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Os Meninos de Ouro

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«Esse homem fatal, José Matildes, é, a dado passo, definido como um Orfeu, dividido entre o resgate e a dissolução. Mas aonde regressará, e o que é que o desfaz? O caso amoroso com Marina certamente não o define no domínio moral, mas apenas no campo político. É por causa de Marina que José faz política, anda com ela ao lado como nas campanhas eleitorais, como se a conjugalidade fosse um comício. José é perspicaz, mesmo quando não se apercebe disso. Entendeu que os portugueses se desiludiram com a Revolução, que não foi apenas a libertação de um jugo mas uma promessa infundada de felicidade. Como escreve Agustina, o simbolismo afectivo da Revolução fracassou, e isso activou o velho fundo messiânico. Quem encarna esse Sebastião de gravata é José Matildes, príncipe de cortesia algo tensa, democrata sofista, jogador sem vícios. Ousado sem ser original, José detesta compromissos, cedências, afasta os aliados, seduz os adversários. Não é essencialmente um governante, nem um tribuno, é alguém que carrega uma angústia, que se sente culpado sem ter feito nada de mal, que vê os obstáculos como castigos.»

Do Prefácio

280 pages, Paperback

First published January 1, 1983

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About the author

Agustina Bessa-Luís

128 books234 followers
Agustina Bessa-Luís was born in Vila Meã (Amarante) in 1922. Her father's family was from the north of Portugal and her mother was Spanish.

She lived her childhood and teenagehood in the region of Douro, Minho and then Coimbra in 1948. She married Alberto Oliveira Luís in 1945 and after 1948 she moved to Oporto.

She started writing at the age of 16 and in 1950 she published her first novel, Mundo Fechado. In 1952 her talent was recognized with the award Delfim de Guimarães, for her book Sibila, which also received the award Eça de Queirós the next year.

In 1958, she gave her first steps in theatre, writing the play O inseparável.

Between 1986 and 1987 she was the director of the diary O Primeiro de Janeiro in Oporto. Between 1990 and 1993 she was the director of D.Maria II Theatre in Lisbon and a member of the Alta Autoridade para a Comunicação Social.

She is a member of the Academie Européenne des Sciences, des Arts et des Lettres in Paris, of the Academia Brasileira de Letras and the Academia das Ciências de Lisboa, being also recognized at Ordem de Sant'Iago da Espada (1980), Medalha de Honra da Cidade do Porto (1988) and degree of "Officier de l'Ordre des Arts et des Lettres", given by the French government (1989).

Various works have been translated in various countries and some were adapted to the cinema, such as Francisca, Vale Abraão and As Terras de Risco by Manoel de Oliveira. Her novel As Fúrias was adapted to the theatre by Filipe La Féria.

At the age of 81, Agustina Bessa-Luís received the Camões Award, considered the most important portuguese award.

Agustina Bessa-Luís nació en Vila Meã (Amarante, Portugal) en 1922, de madre española y padre portugués. Es miembro de la Academia Europea de las Ciencias, las Artes y las Letras de París, de la Academia Brasileña de las Letras y de la Academia de las Ciencias de Lisboa. Sus numerosos libros le han valido las más importantes distinciones, como la de Santiago da Espada (1980), la Medalla de Honor de la Ciudad de Oporto (1988) o el grado de Oficial de la Orden de las Artes y las Letras del gobierno francés (1989). En 2004 recibió el galardón literario más importante en lengua portuguesa, el Premio Camôes.

