Há 250 anos, o Marquês de Pombal deu início à revolução cultural que decidira para o reino, fundando uma especialíssima instituição de censura: a Real Mesa Censória. Por decreto de Dom José I, foram nomeados intelectuais e letrados incumbidos de ler, interpretar e censurar todos os livros que entrassem ou fossem publicados no reino, as peças de teatro, as dissertações académicas, e até os cartazes impressos e os cardápios dos restaurantes. Eram estes os censores a quem, depois de 1768, cabia decidir que palavras, ideias e livros mereciam «a dignidade da luz pública». Rui Tavares mergulhou nos relatórios de censura à guarda da Torre do Tombo, cruzou-os com os textos que lhes deram origem e seguiu as trajetórias de vida e os interesses intelectuais dos censores, contextualizando-os na «República das Letras» do seu tempo. Ao comparar o ambiente cultural setecentista com o que o precedeu e o que se lhe seguiu, até aos nossos dias, o historiador propõe uma nova interpretação do difícil nascimento do pluralismo que está na base das sociedades modernas.
Parti para a leitura deste livro enquanto investigador do período literário barroco que, em Portugal, ocupa, sobretudo, a 2ª metade do séc. XVII e se estende até meados do séc. XVIII, com a impressão do "Verdadeiro método de estudar" (1746), de Luís António Verney a ter extrema importância nessa baliza delimitadora. No entanto, as minhas expectativas não incluiam este "Censor Iluminado" no leque de textos "obrigatórios" para o meu estudo, ainda que a experiência de leitura do "Pequeno livro do grande terramoto", também de Rui Tavares, me levasse a crer que desta leitura só poderiam resultar coisas boas. Não me enganei! O "Censor Iluminado" é, de facto, um livro tremendo na pertinência e exaustão dos exemplos, na agudeza das comparações (utilizando um conceito tão querido ao barroco) e na forma como Rui Tavares transforma uma escrita perfeitamente passível de ser "defendida" no meio académico num livro que se lê com uma desenvoltura que muitas narrativas de ficção não conseguem proporcionar. O livro, que resulta da tese de doutoramento do autor em História, consegue esse feito raro de circular entre várias disciplinas das ciências sociais. Diria até que, com algumas alterações de índole terminológica e um maior (e compreensível) cuidado na análise dos textos censurados que serviram de exemplo, passaria facilmente por uma tese de Literatura, tal a extensão do estudo de Rui Tavares. É um longo ensaio que escalpeliza o trabalho dos censores da Real Mesa Censória, durante o reinado de D. José I e no pleno da actividade do Marquês de Pombal, e onde o leitor poderá perceber a fundo o verdadeiro alcance daquela entidade, não só na vida cultural da época mas também em termos intrinsecamente pedagógicos, com influência directa sobre o "como" e o "quê" que se estudava no ensino. Um livro obrigatório para todos os que tenham especial interesse pelo séc. XVIII no geral, pelas políticas do Marquês de Pombal, pela história do livro, pela literatura ou pelo Iluminismo, quer seja por motivos académicos ou por mero interesse pessoal, que não é menos importante do que o primeiro.
Li este livro como guia para um trabalho da Faculdade, acabo a leitura com uma experiência literária fabulosa! Inicialmente, estava reticente, tendo em conta o número de páginas ser um pouco assustador, vendo que é um tema tão específico. Mas foi uma leitura maravilhosa do início ao fim. O Rui Tavares faz uma brilhante rede de contactos entre censores, autores, impressores, livreiros e toda uma sociedade cultural interna e externa à portuguesa. Mostra os seus jogos político-religiosos, como o Iluminismo moldou o final de um século e como o debate europeu conseguiu moldar a sociedade portuguesa com uma instituição, que ainda de curta duração (9 anos), teve o seu impacto. Esta obra mostra, sem qualquer sombra para dúvidas, que o Pombalismo não se limita à reconstrução de Lisboa, nem se restringe à influência britânico-austríaca trazida pelo seu principal autor - Sebastião de Carvalho e Melo. Esta obra mostra sim, a revolução cultural que existiu e entrou num estado de ebulição, nos anos seguintes ao Terramoto de Lisboa, à expulsão dos jesuítas e da morte de Malagrida.
Olhei para o livro a pensar que seria apenas mais uma crítica veemente à censura e em como está apenas atrasa o progresso social, económico e científico de uma sociedade, neste caso a sociedade portuguesa do século XVIII. Não poderia estar mais errado. Todo o processo de explicação é feito de uma forma simples o suficiente para qualquer um entender as diferenças entre a censura que ainda conhecemos e a censura implementada por alguém que muitos consideram como um “déspota iluminado”. Esta diferença é crítica para a percepção do leitor do quão paradoxalmente positiva foi esta censura para o desenvolvimento do país nos seus 9 anos de existência. Todos os exemplos de censuras, que nada mais eram do que avaliações de textos, livros censurados e textos cronologicamente próximos que foram providenciados eram de uma grande qualidade e ajudaram bastante a compreensão de algumas das palavras do autor, no entanto não ajudava muito qd estavam em línguas bem distintas, mas entende-se o propósito do autor. Em suma, um excelente ensaio sobre uma censura que não era em si um conjunto de leigos que seguiam ordens de outros, mas sim um conjunto de intelectuais iluminados que ajudaram a definir a ideologia seguida por uma sociedade.
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Livro que nos apresenta uma nova maneira de olhar para o Pombalismo. Conjuga também uma análise à atividade e personalidade dos censores que constituíram a Real Mesa Censória. Estimulante do ponto de vista das ideias apresentadas, e um exemplo de um trabalho de investigação sério, rigoroso e honesto
Rui Tavares parte da sua tese de doutoramento defendida na École des hautes études en sciences sociales para criar esta obra importantíssima para os estudos da história intelectual e cultural do século XVIII e do Pombalismo em Portugal. Por via da história da Real Mesa Censória criada por Marquês de Pombal, compreendemos a influência que a política de então terá no panorama cultural que se cria, através das biografias políticas e intelectuais dos censores, da análise textual das obras censuradas e das impressões que as segundas suscitavam aos primeiros. Com a finalidade de propor uma nova interpretação sobre o impacto do Pombalismo na criação intelectual e cultural em Portugal, o historiador dá conta de um período marcado por uma censura que então se via como positiva, em virtude da filtragem que aplicava condicionada à perspetiva do regime de Pombal.
A solidez cognitiva da obra, do meu ponto de vista importante a quem investigar processos históricos de usos do passado na construção de conhecimento em história da ciência, motiva a minha partilha.