«Alguns Humanos» é o primeiro livro de Gustavo Pacheco e reúne onze histórias tão inquietantes quanto disruptivas. O leitor viaja do Bornéu ao Bronx, de Moçambique a Salvador da Bahia, da Alemanha à Cidade do México, de Pequim a Buenos Aires. Nestas geografias cruzam-se as histórias de Dohong, que ficou doente depois de a mãe morrer de desgosto, do escravo Zakaly, que se deslumbra com o que lhe dão de comer, de Kuek, um índio botocudo, de Julia Pastrana, a mulher mais feia do mundo, de Li Xun, funcionário público às voltas com questões teológicas, do taxidermista Thomas Manning, que não gosta de computadores, de Moacyr, que odeia Isaías e conversa com Deus. Evidenciando uma voz literária marcante, num estilo ecléctico burilado por uma imaginação prodigiosa, há um fio ténue que nos conduz ao longo destas narrativas e que talvez pudéssemos descrever como o retrato de uma certa humanidade.
Gustavo Pacheco é um antropólogo, diplomata e escritor brasileiro. Graduado em Direito e mestre em Relações Internacionais, fez o doutorado em Antropologia no Museu Nacional. Entrou para a carreira diplomática em 2006, tendo servido em Buenos Aires, na Cidade do México e em Brasília.
Este livro é de uma maturidade literária que me espanta ser uma estreia de um autor. É sempre refrescante encontrar um contador de histórias nato. Alguns contos prenderam-me mais do que outros (destaco "Zakaly", "Ambystoma Mexicanum" e "As Formigas", este último o meu preferido), mas no geral a colectânea tem coerência em termos de qualidade literária. Aguardo com expectativa novas histórias de Gustavo Pacheco.
Sempre gosto de bater na tecla "forma", levando em consideração que, todos os assuntos já foram escritos o que nos sobra senão a forma de contar? É o que faz Gustavo nos 11 contos de 'Alguns Humanos", inquietante e o resto vira spoiler.
Difícil descrever o quanto aquece meu coração há muito já congelado saber que há novos escritores brasileiros produzindo conteúdos tão bons. Já estou na ansiedade de novos lançamentos do Gustavo Pacheco.
Aqui tem uma série de elementos que conseguem me prender por bastante tempo, mas três deles se destacam: uma escrita fluida, formatação em contos curtos e um certo surrealismo parecido com algumas coisas que a gente encontra no Kafka.
O primeiro deles, pra mim, é o essencial em qualquer livro de contos. Se você vai escrever (ou consumir, no meu caso) um livro de contos, de história curtas e rápidas que podem ser lidas separadamente e fora de ordem, então a escrita também precisa trazer essa fluidez. O Gustavo acerta em cheio aqui, tornando a experiência de leitura muito fácil e prazerosa.
Já a formatação em contos em si é algo que eu, pessoalmente, tenho preferência e talvez isso reflita na minha incapacidade de manter longos relacionamentos (mas aqui não é o local para desabafar sobre isso). Adoro quando pego um livro que posso ler em qualquer momento do dia, dedicando menos de uma hora e já conhecer uma história em sua completude. Também significa que acabo me esforçando pra entender pontos diferentes: quando leio um conto, acabo me focando muito mais nos elementos da história que se conectam e criam uma forma final que faz muito sentido, ou até mesmo os elementos que foram aparecendo como dicas do que ia acontecer no final. E isso tem muito por aqui. Principalmente quando começamos a prestar mais atenção nas interações não humanas de alguns contos.
E por fim, o melhor ponto de todos: o surrealismo, ou o "elemento fantástico". Todos os contos tem algo de "esquisito" ou "deslocado" com relação à realidade e essa é a melhor parte desse livro. Até porque ela te pega de surpresa em vários momentos, quando você não está esperando. Inclusive meu motivador para lê-lo foi justamente porque eu já sabia desses pontos surreais e não me decepcionei com eles.
Rasguei um monte de seda mas deis 3 estrelas. É isso mesmo? Sim! O mau de livros de contos é a dificuldade de avaliar a obra como um todo e na minha cabeça pragmática de quem curte exatas, eu fico tentando fazer uma "média das avaliações" das partes. Houve histórias incríveis e que me fizeram refletir sobre várias coisas da vida, enquanto outras foram boas! Então digo que é um bom livro com um conteúdo muito interessante e leve para o nosso momento atual.
