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Fogo no Mato - A Ciência Encantada das Macumbas

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Nesse conjunto de ensaios, Luiz Antonio Simas e Luiz Rufino propõem uma interpretação do Brasil a partir do conhecimento acumulado na macumba e em outros saberes populares.

Para os autores: “No Brasil terreiro, os tambores são autoridades, têm bocas, falam e comem. A rua e o mercado são caminhos formativos onde se tecem aprendizagens nas múltiplas formas de trocas. A mata é morada, por lá vivem ancestrais encarnados em mangueiras, cipós e gameleiras. Nos olhos d’água repousam jovens moças, nas conchas e grãos de areia vadeiam meninos levados. Nas campinas e nos sertões correm homens valentes que tangem boiadas. As curas se dão por baforadas de fumaça pitadas nos cachimbos, por benzeduras com raminhos de arruda e rezas grifadas na semântica dos rosários. As encruzilhadas e suas esquinas são campos de possibilidade, lá a gargalhada debocha e reinventa a vida, o passo enviesado é a astúcia do corpo que dribla a vigilância do pecado. O sacrifício ritualiza o alimento, morre-se para se renascer. O solo do terreiro Brasil é assentamento, é o lugar onde está plantado o axé, chão que reverbera vida”.

124 pages, Paperback

Published February 1, 2018

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About the author

Luiz Antonio Simas

38 books105 followers
Luiz Antônio Simas (Rio de Janeiro, 2 de novembro de 1967) é um escritor, professor e historiador, compositor brasileiro e babalaô no culto de Ifá.

Professor de História no ensino médio, é mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Simas já trabalhou como consultor de acervo da área de Música de Carnaval do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, e como jurado do Estandarte de Ouro, maior premiação do Carnaval carioca. Foi também colunista do jornal O Dia[2], e desenvolveu o projeto "Ágoras Cariocas", de aulas ao ar livre sobre a história do Rio de Janeiro. Em seus livros, procura resgatar a memória oral da cidade, especialmente da população marginalizada

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Displaying 1 - 13 of 13 reviews
Profile Image for Eric Novello.
Author 67 books568 followers
March 12, 2020
Se você vive no Brasil, provavelmente sabe que religiões de matriz africana sofrem bastante preconceito no nosso país. O mesmo vale para culturas e conhecimentos indígenas (os únicos, aliás, que parecem atentos à necessidade de preservar nossas últimas áreas verdes em vez de transformá-las em pasto e prédio). Talvez, você até seja uma dessas pessoas que propaga o preconceito, de maneira consciente ou não. Talvez eu também seja. É preciso manter uma reflexão constante para romper esse ciclo.

Esse pensamento, presente até hoje na dinâmica social do país, existe desde o nosso período colonial e foi reforçado no início da república com constante perseguição policial e fechamento de terreiros e centros espíritas. Racismo, afinal, não é só o preconceito direcionado à cor da pela, mas também o menosprezo dos saberes repassados por negros e indígenas, a perseguição às suas culturas, a tentativa de dizimar qualquer subjetividade vinda de fora da retidão cristã-eurocêntrica.

Em suma, a necropolítica que infelizmente temos vivido no país (resenha de março de 2020) e o neofascismo apoiado abertamente pelas igrejas neopentecostais que não escondem seu projeto político são frutos diretos do racismo colonial que não conseguimos extinguir da nossa sociedade.

"Fogo no Mato", livro de Luiz Antonio Simas e Luiz Rufino, é um livro bastante plural, mas com um objetivo claro: repensar os problemas do país e sugerir novos caminhos a partir de elementos do sincretismo religioso simbolizado na Umbanda. Ou na macumba, como atesta seu subtítulo: "A ciência encantada da macumba".

