Em 1939, o mundo entrou em guerra. Foi o conflito mais mortífero da história da humanidade. Mas, na pequena ilha açoriana do Faial, ingleses e alemães conviveram em paz durante mais três anos. Eram os loucos dos cabos telegráficos. Do mar em frente emergiam os periscópios de Hitler. Dezenas de navios britânicos eram afundados todos os meses. Já em terra, as crianças inglesas continuavam a aprender na escola alemã, dividindo as carteiras com meninos adornados de suásticas. As famílias juntavam-se para bailes e piqueniques. Os hidroaviões da Pan American faziam desembarcar estrelas do cinema e da música, estadistas e campeões de boxe. Recolhiam-se autógrafos. Jogava-se ao ténis e ao croquet. Dançava-se o jazz. Viviam-se as mais arrebatadoras histórias de amor. Poderia um agente nazi ter-se escondido nos Açores, consumada a derrota de Hitler? Quem foi Hansi Abke? Que sombra lança hoje sobre o destino de José Filemom Marques, o sobrinho criado no Brasil? Um romance que vai de Lisboa a Nova Iorque, de Friburgo a Praga, de Bristol a Porto Alegre e às ilhas açorianas, onde todos são descobertos e ninguém pode ser apanhado. Um reencontro entre dois homens de tempos distintos e que talvez tenham mais em comum do que aquilo em que gostariam de acreditar. Uma memória das mulheres que amaram e talvez não tenham sabido fazê-lo.
Joel Neto é autor dos romances "Arquipélago" (2015), "Os Sítios Sem Resposta" (2013) e "O Terceiro Servo" (2000), para além do volume de contos "O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas" (2002) e de vários outros livros de diferentes géneros. Publica semanalmente no jornal "Diário de Notícias" a coluna "A Vida No Campo", série de relatos sobre o seu próprio regresso à Terra Chã, freguesia rural da ilha Terceira (Açores), e é cronista permanente de vários diários portugueses e da diáspora portuguesa. Antigo jornalista, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, nas qualidades de repórter, editor, comentador e anfitrião, tendo ligado o seu nome à maior parte dos principais meios de comunicação social portugueses. "Arquipélago" (ed. Marcador/Os Livros RTP) mereceu rápido aplauso da crítica e do público, esgotando a primeira edição ao fim de duas semanas. O seu último livro, "A Vida no Campo (ed. Marcador), publicado em Maio de 2016, esgotou a primeira edição ainda antes de chegar às livrarias.
Apaixonei-me por Joel Neto quando li Arquipélago. Foi uma leitura sublime, onde tudo está magistralmente orquestrado e que continuo a recomendar muitíssimo. A Arquipélago seguiu-se-lhe A vida no campo, num registo distinto, de não-ficção e que me fez aumentar ainda mais a vontade, já de si tremenda, de conhecer a ilha Terceira e de continuar a ler Joel Neto. Quase dois anos depois dessas duas leituras, voltei a ter Joel Neto nas minhas mãos. Fui seguindo as pistas e indicações que o autor foi deixando nas redes sociais e na imprensa sobre a publicação de Meridiano 28 e nem imaginam o meu contentamento e euforia quando, por fim, em maio deste ano, comprei a obra (autografada e tudo) e a coloquei na minha estante. Aqueles que estão a par da minha mania das leituras cronológicas devem estar agora mesmo a questionar-se sobre como foi possível eu ter lido em setembro uma obra que apenas havia comprado 3 meses antes. A culpa é de uma das categorias da maratona Bookbingo, que “me obrigou” a retirar da estante um livro que tivesse um número no título. Meridiano 28 era a mais antiga que morava cá em casa e que encaixava nessa categoria, por isso não tive outro remédio que não lê-la antes da sua vez ;) Meridiano 28 é o meridiano que atravessa o arquipélago dos Açores. Contudo, em termos literários é isso e muito, muito mais. Centra-se, como é óbvio, nesses torrõezinhos de terra que pertencem ao nosso país, sobretudo na ilha do Faial e faz-nos viajar a uma época que, como sabem, me fascina desde sempre – a Segunda Grande Guerra. Contudo, estaria a ser injusta se apenas dissesse isso sobre esta obra que, confesso já, me arrebatou. A narrativa arranca em 2107. José Filemom Abke Marques (que nome maravilhosamente sui generis) enterrou o seu tio há poucos dias e recebe uma estranha visita na sua loja de informática. Não é a primeira vez que se encontra com aquele velhote que parece ser gémeo do ator Morgan Freeman, mas tudo faz para não dar a entender que o reconheceu. Tão-pouco se deixa tentar (pelo menos naquele dia) pela caixa que o misterioso homem lhe entrega e que, segundo ele, contém material relevante para que José termine o que prometeu fazer há mais de vinte anos, na biblioteca de uma luxuosa mansão dos arredores de Nova Iorque. Este é o preâmbulo para uma trama que se molda com uma brilhante mistura de mistério, suspense, momentos históricos, viagens entre vários pontos do mundo, um equilíbrio perfeito entre presente e passado, dois homens protagonistas e provenientes da mesma família, deliciosas personagens secundárias e os Açores, esse arquipélago místico, mágico e que me atrai cada vez mais e mais.