Leia se você quiser dar uma valorizada nos novos autores brasileiros, curtir contos com uma pegada fantástica e também se quiser saber mais sobre o axolote.
Como disse o consagrado Sérgio Sant’Anna, difícil acreditar que esse seja um livro de estreia. O autor tem a capacidade de reter plenamente a atenção do leitor com histórias imaginativas, muito bem escritas, repletas de ambiguidades e também de refinado senso de humor. Vale muito a leitura desse pequeno mas valioso livro.
Gustavo Pacheco, carioca, nascido em 1972, é doutor em Antropologia pelo Museu Nacional / UFRJ, tradutor, diplomata, escritor além de codiretor da Revista Literária Granta em Língua Portuguesa. “Alguns Humanos” é seu livro de estreia, lançado em 2018 e ganhador do Prêmio Biblioteca Nacional na categoria contos. A obra é composta por onze contos inquietantes, algo bizarros, extremamente bem escritos que prendem a atenção e realmente surpreendem. Os onze contos são bem homogêneos em termos de qualidade mas confesso que fiquei particularmente impactado com “Dohong” em que o protagonista é um sofrido orangotango, “Alguns primatas” e “Alguns humanos”, contos que tem basicamente os mesmos personagens sendo o segundo uma espécie de sequência do primeiro e ambos uma espécie de “ensaio” sobre as relações humanas, “Zakaly” que choca ao mostrar de forma crua e direta os horrores do tráfico humano e da escravidão, “O amante da mulher mais feia do mundo”, curiosa história com toques surreais que Quentin Tarantino adoraria adaptar para o cinema, “A emanação” que combina de forma surpreendentemente eficiente a trajetória de um submisso funcionário da burocracia chinesa e a nada mais, nada menos do que a sucessão do Dalai Lama e “Deus não vai se incomodar” protagonizada pelo confuso funcionário público Moacyr que “conversa com Deus e odeia Isaías”. Ótimo e surpreendente livro.
Este é talvez um dos melhores livros de contos que eu já li. É verdadeiramente surpreendente que este seja um livro de estreia, quando vários destes contos mereceriam, por si só, cinco estrelas. Com um estilo muito fluído, sem grandes barroquismos, Gustavo Pacheco consegue essa coisa tão difícil nos dias de hoje: surpreender. Agrada-me um escritor que saiba fazer bons plot twists. Agrada-me um escritor que incorpore um elemento de fantástico, de surrealismo, nos seus contos. Agrada-me que mais que contar uma história bem contada, possa adicionar-lhe dimensões e profundidade. Tudo isto, Gustavo Pacheco tem.
Os meus contos preferidos abordavam relações de raça e questões de direitos de animais: Dohong, a história de um chimpanzé no zoo do Bronx, que recebe um companheiro inesperado na sua jaula, História Natural, uma macabra interrogação sobre a legitimidade dos dioramas dos povos ditos "selvagens" permanecerem no Museu Americano de História Natural, ou O amante da mulher mais feia do mundo, uma honesta reflexão sobre o que é ou não legitimo em arte, foram alguns dos meus favoritos.
Livro de contos gostoso de ler. Consegue manter um certo elo entre as histórias, todas tratam das bizarrices humanas. O autor é antropólogo e puxa sempre uma relação homem-animal que eu achei divertida, além de criativa.
No conto que dá nome ao livro, Pacheco entrega um pouco do seu método: "Como sempre, a maior parte da história é insólita, delirante. Conhecendo seu estilo, aposto que essa parte delirante é a parte real. A parte inventada deve ser mais realista e mais prosaica que os dados reais que você usa." A maior parte dos contos traz essa mistura, mas talvez a parte prosaica seja prosaica demais para deixar algo memorável.
Que belo livro de estreia e que boa descoberta! Todos os contos deste livro são refrescantes, originais e diferentes - embora nalguns existam pontos em comum -, histórias que nos prendem e encantam. Os meus preferidos foram «Alguns Primatas», «Alguns Humanos», «História Natural» e «Kuek». Recomendo. E, sem dúvida, lerei novos livros do autor.
