trata da Kathrine Switzer, primeira mulher a tentar participar oficialmente da corrida, em 1967, que foi agredida pelo diretor da prova e tornou-se um ícone para a presença de mulheres em eventos do tipo; e do japonês Yuki Kawauchi, inspetor de escola e corredor amador que se tornou o improvável vencedor da edição de 2018 - quando o esporte já estava totalmente profissionalizado). Há também o caso do próprio Sérgio e sua demorada e bonita busca pelo índice (não basta dinheiro e disponibilidade para correr a Maratona de Boston - é preciso comprovar um tempo anterior na mesma distância, em provas certificadas, e que apesar de ser escalonado em faixas etárias, exige que o candidato seja um amador altamente bem treinado).
O estilo da escrita é bastante jornalístico, mas de um jornalista experiente, que sabe o que faz e que vive e ama o tema sobre o qual está escrevendo. O texto apresenta, em algumas partes, um tom de burguês e de autoajuda que me incomoda (a corrida como "superação dos limites", o esforço individual, coisas do tipo), mas que é compreensível - é isso que vende e atrai atenção. Falta a sobriedade de um Haruki Murakami, mas daí tô exigindo demais. O Sérgio é o Sérgio, excelente jornalista QUANDO ESCREVE SOBRE CORRIDA DE RUA, e isso basta.