Hidroaviões Clippers da Boeing B-314 da Pan Americam amarados no porto da Horta - Faial - Açores, anos 40.
Hidroavião Clipper da Boeing B-314 da Pan Americam amarados no porto da Horta - Faial - Açores, anos 40.
Alguns breves apontamentos - Review mais tarde...
“Primeira Parte”: Muito superior ao “Arquipélago”;
“Segunda Parte”: Excepcional caracterização das personagens e do seu enquadramento no tempo e no espaço;
“Terceira Parte”: A vertente histórica – apesar de detalhada -, nunca se torna monótona ou entediante. Antes pelo contrário!;
“Quarta Parte”: ao longo do romance a tensão dramática e o suspense tornam o livro num “page-turner”;
“Quinta Parte”: Este género de obra literária – entre a ficção, a não-ficção e a mistura dos dois géneros literários – interessa-me particularmente. “Misturara o romance com episódios plausíveis e factos comprováveis. Até com a matéria histórica. E criara percalços, medos, sentimentos e culpa. Encenara a tristeza e o desespero, a súplica e o despeito.” (Pág. 371 - 372);
“Epílogo”: A primorosa estrutura do romance (a questão da numeração dos capítulos é só um desses exemplos), a conjugação das inúmeras fontes de informação e a sua articulação são exemplares.
“Hansi sabe contar uma história. Consegue acreditar nela. Quando um homem acredita na história que conta, quem a leia corre o risco de acreditar também.” (Pág. 372) – foi o meu caso!
"Quando um homem acredita na história que conta, quem a leia corre o risco de acreditar também."
Mais uma grande história com os Açores como pano de fundo, essa terra mágica que se sente e se entranha. Gostei das histórias que se entrelaçam e do que parece e nem sempre é. Vou ficar atenta às próximas obras deste autor.
Joel Neto é autor de mais de uma dúzia de livros de diferentes géneros, entre os quais Arquipélago, A Vida no Campo e Meridiano 28. Nasceu na ilha Terceira, Açores, e mudou-se para Lisboa aos 18 anos, para estudar Relações Internacionais. Depois de quase duas décadas de trabalho voltou à ilha natal em 2012, determinado a dedicar-se inteiramente à literatura. Vive desde então no lugar dos Dois Caminhos, freguesia da Terra Chã, onde escreve e cultiva uma horta, um pomar e um jardim de azáleas.
Joel Neto continua a surpreender-me. Já tinha gostado muito do Arquipélago, mas acho que Meridiano 28 é superior, e é por isso mesmo que lhe dou 5 estrelas e entrada directa para a minha prateleira dos favoritos. Mais do que a história de um agente nazi ter-se escondido nos Açores este livro é sobre relacionamentos. É através da amizade entre Hansi e Roy, do amor entre Filemom e Alice, e da história dentro da história de Hansi Abke e Kathryn que o autor nos conta as aventuras e desventuras acontecidas na Horta dos anos 40. A ilha do Faial, em concreto a cidade da Horta, é a personagem principal deste romance. Uma cidade cosmopolita, culta e moderna, que foi utilizada como base naval durante as duas grandes guerras mas que simultaneamente conseguiu que as diversas comunidades (ingleses, alemães e portugueses) vivessem em harmonia. Uma cidade que se habituou a ver, atracados ao largo, os grandes navios de guerra, que se habituou a ver grandes estrelas de cinema de Hollywood a desembarcar - dos moderníssimos Clippers da Pan Am - no Aeroporto Marítimo do Funchal. O tempo em que os “malucos dos cabos” andavam pela ilha, o Café Sport (agora mundialmente conhecido como Peter Café Sport ), os passeios na ponta da Espalamaca, as partidas de ténis, a praia de Porto Pim, as tardes no Monte da Guia, a presença imponente do vulcão e os bailes onde se dançava charleston, pasodobles, tangos-milonga e/ou slowfoxes. A música é uma constante ao longo do livro.
Joel Neto não escreve bem, escreve MUITO BEM. A narrativa é original, o trabalho histórico minucioso, as descrições são maravilhosas e as personagens….perfeitas.
E agora? Agora vou ter de digerir muito bem estes últimos capítulos antes de conseguir falar sobre este livro. Surreal! Obrigada Joel Neto por mais esta obra! Já disse que estou sem palavras?