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Displaying 1 - 13 of 13 reviews
Profile Image for Luís.
2,452 reviews1,553 followers
June 3, 2024
A golden boy is called an exemplary child, promising a young man whose hopes are pinned for the future. But in Agustina, the golden children are, above all, the children of the Douro, children of the great northern rural families, fragile and prone to illness, defying any authority.
Profile Image for Tania Cunha.
176 reviews14 followers
May 1, 2019
Durante mais de 30 anos tive uma ideia preconcebida sobre a autora, não particularmente favorável, motivada pelo facto de a minha mãe não ter qualquer afinidade com a sua escrita.
Resolvi finalmente criar eu a minha própria percepção e o livro escolhido para tal foi este.
Talvez ainda inspirada pela minha última leitura acerca da Snu Abecassis, escolhi o livro que terá sido inspirado justamente no triângulo Sá Carneiro - Snu Abecassis - Isabel Sá Carneiro e no qual Rosamaria, a personagem inspirada em Isabel Sá Carneiro, é a heroína, como a própria autora refere.
Gostei globalmente do livro, apesar de não ser o estilo de narrativa em que mais me reveja. É um livro duro e amargo, que faz um retrato até caprichoso de José Matildes, muito longe do retrato romântico criado no imaginário nacional de Francisco Sá Carneiro.
Percebi a intenção em fazer de Rosamaria a heroína, apesar de a personagem ter características em que, enquanto mulher, pouco me revejo.
O livro traz uma interessante abordagem de vários quadrantes sociais do pós revolução dos cravos.
Profile Image for Paulo Bugalho.
Author 2 books72 followers
August 7, 2024
Mal comparado, isto é um aluvião, que pega em gente num qualquer socalco desprevenido e a larga cem quilómetros depois, numa planície alagada onde por pouco se salvou do afogamento. Adiante a torrente passa, com um sobrenadante confuso de personagens, enredos e alucinações do pensamento. Os livros de Agustina são mais de admirar que de aderir. Às vezes parecem ditados pela divindade ela mesma, num qualquer intervalo da criação, entre ter inventado uma estrela e outra, por glorioso desenfado. Mas como não dizer que às vezes exaspera tanta inteligência, a profusão de aforismos, tanto achado filosófico? Ou que um génio deste calibre talvez não precisasse do truque dos romances com chave, em que o interesse do enredo passa em parte por uma tentativa algo bisbilhoteira de fazer corresponder os personagens a gente histórica, de carne e osso? Mas que não há parecido com isto, lá isso não. Enfim, é um género à parte, o romance agustiniano, e a gente não tem senão de submeter-se. E é se quer...
Profile Image for Miguel Duarte.
132 reviews55 followers
August 31, 2018
https://www.comunidadeculturaearte.co...

Chama-se menino de ouro a uma criança que seja exemplar, promissora; a um jovem no qual sejam depositadas esperanças para o futuro. Mas, em Agustina, os meninos de ouro são, acima de tudo, meninos do Douro, filhos das grandes famílias rurais nortenhas, fragilizados e propensos à doença, desafiadores de qualquer autoridade. Em "Os Meninos de Ouro", publicado em 1983, o foco incide sobre José Matildes, homem político fatal do pós-revolução, detentor de fundo messiânico, com francas parecenças à figura de Francisco Sá-Carneiro, ex-primeiro-ministro de Portugal.

José Matildes, advogado, a quem “os estudos jurídicos atrasaram (…) qualquer noção de perfeição”, é um homem de intelecto, da razão, incompetente nas questões dos sentimentos, habituado que estava à solidão e decepção, incapaz de ultrapassar a sua meninice, fechando-se a ler, ainda que nada entendesse (“lia com aplicação Fernando Pessoa, que achava lúcido e coerente, duas coisas que Fernando Pessoa não era”).

Acima de tudo, para José Matildes, o poder era não uma consequência da sua posição, mas “um destino a ser vivido, com todas as suas misérias e decepções, suas grandezas e seus desprazeres.” A doença, presente em todos os momentos que antecedem revoluções pessoais na vida de José Matildes, fortalece a sua vontade à medida que com ela cresce o ressentimento e a culpabilidade. Possuído por fantasmas infantis, não o faz por ambição, mas como que por vingança, com uma constante culpa dentro de si, sem razão que a origine. É alguém, portanto, imerso numa rectidão moral extrema, como forma de se proteger dos desejos e ansiedades capazes de o afectar.