Tinham me dito que as histórias se conversavam e eu não dei muita trela até que de repente estava completamente envolvida. No decorrer do livro (são 11 histórias) fui achando tudo cada vez mais incrível e terminei muito apaixonada. Não que os contos sejam fáceis ou leves, mas tão bem escritos e inteiros em seus universos… maravilhoso.
Os contos não costumam atrair-me, pese embora admire profundamente a capacidade de criar uma estória, com cabeça, tronco e pés numa dúzia de páginas. Também não conhecia o autor. Gostei muito. Totalmente recomendável.
O agradecimento a Samantha Schweblin parece não ser acidental: o etéreo estilo da contista argentina também permeia os contos de Gustavo Pacheco. Nasce um escritor brasileiro dos bons!
Não se pode usar esses adjetivos levianamente na literatura, mas aqui vão eles: kafkiano e borgiano.
Esse livro de contos me surpreendeu, e mais surpreendido fiquei ao saber que se trata de um livro de estreia, porque a escrita é totalmente madura. Afora a questão da linguagem, que, em seu tom seco e ágil, sem grandes floreios, cai perfeitamente no meu gosto, o que me agradou muito nesse livro é o tipo de "perspectiva" que emerge das histórias, a saber: a relação tão intrínseca entre animais e humanos (e o ser humano, não esqueçamos, também é um animal) que a certa altura é difícil perceber quem é quem.
O que o autor parece fazer é uma aproximação do comportamento humano com o de animais, sugerindo que, a despeito de nossa alardeada racionalidade, guardamos certas características inatas que nos levam a ter comportamentos muito semelhantes com a dos animais ditos irracionais.
Ao mesmo tempo, essas histórias mostram como alguns seres humanos se consideram em um estágio tão elevado da "cadeia alimentar" que tratam outros humanos como animas excêntricos. Isso se percebe já a partir do primeiro conto, o ótimo "Dohong", em que um chimpanzé divide a gaiola de um zoológico com um pigmeu, assim como em "Zakaly", que trata da escravidão de humanos por outros humanos, em "História natural", que revela preconceitos "civilizatórios" com base em dioramas retratando povos supostamente "atrasados", e por aí vai.
Também é muito interessante observar como o autor mede a literatura nesse caldo de homens e humanos, tratando da metalinguagem nos contos "Alguns primatas" e "Alguns humanos" e mostrando que, mesmo nesse mundinho das letras, supostamente mais intelectualizado do que a média, o ser humano com frequência não faz muito mais que repetir padrões animalescos.
"Kuek" é um conto composto de vários segmentos e dialoga igualmente com a porção animalesca do ser humano, ao contar a história de um crânio que um dia havia pertencido a um desses homens que os europeus, em sua selvageria, chamaria de selvagem. Por vezes o autor ressalta aspectos de "bizarria", como em "O amante da mulher mais feia do mundo", mas tudo isso também parece servir para ressaltar tudo de que o ser humano é capaz, com seus inescapáveis instintos.
Aspectos "místicos" aparecem em "A emanação" e "Deus não vai se incomodar", em que aparentemente se traz a ideia de religião à discussão humano-animal, mas nunca como uma redenção da própria natureza, mas possivelmente até como um propulsor da própria violência.
"As formigas" também é segmentado, e aqui, de forma mais clara, percorre-se duas histórias distintas, uma "científica" e a outra biográfica, de maneira que seja possível estabelecer alguns paralelos entre a vida de pobres "operárias" humanas e as ditas formigas. Por fim, "Ambystoma mexicanum ou o labirinto invisível" parece igualmente fazer um paralelo entre a vida de um sujeito, imaturo ainda aos 37, e as características de um axolote.
Adoro quando consigo ver uma linha-mestra na condução dos contos e ela é capaz de sair do universo da literatura e parecer aplicável, ainda que como reflexão, na vida cotidiana. Comigo, esse livro fez isso de maneira exemplar. E contou ainda mais pontos a favor por ser um livro da literatura brasileira contemporânea em que não se cede à narrativa fácil do sexo explícito.
Entre contos fantástico e quase crônicas da vida de um antropólogo, a escrita fluida do autor envolve e instiga a leitura. À exceção do conto homônimo, que menos me agradou, pois achei cansativo.