Custa-me imenso, mas para ser coerente e honesta comigo própria, não posso mesmo dar mais do que duas estrelas, porque na verdade não cheguei a gostar deste livro.
O principal problema foi que, para mim, não funcionou enquanto romance. Não gostei dos personagens e achei a escrita desapaixonada, falha de emoção, mais adequada a uma obra de não ficção - formato que talvez tivesse resultado melhor. Entre a história propriamente dita, do José Filemom, os capítulos do livro que este está a escrever e as entradas do diário de Hansi, não encontrei nada que me agarrasse, que me levasse a envolver-me.
Ainda antes de chegar à página 300 pensei em desistir, pois não tinha qualquer interesse em saber o final da história, mas achei que era uma falta de respeito pelo autor - e podia ser que o final merecesse mais uma estrelinha, mesmo que pequenina. Mas o twist final é bastante óbvio e o desenlace da perseguição ao nazi é decepcionante. E achei muito forçada a explicação para a encomenda da biografia de Hansi a José Filemom. Toda aquela conversa final entre Filemom e "Morgan Freeman" me pareceu bastante artificial.
Recomendo apenas a quem esteja muito interessado na parte histórica que aqui se relata (ver sinopse).
Uma história emocionante sobre os nossos Açores. Congratulo o autor pela sua escrita envolvente e pela forma como nos contou esta história. Não será certamente o último livro que lerei deste autor.
Este é um daqueles livros de que nos vamos enamorando lentamente. Não foi uma paixão fulgurante, pois estas são intensas mas fugazes; pelo contrário, não me vou esquecer da história que o escritor Joel Neto tão bem soube narrar.
Adorei conhecer a ilha do Faial em termos geográficos e sociais nos anos trinta e quarenta do século XX, bem como o ambiente que lá se vivia: a convivência entre alemães, ingleses e açorianos.
Desconhecia a importância estratégica desta ilha situada no meio do Atlântico, antes do início da Segunda Guerra Mundial, quando existiam três grandes empresas, uma inglesa, outra alemã e uma terceira americana, que desenvolveram o funcionamento dos cabos telegráficos que passavam por debaixo do mar, bem como foi uma surpresa saber que nas grandes viagens transatlânticas entre a América e a Europa, durante as quais os hidroaviões mais modernos da época faziam paragens para se abastecerem, estes transportavam estrelas de cinema, da música, do desporto e políticos que, ao saírem para repousarem, faziam as delícias de todos os habitantes da ilha, os quais faziam excursões até ao porto só para os avistarem.
Descobri que a ilha do Faial era mais cosmopolita, mais vibrante, mais desenvolvida culturalmente e aí vivia-se com maior liberdade que no resto de Portugal. Havia festas com bailes onde se dançavam as músicas da época, como o jazz, e onde confraternizavam portugueses, americanos, ingleses e alemães.
De um casamento entre um alemão e uma açoriana nasceu Hansi Abke, que era um adolescente nessa época, e cujo melhor amigo se tratava de um jovem inglês, de nome Roy Groves, os quais percorriam a ilha, jogavam ténis e disputavam o namoro com outras jovens; contudo, o primeiro acabou por se apaixonar pela mãe do segundo, o que veio a perturbar a relação entre os jovens e talvez, nunca cheguei a descobrir se assim foi, a levar a que Roy Groves se decidisse a incorporar no exército inglês em 1944, e deste modo, a decidir o destino e o futuro dos dois amigos.
Mas quando a Segunda Guerra Mundial deflagrou, junto à ilha do Faial, no oceano Atlântico, decorreram batalhas entre submarinos alemães e barcos ingleses, que provocaram o seu afundamento e as mortes dos combatentes de ambos os países, sendo os feridos socorridos no Faial, cujos habitantes, de forma clandestina, entregavam mantimentos aos contendores.
Apesar da guerra, e até 1942, ingleses e alemães continuaram a conviver amigavelmente, e as crianças inglesas a frequentar junto com as crianças alemãs a escola de um professor alemão.
Contudo, a história não se resume à ilha do Faial, nem àquela época, pois decorre também entre o passado e o presente, onde é feita uma proposta por um milionário americano ao sobrinho de Hansi Abke, o informático José Filemom Abke Marques, para que este pesquise e escreva a história da vida do tio, a propósito de uma eventual homenagem que lhe iria ser feita na ilha do Faial, uma vez que, nos anos 50 e 60, este, após ter regressado da Alemanha, onde viveu e estudou Direito numa universidade desse país, depois de ter terminado a Segunda Guerra Mundial, perseguiu e acusou um antigo nazi que se refugiara na ilha do Faial no exercício das funções de delegado do Ministério Público.
