O personagem desta história não é humano, mas é próximo de nós. Ele é um orangotango, mas não um orangotango qualquer. Capturado numa selva no Bornéu, separado da mãe ainda criança, foi enviado a um laboratório no interior de São Paulo, onde teve seus comportamentos estudados por uma tímida bióloga. Primeiro, aprendeu os princípios da linguagem de sinais. Depois, aprendeu a ler, à noite, sem que seus vizinhos de cela, ou os humanos ao seu redor, se dessem conta disso. Tomou conhecimento dos grandes filósofos. Considerava-se um darwinista, que depois se transformou num marxista. Movido por um acesso de ciúmes, é transferido para um zoológico na região, onde convive com outros símios e, aos poucos, descobre a possibilidade de dois novos prazeres: a liberdade e o amor. Descobrirá, também, que o caminho para isso é a revolução.
Escritor, dramaturgo e jornalista, estudou na Escola de Comunicações e Artes da USP, freqüentou o mestrado de Teoria Literária da Unicamp e o King Fellow Program da Universidade de Stanford, na Califórnia.
Publicou cinco romances: Feliz ano velho (1982, Prêmio Jabuti), Blecaute (1986), Uabrari (1990), Bala na agulha (1992) e Não és tu, Brasil (1996). Publicou também o livro de crônicas As Fêmeas (1994). Foi traduzido para o inglês, espanhol, francês, italiano, alemão e tcheco. Como dramaturgo, escreveu: 525 linhas (1989); O predador entra na sala (1997); Da boca pra fora; e aí, comeu? (1999, Prêmo Shell); Mais-que-imperfeito (2000); Closet Show (2001); e No retrovisor (2002).
O Marcelo Rubens Paiva é um nome bem-conhecido do mundo literário brasileira. Está em cena desde o início da década de 1980. Dele, li Blecaute, uma espécie de ficção científica à la Além da imaginação. Li há muito tempo, certamente há mais de trinta anos. Lembro que achei legal, mas não muito mais do que isso. Depois de tanto tempo, ponho novamente as mãos em outro livro dele. Esse Orangotango marxista é mais uma novela do que um romance. É bem curto mesmo, umas cem páginas. Mesmo assim, as páginas finais me cansaram um tantinho. O mais interessante está nas, sei lá, 50 primeiras páginas. O protagonista, como o título sugere, é um orangotango, um superinteligente e excelente observador da sociedade humana. O autor usa um truque literário que, apesar de antigo, pode produzir resultados interessantes: um observador externo, estranho ao nosso mundo, mas que é capaz – por meio do olhar do outro, para usar uma expressão da moda – de ressaltar todos o absurdo em que vivemos, o que somos. Enfim, tentar compreender o que fazemos e o porquê. São ações que mesmo sendo criações culturais acabam por ganhar um quê de naturalidade e não nos apercebemos disso. Só um observador externo para nos permitir abrir novamente os olhos para quem somos. É preciso, é claro, assumir a premissa do livro: um orangotango superinteligente, que de maneira autodidata compreende o que os humanos falam e entende o que é escrito. Nenhum problema quanto a isso. Aliás, é a partir das leituras que ele faz que ele se torna versado em alguma filosofia, inclusive de Marx. O Orangotango, que não tem nome, é uma figura um tanto melancólica. Raptado de seu lar, com a mãe provavelmente morta, está, no final das contas, em tremenda solidão. Entende os humanos, mas não se comunica com eles. Também não se comunica com os outros macacos que encontra no zoológico. Sequer se comunica com a orangotango fêmea (e por quem acaba se apaixonando) que acaba por encontrar no cativeiro. E, finalmente, está preso no zoológico. Isolado dos seus iguais, isolado no mundo. É, no final das contas, terrível, uma solidão terrível, que se torna suportável apenas com o sonho de utopia no futuro.
