A obra de João Luís Barreto Guimarães, especialmente depois da publicação do seu volume Poesia Reunida, conquistou tanto os leitores como a crítica especializada, universitária ou não. Recentemente, Mediterrâneo foi distinguido com o Prémio de Poesia António Ramos Rosa — e António Lobo Antunes (no semanário Expresso) escolheu João Luís Barreto Guimarães como «o mais importante dos autores portugueses para os próximos dez anos».
«O nome de João Luís Barreto Guimarães é absolutamente central no quadro da evolução da linguagem poética portuguesa, principalmente se pensarmos essa evolução em termos de rutura ou continuidade quanto ao que os últimos 30 anos nos ofereceram.» António Carlos Cortez, JL
«A verdade é que ele só sabe escrever "de dentro da vida" e faz sempre da vida (e da escrita) uma celebração.» José Mário Silva, Expresso
Querendo desde há muito regressar à leitura da poesia, optei por JLBG, muito por sugestão inequívoca de quem é, desde há muito, apreciador desta arte. E não foi uma leitura em vão. Foi uma leitura para saborear, para me relembrar do que é transpor palavras num poema, e da dificuldade que isso pode acrescer. Não saberia descrever este livro melhor do que o faz Landeg White, numa das abas do volume: «que considera o poema com seriedade, como um jogo em que os poetas participam quando exploram experiências. [...] A sua índole inquisitiva, o seu estilo suave mas disciplinado, juntamente com a concentração da sua escrita no quotidiano, contribuem para o sucesso com que nos transmite o amor e a mágoa, no âmago da sua existência.»
Este poemário breve de João Luís Barreto Guimarães, um compêndio de reflexões quotidianas e de observações em viagem, é uma delícia. E conjuga lírica e narração, porque cada poema é um pequeno relato. Os apartes entre parênteses funcionam como duplicações ou jogos de espelhos nos quais o autor sai do poema para observá-lo: isso parece-me extremamente original, humilde, sábio e natural. Entende-se perfeitamente que este poeta tenha sido reconhecido com o Prémio Pessoa 2022: os seu textos transpiram vida, arte e sensibilidade.
Frases sublinhadas para emoldurar:
“escolher é excluir excluir é entender entender é conservar. (…)”
“(…) Fazer poemas é como ir roubar maçãs selvagens — vais à espera da doçura mas surpreende-te a acidez. (…)”
o mundano sublinhado. a superfície das coisas armada de factos e estrelas. os passos diários tornados longas histórias, fábulas, mitos, sagas, colocados nos versos de um fôlego. intermitência, respirar entrecortado. uma nova visão.
Há um abismo entre poemas e poemas, os melhores e os piores. Há que ter juízo, filtrar o que se diz, o que se publica. Para leitura de casa de banho não está mal.