Apesar de José Filemom Marques desconhecer o passado do tio, não obstante ter vivido com o mesmo desde os seus doze anos de idade na cidade de Lisboa, vindo do Brasil, país no qual residiu com a sua mãe até à morte desta, até porque ambos se comportavam como dois estranhos que quase não comunicavam e, que, aparentemente, nada sabiam um do outro, o sobrinho, após a morte do tio, viaja pela ilha do Faial, pela Alemanha, por Inglaterra, por Praga e por Nova Iorque, em busca da história de vida de Hansi Abke, tendo como auxílio os diários incompletos deste último.
E nessa busca pela verdade, o escritor vai-nos surpreendendo passo a passo, pois a cada revelação que julgamos ser a verdadeira, sucedem-se outras que põem em causa as anteriores, o que nos deixa em total "suspense" até à última página do livro.
Hansi Abke viveu toda a vida com o sentimento de culpa devido à sua ascendência alemã por parte do seu pai, achando-se também responsável pelos crimes cometidos pelo regime nazista, o que o tornou um homem infeliz, sozinho e durante muitos anos a perseguir na Alemanha e na ilha do Faial todos possíveis criminosos de guerra nazis.
O sobrinho, já demasiado tarde, e depois da morte do tio, conseguiu descobrir que afinal admirava e amava aquele homem, que acabara por moldar a sua personalidade, tornando-se tão parecido com o mesmo, um ser humano solitário e incapaz de exprimir os seus sentimentos, até que o reencontro com uma antiga paixão de juventude, o levou, com mais de quarenta anos, a tentar agir de forma diferente da do tio e a procurar ser feliz através do amor.
E muito mais haveria para dizer de uma história simultaneamente complexa e envolvente, onde nada é o que parece ser.
José Filemon Marques recebe, pela segunda vez, uma caixa com diários que pertenciam ao tio, Hansi Abke, para que possa escrever a sua história. É-lhe dito apenas que o tio é um herói de guerra, que perseguiu um nazi que se teria escondido na ilha do Faial, nos Açores.
A curiosidade vence e José vê-se a braços com a tarefa hercúlea de ler os diários do tio quando era apenas adolescente (muitas vezes ilegíveis) e de preencher as lacunas dos dias em que não há entradas, ou em que estas foram arrancadas.
Aos poucos, à medida que José vai pesquisando, viajando e escrevendo, vai havendo uma sobreposição da realidade com a ficção, onde vamos descobrir um Faial onde alemães e ingleses conviviam de forma próxima, com relações de amizade e partilhando escola, trabalhos e vivências.
É um retrato muito interessante de uma parte da História que me era completamente desconhecida, uma vez que Portugal se deixou à margem dos conflitos da II Guerra Mundial. Que cidadãos de dois países inimigos tenham encontrado naquela ilha um lugar de partilha e amizade, é simplesmente fantástico. E, como sempre, a escrita do Joel não falha em envolver-nos na história e deixar-nos curiosos sobre o que a personagem principal vai descobrindo sobre o misterio que era o seu tio.
Eu já fui aos Açores! A primeira vez foi em 2016 quando li Arquipélago (http://flamesmr.blogspot.com/2016/02/...). A segunda foi, novamente, em 2016 quando li A vida no campo (http://flamesmr.blogspot.com/2016/06/...). Esta terceira vez foi ainda mais especial, com a leitura de Meridiano 28, e as razões que o tornaram ainda mais especial para mim não serão aqui explicadas. Não, eu nunca fui (fisicamente) aos Açores, mas eles já habitam no meu imaginário graças ao Joel.
José Marques Filemon é personagem principal deste livro. 1996 desloca-se a Nova Iorque a pedido de C.Devon Fitzhugh, Esq que o contrata para escrever um livro sobre o seu tio, Hansi Abke, um “famoso” caçador de nazis e que se pretende deixar escrito o seu legado.
20 anos depois de ter sido encomendada a obra, a após a morte do seu tio, José Filemon mete mãos a obra através de diários deixados pelo tio e aqui vai descobrindo a sua historia de vida em busca do herói anunciado por Fitzhugh.
Através destes diários somos transportados ate ao Açores, ilha do Faial onde é descrito quotidiano daquela época (1939-1944), festas e a chegada de hidroaviões que transportando pessoas famosos se tornavam numa das atrações principais daquela época. Viviam-se tempos de aparente tranquilidade na medida em que do lado oposto se ia travando a grande guerra. Aparente tranquilidade uma vez que a guerra era invisível mas estava presente em todos.
Este livro fala de temas ligados á amizade, amor, ciúme, ódio e vingança.