O subtítulo, fica claro, foi escolhido justamente para mostrar desde a capa o preconceito existente. Opressão é disputa de território inclusive no campo do discurso, desde a escolha das palavras. Quando o próprio umbandista (ou macumbeiro) começa a aceitar que macumbeiro é um termo pejorativo, ele entrega esse termo para o opressor/sequestrador. Aqui, o termo é resgatado. Umbandista sim, mas por que não macumbeiro? Não há nada de errado nisso. Acho que minorias conseguem identificar várias dessas disputas sem muito esforço, cada um no seu quadrado.

"Nessa perspectiva, o termo macumba se expressa de forma ambivalente: é lançado como a expressão que resguarda a intenção de regulação de um poder sobre outro — neste caso, do colonialismo para com as práticas colonizadas —, mas também aponta um vazio deixado."

A primeira metade do livro é mais densa, embaralhando e desembaralhando pensamentos para nos fazer refletir sobre nossa situação atual política, cultural, social... repensar nossa relação com esses saberes africanos e ameríndios. Ele ajuda o leitor a enxergar os rituais de desencanto promovidos por essas políticas racistas, mas também os disfarçados por trás da máscara de um projeto de "ordem e progresso".
Tenho pensado muito no apagamento gerado pelos programas de urbanização, nos elos com o passado que são destruídos quando um parque desaparece, um prédio ou quarteirão é destruído, um estádio é "reformado", quando tudo vira shopping, igreja e farmácia. No quanto romper esses elos e gerar um "ponto zero" livre da sua história é também um projeto de dominação, de reescrita do passado. Mas isso é papo pra outra hora.

De volta ao "Fogo no Mato":

"Assim, para a perspectiva da ancestralidade só há morte quando há esquecimento, e para a perspectiva do encantamento tanto a morte quanto a vida são transgredidas para uma condição de supravivência."

Toda essa reflexão é feita a partir do vocabulário, das vivências, dos saberes da macumba. Assim, depois de assentar melhor alguns desses termos, a segunda parte do livro adota como ponto de discussão as entidades encantadas. Ao falar de Zé Pelintra, os autores nos levam a refletir sobre a figura do malandro, sobre os motivos de determinados traços serem associados ou não à malandragem. Ao mudar para Pomba Gira entra em foco o feminismo, a tentativa de associar histeria às mulheres, e assim vai.

Apesar de tratar de temas tão urgentes, quero ressaltar que "Fogo no Mato" é um livro otimista! Cultura de frestas (um viva às escolas de samba do RJ), resistência nas encruzilhadas, saberes que se disfarçam para sobreviver, para mudar o sistema de dentro para fora. Talvez estejamos explorando demais nossos limites como civilização e democracia, mas ainda dá para virar o jogo. Se informar e desmontar preconceitos é um bom primeiro passo.

Dito isso, minha resenha de "Fogo no Mato" fica aqui mais para tentar aumentar o interesse de possíveis leitores do que para tentar dar conta da sua proposta. É a mesma sensação que tive como "O corpo encantado das ruas", do Simas. E com os textos da revista Cult "dossiê: Filosofia e Macumba". O que tem tudo a ver com a proposta que eles apresentam: no sincretismo, potencialidades e saberes se somam, se transformam e geram algo novo, mas SEM apagar suas origens. São Jorge e Ogum estão aí para provar.
Profile Image for Gabriela Ventura.
294 reviews135 followers
July 11, 2019
Os ensaios que compõem esse pequeno volume, assinados por Luiz Antônio Simas e Luiz Rufino, propõem uma epistemologia das macumbas, uma pedagogia das encruzilhadas, uma forma de encarar os saberes (e os sabores) brasileiros fugindo das dicotomias e das armadilhas do pensamento colonizador - e colonizado. Uma belezinha de livro, e um chamado ao encantamento do mundo: afinal, como bem dizem os autores, "credibilizar outras epistemologias pressupõe também credibilizar outras ontologias".
Profile Image for Guilherme.
Author 4 books18 followers
August 2, 2019
Simas é talvez o único teórico que consiga usar as palavras "ontologia" e "esculhambar" na mesma sentença, com perfeição acadêmica.

