Henri Michaux was a highly idiosyncratic Belgian poet, writer and painter who wrote in the French language. Michaux is best known for his esoteric books written in a highly accessible style, and his body of work includes poetry, travelogues, and art criticism. Michaux travelled widely, tried his hand at several careers, and experimented with drugs, the latter resulting in two of his most intriguing works, Miserable Miracle and The Major Ordeals of the Mind and the Countless Minor Ones.
Mesmo que Michaux não fosse um grande poeta, este livro valia o preço pelos dois textos de Rui Caeiro. É extraordinária a sua introdução ao homem e à obra, mostrando que o aqui tradutor era também um poeta/escritor de primeira água. Chego-me para o lado:
«A ausência do outro é maior do que a nossa. A ausência dele inclui a nossa incapacidade de estarmos a seu lado, sofrer nalgum grau comparável. Como uma rima interna, a dor explora-nos através de reflexos e ecos pelo espaço no mundo que capturamos. A linguagem não tem outra função que torná-la mais precisa, mais vaga, nebulosa e movimentada, justamente porque é sempre outra coisa. O inferno ajusta-se a cada momento à nossa pele. E é dessa urgência de dizer como tudo é outra coisa que a poesia acaba por ser a mais falhada das tentativas de se falar em termos sinceros. Num grande poeta não pode deixar de se considerar o quanto os seus versos carregam toda uma linhagem de fracassos. Se não sentimos a sua derradeira expressão, essa espécie de sabedoria extenuada, que traz um gosto próprio, uma vertigem de abandono, então o verso fica a saber-nos a um mero entusiasmo. Pode divertir-nos, mas logo nos cansará.»
O conto que dá título ao livro é história em cadência poética assombrada e simbólica, pequena saga de um indivíduo (N.) que, rodeado pela montanha, sente o impulso da queda, de se abandonar ao precipício. O poema «Nós dois ainda» evoca a perda da esposa, Lou, num incêndio e é terrivelmente sincero, doloroso, aflitivo. Cito apenas uma passagem:
«As nossas sombras respiram juntas. A nossos pés as águas do rio dos acontecimentos deslizavam quase em silêncio.»
O último texto recupera uma comunicação de Michaux intitulada «A verdadeira poesia faz-se contra a poesia», da época precedente, como se perceberá, não por ódio, mas porque «é chamada a mostrar a sua dupla tendência, (...) trazer o fogo, o impulso novo, a tomada de consciência da época, e (...) libertar o homem de uma atmosfera envelhecida, gasta, viciada.» E esse caminho é também marcado por um certo regresso da poesia ao lugar que a religião e a lenda pagã deixaram vago:
«Abandonando o verso, o versículo, a rima, a rima interior e até o ritmo, despojando-se cada vez mais, ela busca a região poética do ser interior, região que outrora era talvez a das lendas, e uma parte do domínio religioso.»
Não é preciso já ter lido poesia no campo ou na praia, de manhã, ao sol, no princípio da Primavera, para saber do que fala Michaux. Mas ajuda.
"Sem o parecer, respondo desta maneira à pergunta: «Qual a finalidade da poesia?» — A de nos tornar habitável o inabitável, respirável o irrespirável."
Excerto de "A Verdadeira Poesia Faz-se Contra a Poesia"
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"Lou Lou Lou, no retrovisor de um breve instante Lou, não me vês? Lou, o destino de ficarmos juntos para sempre em que tanto acreditavas Que é dele? Não vais ser como as outras que nunca mais dão sinal, submergidas no silêncio. Não, uma morte não deve chegar para apagar o teu amor. Na horrível espiral que te afasta até não sei que milésima diluição procuras ainda, procuras um lugar para nós.
(...)
Lou, falo numa língua morta, agora que já não te falo. Já vês como em mim resultaram os teus esforços de trepadeira. Vês isso, ao menos? É verdade que tu nunca duvidaste. Era necessário um cego como eu e era-lhe necessário tempo, era-lhe necessária a tua longa doença, era necessária essa luz em ti, essa fé, para enfim furar a parede teimosa da sua autonomia.
*
Foi tarde que vi. Foi tarde que soube. Tarde que aprendi a palavra «juntos», que não parecia estar no meu destino. Mas não demasiado tarde. Os anos foram a nosso favor, não contra nós."
Excertos de "Nós dois ainda"
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Tive a infelicidade de não conseguir um exemplar deste livro, mas a felicidade de o encontrar no catálogo das Bibliotecas de Lisboa. Curiosamente, "Moriturus", nome do texto que dá nome ao livro, ou que surge aqui em destaque, foi o que tenho lido menos... e digo "tenho lido" porque ainda não deixei de lhe pegar, os textos do Michaux — e do Rui Caeiro — andam comigo há vários dias, semanas até, e já os li e reli algumas vezes. Fui parar ao livro por causa do "Nós dois ainda", um texto que me foi aconselhado na sequência da paixão assolapada que desenvolvi pelo "Fernanda" (Ernesto Sampaio) e pelo "Carta a D." (André Gorz)... e é de uma beleza atroz, aliás, de uma tristeza atroz... Tem sido interessante intercalar algumas leituras de Michaux com os poemas de Paul Éluard, as diferenças entre ambos são abismais, de facto, mas este "Nós dois ainda" tem o mesmo grau de beleza que encontro nos poemas dedicados à memória de Nusch.