O autor vai dando pistas ao longo do livro que parecem inofensivas e passam despercebidas mas no desenrolar da história vemos que afinal as coisas não são bem com as apresentadas inicialmente e somos envolvidos com muita facilidade na história, dá ideia que com as pistas que são deixados vai formando uma teia que nos prende pagina após pagina.
História com voltas e reviravoltas e suspense até ao final e é neste que se questiona se a premissa inicial estava correta. Haverá efetivamente um caçador de nazis presente? Afinal quem é Hansi Abke?
Um livro a ser escrito dentro do próprio livro. É sobre os anos da Guerra? Ou sobre a passagem da juventude para a idade adulta? Ou sobre as relações de amizade, amor ou ciúme? Ou como se imagina alguém até que as páginas de um diário desvendam outro alguém? É sobre verdade ou mentira? Ou verdade de ficção? O que nos ficaria se não lêssemos as "leituras interditas" e ficasse omisso o desejo ou a ilusão? É sobre crescer e sobre afectos ou sobre passado e presente?
A História está lá, como se fosse uma "marca de água", a favor do relato e a desvendar pormenores insulares e de todas as referências geográficas que sofreram com ela.
O Joel Neto a fazer literatura e a fazer acreditar que também poderíamos escrever (como esse José F. Marques). Mas precisaríamos muito mais do que a epifania do Dickens!
A fazer literatura onde inclui dezenas de referências aos grandes da literatura, à música, ao cinema, à ciência, à botânica, à ornitologia. E conjugar tudo isto com a narrativa? E escrever sobre o Amor e sobre transmissores?
Um livro com banda sonora ou não tivesse eu ficado no baile do Amor da Pátria a ouvir a valsa de Strauss! (*Felizmente Artie Shaw não foi esquecido!)
Camadas, a história tem camadas e é impossível não querer ficar para sempre numa delas.
Claro que um livro é um todo e deve ser lido assim, e embora eu não goste muito de um livro que explica a forma como outro livro está a ser escrito (Perez-Reverte falhou com "Homens Bons"), porque desfalece a abstracção que procuramos na escrita, reconheço a arte de unir o que parece muito rasgado e apartado (folhas soltas e/ou rasgadas).
O turning point deste romance dá-se algures quando Filemom diz: "eu sou mesmo estúpido!".
Também eu me senti atingido :) . Aposto que o Joel Neto aqui pensou também que estava numa bifurcação. Eu tinha ficado com Hansi e K (a camada mais emocionante do livro). E seguido em frente com Lady Angus, cuja situação paralela com K e Mr.G era óbvia.
O beijo suspenso concretizava-se e eu sinceramente dispensava Alice (que me parece estranha ao enredo, desde o início).
Mas a escrita consistente de Joel Neto, o relato de um tempo para nós desconhecido e a subtil forma como descreve a deterioração de amizades em tempo de guerra, mesmo longínqua, eleva o romance a um nível muito alto e (lá vem o chavão) altamente recomendável :)
O que dizer. Acabo o livro na espera do avião que me leva do Faial a Lisboa, dois locais prevalentes neste livro, e este comentário é escrito nos mesmos instantes.
É interessante como está escrito. O salto entre o presente do livro para o passado é bem definido, o romance seguido com facilidade. O grande mistério de quem é Hansi Abke é bem conseguido. Vamos do início em que o sobrinho recebe a tarefa ao fim em que este põe os pontos nos i's no final da história de Abke, com verdades reais e imaginárias pelo meio.
Admito que não costumo ler romances, muito menos históricos mas este considero um sucesso.
Há muito que tinha curiosidade em ler Joel Neto e finalmente graças ao apoio da Cultura Editora, pude ler! As expectativas eram elevadas, não só pelas boas opiniões mas também por, na capa referir "Poderá um agente nazi ter-se escondido nos Açores após a derrota de Hitler?". A verdade é que essas referências a nazis só aparecem mais da parte final na narrativa mas, mesmo assim, fui conquistada pela história. É certo que, inicialmente, tive algumas dificuldades em compreender a construção da história mas, culpa minha e do meu cansaço. No entanto, assim que consegui dedicar-me mais ao livro, a leitura fluiu maravilhosamente. Uma história em dois tempos, com mistérios por descobrir e focado em relações, não só familiares mas também de amizade. Vejam a minha opinião mais detalhada em vídeo, AQUI.
O que gostei mais foi todo o detalhe histórico do que se passou nos Açores durante a segunda guerra mundial. Depois ter assistido à apresentação do livro na Fnac e depois de ler algumas entrevistas, tinha alguma curiosidade sobre o assunto e achei muito interessante esse aspecto da história dos Açores. Quanto à história e às personagens ficcionadas, já não achei tão interessante. As personagens não me cativaram. Gostei de como a narrativa foi apresentada, com o diário alternando com a história mais presente, mas a acção e os desenvolvimentos das personagens não me entusiasmaram por aí além. Continuo a preferir o "Arquipélago" e as crónicas de "A Vida no Campo". Fico à espera do próximo.