Leitura necessária no Brasil atual, levanta questões entranhadas na nossa cultura, e pensa como podemos driblar, ou como ele mesmo diz, dobrar a normatização cultural ocidental imposta ao brasileiro.

Grifei praticamente 80% do livro.
Profile Image for Gabriel.
60 reviews12 followers
July 23, 2020
pretendo ir retornando ao livro para reler os ensaios que já li, e para ler os que ainda não tive contato. de qualquer forma, já considero a experiência validíssima. costumo lidar assim com títulos que compilam ensaios ou artigos, os ataco por partes e em tempos diversos. são esses os que já li, de "fogo no mato":

"Encruzilhadas"
"Zé Pelintra: juremeiro do catimbó e malandro carioca"
"Quem tem medo da pombagira?"
"Caboclo: supravivente e antinomia da civilidade"
3 reviews
August 25, 2020
Livro muito bom para quem quer aprender sobre o encantamento e suas percepções da vida. Talvez seja pesado para alguém que não tem nenhum conhecimento prévio.
Profile Image for Flávia Santos.
247 reviews1 follower
March 9, 2022
Passei mais da metade da obra tentando entender que diabos tava acontecendo: eu tava lendo um livro técnico sobre colonização ou eu tava ouvindo um preto velho contar uns trem que eu não entendo direito? Luis Antonio Simas passa, no intervalo de duas linhas, de acadêmico estudioso crítico com um linguajar extremamente (e vááárias vezes desnecessariamente) rebuscado pra uma linguagem informal, cheia de trejeitos e enigmas e quase tão incompreensível quanto suas falas mais formais.

Isso cansa a leitura mas sem dúvidas torna ela extremamente interessante.

Mais pra metade, no entanto, eu "peguei o jeito" e consegui ter mais fluidez na leitura. E enfim, no penúltimo capítulo ele chegou no seu ponto principal, na ciência das macumbas, e amarrou várias cordas que ele foi largando no decorrer da leitura.

Fiquei em dúvida entre 3 e 4 mas alguns capítulos e diversas frases muito bem construídas me fizeram apreciar a obra apesar da confusão mental causada. Veremos se seus outros livros são assim e se essa é a assinatura dele, ou se esse livro que é doido pra porra mesmo.
Profile Image for Luís Fellipe.
50 reviews
October 26, 2021
As ideias desenvolvidas pelo livro são muito boas, porém, a linguagem utilizada no texto muitas vezes foi confusa, visto que algumas expressões não são do nosso cotidiano. Faltou um glossário como o do Arruaças.
2 reviews
April 27, 2024
A escrita acadêmica com um toque de poesia pode causar estranheza ao leitor porém Simas e Rufino divulgam a ciência encantada das macumbas com maestria. Esclarecedor, lindo e brasileiro. Excelente! 🩷
Profile Image for Daniela Senador.
13 reviews1 follower
August 27, 2023
Fortaleza, 19 de janeiro de 2023. Foi na @livraria.lamarca que me deparei com o livro "Fogo no Mato", de @luizantoniosimas e @rufino.luiz7. Ele me chamou a atenção. Comprei e, no mesmo dia, comecei a ler. A espiritualidade era um pilar que faltava na minha vida e imergir mais no universo da umbanda me interessava muito. Eis aqui a minha primeira (e feliz) incursão. Escrito de forma primorosa, os autores nos conduzem pelas mais diferentes vertentes dessa religião - da sua gênese ao papel dos arquétipos de deuses e seres encantados, sem nunca deixar de lado a resistência por ela enfrentada até hoje, uma vez que está intrinsecamente ligada à história dos nossos povos originários e ao colonialismo. Que alegria conhecer e vivenciar um pouco mais da ciência encantada das macumbas. Este é apenas o início de uma jornada.
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