Daí a aparente contradição quando José abandona a sua mulher, Rosamaria, para se juntar com Marina, uma mulher mais sofisticada, um “manequim da realidade” na qual José projecta os seus desejos fantasmais. Mas, ao contrário de Rosamaria, Marina era uma mulher completamente dependente do cenário que a cercava, “uma mulher pouco imaginativa” que parecia rebelde aos olhos da sociedade por com ela não partilhar os seus prazeres e obrigações. Já Marina via nele “uma espécie de provinciano pronto a receber a escola das ambições nobres, como seja a do poder”. Alguém que, à falta de ideias originais, “optava pelas ideias ousadas que eram as ideias feitas, com mais precipitação.”

Mas a relação entre os dois estava completamente dependente de Rosamaria, que negava a José o divórcio: “a ira de José contra ela era como que a protecção da intimidade com Marina”, e a heroína deste livro é precisamente essa provinciana esposa abandonada, e Agustina deixa-o claro logo desde início. Na sua família, a sua tetravó Ana de Cales, “amazona duriense”, dominava todo o espaço cívico e intelectual, uma espécie de figura exemplo da ortodoxia duriense, e Rosamaria, trocada por não se adequar à figura de grande mulher atrás de um grande homem, era uma mulher dura, séria, lutadora, “fiel à sua alma absurda”. Era como que a encarnação da “consciência dos limites óptimos do cidadão de excepção” que era José Matildes. Mas, perante o abandono, não se faz de vítima, “o seu orgulho era absolutamente a sua razão de existir”.

Agustina compara, aliás, Rosamaria à Natacha de "Guerra e Paz", “modelo para uma paixão genuína, entre a candura e a sensualidade provocativa”, “impulsiva e irreflectida.” O próprio José bebe do tradicional romance russo “esse comportamento do fidalgo rural, que deixa à mulher a promiscuidade familiar, e conserva na neurastenia letrada a dignidade do anfitrião”, projectando-se até na figura de Pierre, “uma espécie de bom selvagem para o salão.” Porque a verdade é que José, tal como Pierre, nunca fora um homem de poder. A dinâmica, com a qual não tinha relação profunda, era imposta pelo exterior, e José “tinha que conciliar a sua identidade limitada, como a de qualquer ser humano, com a gigantesca fórmula selecionada do homem culto e capaz.” Porque o português procura o seu desejado e, segundo Agustina, só com a Revolução poderia o desejo residir nos ombros de alguém como José Matildes. Isto embora ele próprio devesse um certo culto às ideias do antigo regime, já que “muitas vezes encontrava no fio das suas ideias as mesmas convicções que os textos de Salazar exprimiam.” O próprio Matildes afirma, quando se dá o 25 de Abril, achar a revolução “uma perda de tempo imperdoável” por achar que “o sistema capitalista recuava espontaneamente e acabava dentro de trinta anos.” Não deixa de ser curiosa, aos olhos de 2018, esta ligação do Estado Novo ao sistema capitalista.

Com a Revolução, ainda que o eixo social se deslocasse, a fala oficial das instituições permanecia a mesma, e os portugueses voltavam-se cada um “para a solução dos seus interesses privados.” Mas, acima de tudo, a democracia burocrática “dera aos coleópteros [besouros] a virtude de se acharem aves com quatro asas”. Fruto da deficiente simbolização afectiva da Revolução, arranjavam agora terreno propício para o seu fundo messiânico.

“Tinha-se dominado uma linguagem operatória, mas a linguagem emotiva tornara-se irreconhecível. Quando aquele homem apareceu munido do conceito do todo-poderoso, que nascia da não-liquidação da infância, como negação da realidade, o país assumiu o símbolo messiânico – criança fatal e sobre-humana que carrega toda a angústia, ou seja, o mal-estar da civilização em geral.”

Mas, no caminho, estava a recusa do divórcio por Rosamaria, que o consumia, ao mesmo tempo que lhe era motor de força. Rosamaria não se submetia, fazia questão de fazer oposição à figura na qual o seu marido se tornara.

“Ela perdera o respeito, não o decoro. E, de certa maneira, amava-o ainda; só que ele não suportava essa espécie de amor com um desprendimento leal, que o tornava insubmisso. Sem submissão (…) ele não podia achar honra nem satisfação social.”