Joel Neto escreve maravilhosamente bem. Gostei muito do que este livro tem de romance histórico-geográfico, a forma como nos insere no Faial daquela(s) época(s), numa abordagem que inclui as vivências sociais e culturais na cidade da Horta, em particular. Agora ainda tenho mais vontade de ler O Arquipélago ...
Parti para Meridiano 28 apenas com a ideia de que a história se passava nos Açores, durante a II Guerra Mundial. Nunca tinha lido Joel Neto, nem tinha ouvido falar dele como autor, se escrevia bem ou mal. Apanhou-me logo nas primeiras páginas. Uma escrita poderosa, contudo concisa, um enredo que me chamou logo a atenção (a lembrar muito os livros que li do João Tordo), uma boa caracterização das personagens, dos espaços e dos tempos.
Meridiano 28 conta a bizarra história de um homem que começa a investigar e a escrever sobre a vida de um tio morto, a pedido de um misterioso milionário americano. Durante as suas pesquisas, descobre segredos e "ilusões" desse tio, que vive a sua juventude na ilha do Faial, durante a guerra. É um livro que retrata o dia a dia na ilha, entre as comunidades inglesa e alemã, e onde se abordam temas tão interessantes como a espionagem, o papel estratégico do Faial no Atlântico, os aviões americanos que por ali passam com as suas estrelas de cinema, a natureza avassaladora das ilhas (Terceira e São Miguel são personagens secundários), o vulcão dos Capelinhos e o muito charmoso café/pub Peter.
Fiquei agarrada do princípio ao fim e visualizei muitos dos locais de que o autor fala no livro (estive no Faial em 2005, mas lembro-me daquelas referências com algum detalhe). Hansi e o próprio Filemom vão crescendo enquanto personagens, tornando-se mais interessantes e "redondas". A guerra não deixa de ser um cenário de fundo para uma história de amor algo inesperada. Há vários plot twists mais para o fim, mas até sabem bem, no contexto desta história. Já fiquei com vontade de ler Arquipélago!
Sigo o escritor há alguns anos, por isso podia dizer que não fiquei surpreendida com a qualidade deste livro, mas a verdade é que fiquei. À medida que avançava neste Meridiano 28 não parava de me maravilhar com a mestria com que esta grande história é contada e com a intensidade com que nos envolve. O rigor histórico, a escrita directa e o facto de nenhuma frase ser desprovida de importância neste puzzle, a evocação de grandes escritores, o poderoso enredo e as vidas atormentadas dos seus protagonistas, as emoções que produz... É um livro imperdível.
Cativante do início ao fim! Cativou-me especialmente a forma como nos transporta no tempo e no espaço (numa variedade tão grande de cenários, acontecimentos e personagens) de uma forma tão clara e vivida, sem que as descrições se tornem de forma alguma monótonas ou aborrecidas...
Começo por dizer que sinto que estou a ser extremamente injusta na minha avaliação e que falhei enquanto leitora. Seguindo em frente, não consegui criar qualquer ligação nem com a história, nem com os personagens...arrastei a leitura durante semanas (foi um período complicado em termos pessoais) e talvez tenha prejudicado o ritmo e consequentemente o interesse pelo enredo.
"Só porque Mr. Abke não vê um cão preso a esta trela, não quer dizer que não haja um cão preso a esta trela. - Sorriu. - Os nossos apegos, com os nossos ódios e as nossas culpas, continuam connosco muito depois de parecer que morreram. É esse o milagre da vida, e não deixa de ser triste se, com a sua idade, ainda não o tiver aprendido."
E o que eu gosto de um romance que alia um bom enredo a factos verídicos que me ensinam mais um bocadinho? A minha estreia com Joel Neto, não será o último!