“Por que aos homens, essa espécie deprimente, foi dada a missão de pesquisar, observar e procurar entender o Universo e a vida? Por que a Terra criou a vida e a sua ameaça, a espécie deprimente?” O próprio título da obra já nos indica quem será o seu personagem principal: um orangotango capturado ainda filhote no Bornéu e enviado ao Brasil. A história se inicia em um laboratório, no interior de São Paulo, onde o orangotango é alvo dos estudos de uma “tímida, linda, ruiva, amorosa e dedicada pesquisadora universitária”. Em um primeiro contato, a sociobióloga tenta estabelecer um canal de comunicação com o orangotango, a partir de gestos. Depois, vieram os jogos, exercícios, até o orangotango alcançar um maior grau de relação com os humanos, o que o permitiu a sair da gaiola e explorar o mundo daquela universidade. Fugindo do seu mero papel de estudo, o orangotango começa frequentar, escondido, a biblioteca do departamento, onde aprende a ler aos poucos até se tornar um leitor obcecado. À noite, lia livros de filosofia, poesia, religião, ciência, tudo que estava ao seu alcance. Após um incidente no laboratório, o orangotango é enviado a um zoológico de uma cidade interiorana para servir de atração junto a tantos outros símios e animais. A solidão do orangotango é inevitável, considerando que, por seu intelecto desenvolvido, não consegue se relacionar com seus companheiros de jaulas e se vê aprisionado a um sistema de entretenimento tirano. A missão do orangotango darwinista marxista é clara. A única forma de conseguir a sua liberdade é através de uma revolução. Marcelo Rubens Paiva me ganhou nos primeiros parágrafos. Esse foi um daqueles livros que você não consegue parar. A obra inteira trata-se de uma reflexão sobre o homem feita por um orangotango. E que reflexão! Finalizo com palavras do próprio orangotango: “O maior predador do homem é o próprio homem. A injustiça. A desigualdade. O estilo de vida tedioso e sedentário. As máquinas assassinas que os transportam. A violência entre outros membros de clãs, a disputa por bens ou a invasão de território, com facas ou armas das quais saem balas velozes."
Admito que tenho certa dificuldade em expressar o que me incomodou na mais recente obra de Marcelo Rubens Paiva, se a pretensão do autor expressa em seu protagonista, um orangotango inteligentíssimo que tece comentários críticos (e ácidos) sobre o ser humano e suas relações sociais e políticas, ou se as escolhas narrativas de Paiva, que desperdiça uma premissa interessante (ainda que não nova) forçando uma conexão com a contemporaneidade brasileira - toda análise sobre os acontecimentos recentes de nosso país ainda precisam de um distanciamento de tempo para que possamos encarar o debruçar histórico e ficcional da literatura, correndo o risco de, como em "O orangotango marxista", soar panfletário ou raso. Claro que a obra não é descartável, especialmente no primeiro terço, em que Paiva encaixa muito bem suas intenções e rascunha um protagonista repleto de camadas. É, sem dúvida, o ponto alto da obra, infelizmente esquecidos nos demais pontos - ainda que a obra consiga chegar à reta final acima da mediocridade. Porém, pouco para um escritor tão pungente como Marcelo Rubens Paiva.
A perda do gosto da vida, da alegria de descobrir, experimentar. As jaulas que construimos para nossa própria espécie, também muda. A jaula do ego, do desgaste, da falta de interesse, do não mais pertencer, de viver na bolha que nos protege.
"Antes era o nada e o tempo. Antes mesmo de estarmos vivos, o tempo já vivia. E no fim dos tempos, só o tempo sobreviverá."
Interessante, bem escito, uma crítica interessante a aspectos de nossa vida contemporanea e cotidiana. Adorei os comentários que indicam que passamos a ver o mundo por meio de telas ao invés de vê-lo com nossos próprios olhos.
Em termos conceituais, não há nada de novo nesse livro. É a mesma base do homem revoltado de Camus: esse desejo por mudar tudo o que há de forma arbitrária. “É preciso destruir as formas e os moldes para construir”, diz o macaco, inconsciente de que os moldes se reconstroem sem intenção deliberada muito (mas muito) antes de Marx dar seus primeiros passos. O macaco quer “... abrir todas as trancas, libertar todos os enjaulados, deixar as feras soltas, libertar”. Acredita ser capaz disso. O macaco sabe o que é melhor para todos. Uma posição bem século XX.
Apesar de discordar do conceito do livro, literariamente, eu consigo reconhecer seus valores. A humanização do macaco, a sua desilusão adolescente (tão comum) e consequente fuga para Marx (tão comum quanto, ao menos a quem tem acesso à literatura ou a professores), a expulsão do laboratório após o evento sexual traumático, o abalo após a introdução da macaca nova no zoológico, a inversão de papéis do macaco antropólogo passeando pela cidade - e o inevitável julgamento a partir do superior olhar de um bom selvagem (e ainda marxista)... tudo isso dá um bom pano pra manga. E a aparente pesquisa relativa ao universo dos macacos também é admirável.
Sigo me entretendo ao ler textos dos quais discordo essencialmente. Gosto de pensar que uma boa ideia contrária ao que penso me fará refletir e, quem sabe, mudar de ideia. Entretanto, temo que talvez eu esteja condicionado demais para mudar. Sem resposta à vista para essa questão, o jeito é seguir lendo de tudo e ver no que dá.
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