Senhora duriense, não dependente de ninguém, de nenhuma autoridade, que, tal como Ana de Cales, sua tetravó, forja o seu lugar na sociedade patriarcal.

“Aquilo que nela haviam de qualificar como a mais baixa obstinação era, no fim de contas, o seu direito à mais singular das desistências da inteligência em comum e da vida em comum.” Não podiam atribuir-lhe uma identidade sem a tornar dependente de alguém ou de alguma coisa – e isso era toda a questão. É possível que, na sua origem e no seu limite, o homem não tenha uma identidade; a sua ressurreição é esse estado perfeito de ausência de identidade.”

E assim, solta da amarra da identidade e do culto narcísico do indivíduo, Rosamaria sobe. É a única capaz de escapar à opressão do desejo de domínio, tornando-se, finalmente, numa “pessoa angélica”. Torna-se finalmente feliz e está em paz, porque, como diz Agustina, “o que significa a salvação senão aquele ponto em que os homens desistem de oprimir outros homens, e se retiram com a sua limitada perfeição?”

Mas se a salvação é esse ponto de não-opressão, é precisamente nessa disputa de personagens que se forma a literatura de Agustina, em que o que interessa está longe de ser a narrativa, mas sim a forma como, com ela e com as personagens, se chega às palavras que nos impelem a pensar. Por isso, "Os Meninos de Ouro" é também exemplo dos tão saudados juízos lapidares de Agustina, aforismos diferentes dos vulgares por serem não apenas dependentes do seu contexto como produto do mesmo, frases inseridas num tempo concreto, diferente do ritmo temporal normal. Nesses momentos, não há dúvidas de que a literatura de Agustina Bessa-Luís é intemporal.
Profile Image for Rosa Ramôa.
1,570 reviews86 followers
October 31, 2014
Gerês...
"Nos lugares remotos do Gerês há uma planta que produz um lírio azul, planta endémica e maravilhosa. Não sei se se encontra na Serra Amarela ou nas ravinas das Terras do Bouro; pode crescer nos fojos abrigados pelo mosteiro beneditino que foi defesa fronteira. Não sei. Penso nela como sendo um olhar que aterra ergue das suas profundezas e que nos empresta para que os segredos novos nos sejam apontados. Pois é a terra quem nos persuade aos caminhos que ela tem ainda invioláveis. Um lírio azul que parece perdido nas alturas roqueiras é talvez algo mais do que a Iris boissieri; um olhar que nos vigia, passe a candura poética.»
405 reviews13 followers
Read
June 29, 2021
Me gustaría decir que he disfrutado mucho este libro, pues la autora es una de las escritoras más reputadas de la literatura portuguesa de cualquier época, el tema del libro (la vida sentimental y política de un hombre de Estado liberal-conservador en la transición a la democracia tras la Revolución de los Claveles) prometía y la calidad literaria de Bessa-Luís es innegable, pero no sé si puedo decirlo; más bien no. En el aspecto del estilo y la forma no le puedo poner ningún pero al libro. Está escrito con un portugués rico, una sintaxis elaborada y deja por el camino algunas reflexiones memorables. No obstante, el argumento quiere ser una crónica entre lo periodístico, lo épico y lo apasionado de la vida de José Matildes (alter ego del primer ministro postugués Francisco de Sá Carneiro), su esposa Rosamaria y su amante Marina y se acaba convirtiendo más en una mezcla de prensa rosa refinada con toques de historiografía que se soportan bien durante los primeros compases pero resultan hastiantes al final. Reconozco, de hecho, que me salté las 70 páginas finales porque ya sabía cómo acababa la historia de Sá Carneiro y para seguir leyendo por orgullo o por postureo algo que no me estaba convenciendo prefería dejarlo.