Desta feita, “a leitora #1 na Terceira” não esteve à altura do carinhoso epíteto. Por querer dedicar a “Meridiano 28”, de Joel Neto, toda a minha atenção, fui adiando a sua leitura, na esperança de que os tempos livres surgissem mais amiúde e pudesse, então, entregar-me total e merecidamente à obra. Escusado será dizer que nem os tempos livres surgiram nem a espera surtiu efeito, pois dei por mim, mesmo sem tempo, colada ao livro sempre que me foi possível. A frustração de ler meia dúzia de parágrafos por dia, quando o ideal seria ler meia dúzia de capítulos, terá contribuído para a inicial dificuldade em penetrar na história (e, consequentemente, na História) e, logo, em afeiçoar-me às personagens, à intriga, à narrativa atual, ao relato do passado. Ou seja, no arranque, aos solavancos, da leitura, dei por mim, néscia e prematuramente, a preferir “Arquipélago” a “Meridiano 28”. Mas, a páginas tantas, também dei por mim a querer saber quem era Hansi Abke e a partilhar da frustração de José Filemom. E, de repente, fui-me deixando encantar e transportar para a Horta de 39-45. Nunca, a meu ver, um único parágrafo disse tanto sobre a Segunda Guerra Mundial como o último parágrafo da página 245. Diz também muito sobre a forma como Joel Neto pega nas palavras e as usa a seu bel-prazer, acabando por no-las oferecer, prenhes de conteúdo. E quando, finalmente, o autor enveredou pelo relato, real ou fictício, do amor, já esta leitora estava totalmente rendida, pois dificilmente encontra quem relate o amor (ou a falta dele) como Joel Neto. Da exaltação à dor, que muitas vezes se confundem no peito de quem ama, as personagens de Joel Neto entram-nos pelo coração dentro e, por vezes, encontram aí quem as compreenda por já ter passado pelo delicodoce sufoco da paixão ou pela amargosa angústia da inquietação. E foi assim, embalada pela escrita única de Joel Neto, que muito antes de querer lá chegar, deparei-me com o final de “Meridiano 28”. Acontece quando, obviamente, tem de acontecer, não deixando nada por resolver, nenhum mistério por desvendar, mas para quem demorou (por sua culpa e não do autor) a deixar-se seduzir pela obra, o rápido desfecho desta, em pouco mais de 20 páginas, é uma surpresa, uma espécie de murro que, embora dado com carinho, magoa. Por esse motivo (e por partilhar com Joel Neto e com José Artur Drumonde, personagem principal de “Arquipélago”, as mesmas “derivas e ansiedades”, como muito bem me escreveu o autor), continuo a preferir “Arquipélago”, mas só por isso. Tivessem as circunstâncias de leitura sido as mesmas e provavelmente não conseguiria expressar qualquer preferência. Como, aliás, Joel Neto também não conseguirá, certamente, já que os seus “filhos”, embora distintos, são igualmente perfeitos. Se a minha mãe fosse viva, magnífica leitora que era, teria, evidentemente gostado muito de “Arquipélago”. Porém, ter-se-ia rendido, indubitavelmente, a “Meridiano 28”. Muitas vezes me contou de quando, do Alto das Covas, viu a chegada dos ingleses à ilha Terceira. Como teria gostado do universo de Hansi Abke! E como é magnífica a Literatura que aproxima gerações e nos traz de volta quem já cá não está. Obrigada, Joel.
Foi a primeira vez que li uma obra do Joel e fiquei fã. Sobretudo pelo estilo que imprime na sua escrita. Conseguiu prender-me logo ao início, coisa que não acontecia comigo há vários livros consecutivos. Apreciei também a forma como são introduzidas mudanças no rumo da história, tornando-a ainda mais enigmática, bem como a densidade e profundidade que é dada às personagens principais da trama.
À partida o facto da obra girar em torno de uma localização geográfica que me é bastante próxima poderia de certa forma empolar a minha avaliação sobre a obra. No entanto acho que esse aspecto acabou por elevar a fasquia, fasquia essa que foi amplamente superada.
Belissima história. Parabéns!
Agora vou ter que me virar para o "Arquipélago" :)
Cruzei-me com o livro "Meridiano 28" quando procurava livros de autores portugueses para o projecto de leitura "Outono em Português". Ao encontrar um romance escrito por um português e que me remetia para a época da Segunda Guerra Mundial, sabia que teria mesmo de ler este livro.
Joel Neto transporta-nos para a ilhas açorianas do Faial e da Terceira durante os anos da Segunda Guerra Mundial, onde podemos acompanhar as aventuras e desventuras de Hans Abke, jovem alemão a viver no arquipélago, e do seu amigo britânico Roy. Somos transportados para os Açores dos meados do século XX, servindo de ponto de paragem para muitas nacionalidades e origens, onde os aviões da Pan Am brindavam os faialenses com as maiores estrelas americanas como Clark Gable. Ao mesmo tempo, acompanhamos José Filemon Marques, sobrinho de Abke, no presente. Em mãos, tem a incumbência de escrever um livro sobre o seu tio a pedido de C. Devon Fitzburg, americano que enviou o seu mordomo gémeo de Morgan Freedom para desafiar Filemon a colocar por escrito a vida deste tio que, supostamente, fez caça a um alemão nazi que viveu nos Açores.
