Este livro é precioso quer por a sua autora ser testemunha da vida clandestina durante o Estado Novo, quer por ser uma mulher que teve um papel muito relevante na resistência. Margarida Tengarrinha vai desfiando as suas memórias e, à medida que as li tornou-se claro que mesmo que os portugueses não conhecessem a extensão da violência, sabiam que ela existia.
Este testemunho é especialmente relevante porque Margarida Tengarrinha não revela somente o pequeno círculo dos militantes clandestinos, mas também o de todos os afectados. E assim percebemos as consequências para as famílias dos clandestinos e dos presos, dos seus filhos e pais. E também dos círculos maiores de quem ajudava a resistir, os médicos, enfermeiras, vizinhos, amigos e por vezes desconhecido. E por isso é confortante perceber que nem todos eram apáticos e medrosos e cuja humanidade prevaleceu sobre o medo.
Pena é que não tenha havido uma revisão do texto, cheio de gralhas, e que ensombra a qualidade do texto.
"Ao longo de quase meio século, foram muitas centenas, talvez milhares, aqueles que, conscientes do perigo que corriam e vencendo o medo, com coragem e generosidade, abriram as suas casas, deram guarida, serviam de refúgio aos perseguidos, transportaram nos seus carros e apoiaram de variadíssimas formas os militantes clandestinos e o seu partido, o Partido Comunista Português". P. 171