Así pues, esta obra demuestra cómo un buen estilo (y el de Bessa-Luís es magnífico) puede verse desbaratado por la falta de contenido. No hablo ni siquiera de falta de argumento, porque hay obras literarias geniales con argumentos pobrísimos pero con mucho contenido, sino de una dficiente ejecución artística. Una pena, pero así es.
Profile Image for João Vaz.
254 reviews27 followers
July 14, 2020
É impressionante como a Agustina consegue escrever sobre estados de alma, com pouquíssima acção (esta relegada para um ou dois parágrafos no início e fim de cada capítulo), por mais de 300 páginas sem nunca ser aborrecido. A venenosa análise do carácter dos homens é o que lhe interessa, e fá-lo impecavelmente, com a torrencialidade e genialidade que caracterizam a sua escrita. A história incide sobre José, homem político de direita do pós-revolução, sobre o qual são depositadas todas as esperanças (messiânicas) para o futuro da nação. Fala-se dum triângulo amoroso entre José, sua mulher Rosamaria, e a sua amante Marina. Parece tratar-se de Sá Carneiro, só que não.
Profile Image for Sara Moreno Castaño.
19 reviews1 follower
May 19, 2024
Citações:

"A vida de família corrompe muito da originalidade humana."

"...tinha um potencial muito raro nos portugueses: o poder não era para ele uma consequência da classe patronal, era um destino a ser vivido, com todas as suas misérias e decepções, suas grandezas e seus desprazeres. "

"Quem fala em aventuras, meu parvo? Isto são reuniões de gente séria. Há coisa mais séria do que rendermo-nos ao aborrecimento como se ele fosse um prazer raríssimo?"

" vida das crianças é, como a dos adultos, cheia de peripécias insondáveis e maliciosas. A inocência é um estado despropositado e rápido como a neve num país quente."

"A crueldade, que era só um factor lendário transmitido por uma fraude, parecia despertar nas pessoas uma curiosidade que era ao mesmo tempo sensual e contrária à afeição."

"As grandes tentações são provavelmente conforme um conflito em que a surpresa actua mais do que o prazer se pratica."

"Os homens sabem que o amor é uma coisa divina, feita para gente divina; e, por isso, matam, porque não são divinos nem suportam interpretar o amor como uma farsa vulgar.

"Tratava-se de snobs, o que é quase sempre diferente de ambiciosos. (…) Mas na peugada dessa sociedade em que as hipocrisias bem praticadas acabavam por parecer virtudes perdoáveis, havia outra mocidade que prescindia da ironia para se fazer invisível e, por conseguinte, para esperar a sua oportunidade."

"Quem faz as revoluções são os benfeitores da Nação, e quem as sustenta são os voluntários acima do comum, ou seja, os que sabem distinguir as coisas sérias de um expediente, o que não é fácil e requer singular competência."

"A sua sensatez parecia uma força quando o povo se mostrou capaz de compreender que as grandes mudanças não são feitas por génios, mas por homens que actuam no momento exacto. "

"À força de ter vivido uma infância maravilhosa, como um príncipe que a si próprio adula com histórias surpreendentes, o mundo era-lhe aborrecido e inferior aos sonhos que em menino tinha reunido, esperado, vivido com faculdades prodigiosas."

"Dentro de pouco tempo, mais exactamente nos anos sessenta, uma franja da juventude burguesa viu-se a braços com uma permissão que a deixava totalmente disponível para recuar em todas as frentes da integridade essencial para permanecer livre. Não se manifestando pela indignação, manifestou-se pela turbulência que precede uma sociedade de ociosos. Uma sociedade de ociosos é mais própria de um principado do que de uma república; razão porque Portugal se tornou numa nação de desigualdades viciosas que tenta ingloriamente governar-se como uma república."