Joel Neto tem a capacidade maestral de nos apresentar personagens carregadas de profundidade psicológica e de dilemas existenciais capazes de as fazer suspender as suas vidas. Ao mesmo tempo, mostra-nos o poder que frases de grandes escritores possuem nas nossas vidas e como podem ajudar-nos a encontrar o rumo que pretendemos. A narrativa de Neto permite-nos viajar através do tempo, parecendo que estamos nos mesmos locais que as personagens e que sentimos o cheiro do mar salgado dos Açores. Sem dúvida, um livro que adorei ler e que recomendo a todos! Parabéns ao Joel Neto por esta obra da literatura portuguesa e por ter a capacidade de honrar o seu arquipélago com romances como este.
Como trabalhar o tempo num romance cheio de História e histórias? Que esta professora da coisa não gosta de investigação servida em bandeja enfarta brutos. Como não deixar a geografia tomar conta disto tudo, que os Açores são um perigo pela forma com que emanam em qualquer descrição? Como conduzir personagens que ora se revelam, ora se omitem, ora se escondem; ora se mentem ou se esfrangalham de sinceridade? Como escolher a nossa? Essa coisa boa, que é tomar pendor. Estas questões acompanharam-me durante quase toda a leitura, que o puzzle estrutural que a obra encerra provoca assim uns rodopios temáticos. Fora do "quase" sobrou tempo para desfrutar literatura em "terna quietude". E o prazer não se interroga.
Rarely do I finish a book and say to myself - "I just read something great!" Meridiano 28 is a great novel. Joel Neto brings alive once again the Azores. This time in a period not well known for the islands, which feel at times like forgotten by time. This is a novel about friendship, love, deception, war, survival, and new beginnings. I hope someone one day translates this book into English. It deserves to be read by many!
Em “Meridiano 28” temos um conjunto de histórias entrelaçadas, de vários livros dentro de um único livro, em torno de alguém que, um pouco perdido na vida, vai tentando juntar as pontas soltas de outras vidas meio perdidas também, desvendando mistério após mistério, encontrando-se a si próprio a pouco e pouco, e cujas respostas à sua busca se encontram muitas décadas atrás, no palco de uma ilha dos Açores em plena Segunda Guerra Mundial, onde alemães, ingleses e americanos conviviam sem animosidade. “Uma história não tem princípio ou fim; uma pessoa escolhe arbitrariamente um momento da experiência a partir da qual olha para trás ou para a frente.” Esta citação de Graham Greene, entre várias outras usadas pela personagem principal deste romance, estabelece o que tantas vezes faz diferir as perspectivas que cada leitor tem na leitura do mesmo livro. Ou ainda de um mesmo leitor face ao mesmo livro quando lido em alturas diferentes da sua vida. “De resto, e tanto quanto lhe parecia, a literatura era aquilo que convidava o leitor a escrever também. Um corpo vivo, metamorfoseante, que já não podia ser agora o que fora há cinco minutos. Muito mais daquilo que se conta, a literatura estava naquilo que não se conta, e só um escritor saberia exactamente o que não contar.” É essa a magia da literatura, reforçada ainda pela mestria do escritor, pois “quando um homem acredita na história que conta, quem a leia corre o risco de acreditar também.” Todos estes ingredientes fazem parte da receita literária deste livro, sendo o leitor cativado por um suspense crescente, lançado em pistas que adensam ainda mais os mistérios, deixado à solta para imaginar os mais diferentes tipos de desenlace, iludido por revelações que se revelam enganadoras, caindo por fim na sofreguidão de acabar a leitura o mais rápido possível, tropeçando ainda em mais algumas falsas deduções para se deparar com um desenlace que ainda o vai deixar a pensar muitos dias sobre este romance, tantos são os mistérios não completamente esclarecidos, não obstante o leitor cair em pé. Em termos do enredo, tudo por causa de uma mulher, ou melhor, do que um homem é capaz de fazer por causa do amor a uma mulher “às vezes penso que, quanto às mulheres, escapa-me sempre qualquer coisa. Algo de assustador e cativante. Falo com uma mulher e sinto-me a mergulhar no desconhecido. Dá-me ideia de que com a maior das facilidades poderiam destruir o homem diante delas. E, no entanto, é tão maior o rasto de destruição deixado atrás de nós.” O sub-título “o poder redentor das grandes histórias” faz juz ao seu conteúdo. Com uma qualidade de escrita esmerada, a que o autor já nos tinha habituado em “Arquipélago” e “A Vida no Campo”, em “Meridiano 28” Joel Neto presenteia-nos, além de um registo histórico cuidadosamente tratado sob a forma de ficção, e outro original de teor diarístico, com uma ainda maior profundidade na descrição da fragilidade e perenidade do ser humano, misteriosos para os seus semelhantes tal como para si próprios, ancorados nas suas pobres convicções e vítimas das suas ilusões.