Às vezes um homem pode se cansar do peso de seu nome, de seu trabalho, de suas relações, de seus amores, de sua rotina, das pessoas que o cercam, de suas crenças e até mesmo de sua realidade. O protagonista de "O filho mais velho de Deus e/ou livro IV", o novo romance de Lourenço Mutarelli, se sente assim. Ao contrário da maioria de nós, no entanto, ele teve a oportunidade de mudar de vida. De nome. De cidade. Acabou indo parar na Nova York pós Onze de Setembro e foi convidado a entrar em um programa de proteção à testemunha. Para protegê-lo daquilo que ele não viu. Nem acredita. De qualquer forma, quando um homem se cansa de tudo é possível que enxergue as formas ancestrais de todas as coisas. É possível que encontre um amor pleno e absurdo. É possível que olhe para o céu de uma forma que nunca olhou antes.
Uma viagem no melhor estilo mutarellesco, que vai te seduzindo por cacoetes narrativos como a tradução de expressões e palavrões em inglês ("pedaço de bolo", "bosta de touro", "santa bosta", "buraco de bunda"...), e pela mania do personagem de puxar de memória, sempre que conhece ou se refere a um outro personagem, homônimos célebres no vasto rol de serial killers da história da criminologia. Embora, em termos de fabulação, a história fique aquém do último "O Grifo de Abdera" (o melhor entre os que li do Mutarelli - e já li quase todos), esses gracejos e piscadelas que o autor lança para o leitor são impagáveis e tornam a leitura de um livro seu uma experiência sempre muito peculiar, particularmente sedutora pra quem vem acompanhando a trajetória de sua prosa, título a título. Um Mutarelli é sempre um Mutarelli. Como um bom Malbec argentino (embora aqui ele esteja mais para um bourbon ou puro malte).
O Mutarelli parece que deu uma decaída nessa última década, não numa questão de forma, já que ele escreve da mesma forma desde sempre e tenta diferenciar uma obra da outra nesse quesito (mesmo que apenas um pouco). Mas parece que o tema e a própria maneira que a história desse texto é conduzida indicam uma perda da riqueza que havia nos seus textos iniciais, mais sutis ao tratarem do místico (ou pelo menos com relações que eram mais implícitas ou tratadas de maneiras mais interessantes do que do jeito que elas são tratadas aqui ou no Grifo de Abdera). Mesmo com essa perda de qualidade, ainda achei o livro interessante. Talvez seja porque eu sou apaixonado pelo jeito que ele escreve e pela maneira que ele me faz querer deglutir toda e qualquer coisa que ele escreva.
Como o romance se passa, em grande parte, em Nova Iorque, acho que dois bons jeitos de classificá-lo são 'a hot mess' e 'all over the place'. Eu tenho a impressão de que o Mutarelli se sai melhor em ambientes claustrofóbicos (cf. O Natimorto, O Cheiro do Ralo e o meu favorito, A arte de produzir efeito sem causa).
Mas isso não quer dizer que eu não tenha gostado, ou não tenha apreciado a viagem. Até porque 1) o Mutarelli sempre me faz rir e 2) quem mais vai escrever um romance com personagens reptilianos, homônimos de serial killers, demônios e sociedades secretas no cenário da literatura brasileira contemporânea?
Surpreendente. É assim que devemos qualificar Mutarelli ao lê-lo pela primeira vez. Daqueles livros divertidos e nonsense, que te envolvem com personagens bem construídos e mais humanos do que criaturas de carne e osso do nosso dia a dia; ou melhor, quase humanos.
um livro para iniciados em lourenço mutarelli — não foi o meu caso. cansado de tramas de homens brancos de meia idade depressivos e, propositalmente, sem carisma.
um grande romance-colagem, com certeza proveniente dos sketchbooks das oficinas de escrita criativa de mutarelli. no começo, as informações enciclopédicas são interessantes e divertidas; mais à frente, você só pula.
momentos de prazer: as descrições e situações cartunescas, especialmente as cenas do carrinho de sorvete; as traduções literais do inglês de xingamentos e gírias; as cenas de sexo transcendental de george e sua namorada reptiliana (final); e as traduções dos cânticos reptilianos (final).
talvez tenha lido num momento errado, sem muita paciência pra tramas intencionalmente modorrentas.
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Hilarious and/or insane. Profound and/or surreal. Fun and/or disorienting. It’s Mutarelli at his best weaving a tale that’s much more the journey than the destination.
George comes to New York City as member of a witness protection program, but also as fledgling member of the secret (?) society Cães Alados. A recovering alcoholic, he lapses back into booze as reminisces about his first sexual encounter, gets closer to the secrets of the universe, and meets lizard aliens from outer space. It’s a conspiracy theory made flesh that made me laugh out loud and enjoy the ride, effects that all his books have had on me.
Quando sua vida é tão vazia, tão ao léu, que você prefere ser carregado pelas anedotas para configurar uma espécie de biografia forjada: "O filho mais velho de Deus e/ou livro IV" é, na verdade, uma história de retalhos para quem qualquer acontecimento é síndrome duma passividade originária.