"Talvez os portugueses aspirem a uma igualdade que nenhum homem o bastante sábio para estabelecer um governo livre partindo dessa aspiração como de um ponto real, pôde ainda conseguir."
Profile Image for Maria Saraiva de Menezes.
Author 23 books18 followers
August 30, 2020
Tudo aqui é ironia, desde o título, mordaz e certeiro, “Os Meninos de Ouro” até ao conteúdo narrativo, alucinante e implacável. Agustina deita por terra a aura dourada de Francisco Sá-Carneiro, fazendo da mulher despeitada a verdadeira heroína, embora tosca e rude, uma heroína à sombra da sua insignificância. Sá-Carneiro aqui vestindo a pele de José Matildes é um sôfrego do poder e do próprio ego, relegando os filhos e a mulher para segundo plano em função de uma ascensão meteórica na ribalta do poder político. A autora ressalta o seu lado de doente no abismo de maleitas físicas que sempre o atiraram para uma urgência de viver. Mas o que mais sobressai é o facto de este não se conhecer a si próprio, senão apenas ao reflexo narcísico no espelho da política e do grupo que o idolatra. Sá-Carneiro, José Matildes, arrasta com ele um extraordinário vazio, o vazio da vontade própria que apenas brilha na submissão de um brilho fátuo perante esse grupo submetido ao seu carisma. O delírio da sua paixão extra-conjugal apenas corrobora esta visão, fazendo de Mariana, Snu, um capricho de auto-adoração. Agustina enuncia a tese de que o mundo está em vias de rejeitar as sociedades narcísicas, as que são organizadas em torno do líder emocionalmente projectado e vivido.

Citações:

“O chá que pedira chegara morno, e é sabido como biblicamente se diz que o chá morno é exemplo de abominação.”

“Agiam os dois ao contrário da sua natureza, o que era sinal de que temiam comprometer-se”

“-É desta maneira que um ministro se faz dono do país: progredindo na injúria.
Estava um pouco interdito com o rumo que as coisas levavam, e aquele príncipe com duas esposas parecia-lhe motivo para uma ópera cómica, mas não deixava de significar uma coisa: que as pessoas preferem ser cúmplices na loucura, a ser lúcidas na incerteza.”

“José não entendia nada, mas lia com aplicação Fernando Pessoa, que achava lúcido e coerente, duas coisas que Fernando Pessoa não era.”

“(...) e havia também um mordomo tão elegante que podia ser alugado como pai da noiva num filme de aristocratas”.

“(...) ele sabia que conquistar o poder não é o mesmo que conquistar a honra; mas que o mal precisa de mais adeptos , porque praticado em conjunto é mais seguro”.
Profile Image for Sandra Neves.
14 reviews1 follower
April 25, 2020
Creio que Agustina, com a habilidade linguística que lhe reconhecemos, e beneficiando do domínio de regionalismos e até do conhecimento de artefactos hoje em desuso, deu à realidade uma interpretação pessoal, solidarizando-se com a mulher traída, "humilhada", no seu dizer e conferindo a Sá Carneiro e Snu Abecassis, corporizados por José Matildes e Marina feições que a comunidade portuguesa nunca lhes reconheceu. Se o político é retratado como neurótico e hedonista, Marina é apagada, fria, incapaz de despertar paixão, ao contrário de Rosamaria, a grande paixão do ex-marido. É pouco plausível, porque só um masoquista abandonaria tal "grande paixão". A autora expurgou através do talento a sua visão social. Que não coincide com a minha.
Profile Image for Plano Nacional de Leitura 2027.
345 reviews586 followers
Read
June 23, 2020
A partir de uma construção messiânica, a autora inspira-se na figura do antigo primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro para relatar uma versão alternativa e ficcional da sua ascensão política e do romance que encetou com Snu Abecassis. O protagonista é um político do Norte de Portugal, que - ao vir para Lisboa - encarna as esperanças de parte da população portuguesa quando a Revolução começa a espalhar desilusões. Em paralelo, apaixonado por uma mulher estrangeira e moderna, faz esforços para obter o divórcio da esposa legítima.

ISBN:
978-989-641-782-6

CDU:
821.134.3-31

Livro recomendado PNL2027 - 2019 2.º Sem. - Literatura - dos 15-18 anos - maiores 18 anos
123 reviews
August 11, 2025
A profundidade psicológica da análise das personagens dá um lugar muito especial a Agostina na Literatura Portuguesa. Os Meninos de ouro não desilude. Um retrato do percurso narcísico das personagens, com particular ênfase na construção de um político de direita pós-25 de Abril e das mulheres fortes cujos defeitos são essenciais á sua força.
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