A INSPIRADORA HISTÓRIA DE RESISTÊNCIA DE UM PAÍS E DE UMA CULTURA MILENARES
Segundo a tradição judaico-cristã, depois do Dilúvio, foi no Monte Ararat — em território arménio — que parou a mítica Arca de Noé. Ali começou o repovoamento da Terra.
Dos persas e dos romanos ao império otomano e à Turquia, os arménios sobreviveram a séculos de ocupações e ataques. Unidos por um forte sentido identitário e por uma cultura alicerçada na religião cristã, num alfabeto singular (criado no início do século V) e numa intensa tradição literária e arquitectónica, produziram cientistas, artistas, mercadores e empresários que se espalharam pelo mundo, numa diáspora muitas vezes forçada.
Indo além dos episódios mais conhecidos desta história — como os massacres de 1894-96 e, sobretudo, o genocídio de 1914-23 (que exterminou dois milhões de pessoas) —, e das suas grandes figuras — como Calouste Gulbenkian —, este livro oferece aos leitores um retrato profundo da Arménia.
Arménia - Povo e Identidade, um livro de António Loja Neves e Margarida Neves Pereira.
Mas o que significa ser arménio/a?
Durante 6 séculos os arménios foram um povo sem Estado. Em 1915 foram vítimas e sobreviventes de um Genocídio cruel. Mas recuemos... Existe um monte, o Monte Aratat, que está associado ao maciço montanhoso onde se abriram as portas da arca de Noé. E sei que quem agora me leu associou instantaneamente estas montanhas nevadas exclusivamente à Arménia, mas elas são também fronteiras entre mais dois povos: os iranianos e os turcos. Subjaz aqui um enorme problema, visto que ao serem um símbolo de identidade nacional Arménia, são também a imagem de um conflito.
Desde os seus primórdios que a Arménia foi uma potência regional, sendo que em 301 se tornara já o primeiro reino do mundo a adotar oficialmente o cristianismo como religião de Estado. Todavia, entre ocupações persas e romanas, vai perdendo a sua independência e cai numa instabilidade permanente.
Não me cabe delinear a cronologia das sucessivas ocupações, somente dizer que os arménios souberam preservar os seus valores simbólicos, a dignidade social e religiosa, mesmo que sob o posterior domínio islâmico, turco e, mais tarde, russo (não esquecendo as organizações clandestinas internas e terroristas).
Em 1991 inaugura-se a atual República da Arménia, um país com uma população maioritariamente emigrada, que sofre de falta de capacidade para impulsionar o desenvolvimento económico, ainda fortemente dependente da Rússia.
Neste livro aprendi sobre a idiossincrasia do cimento cultural arménio, dada a vasta disseminação cultural e universal dos seus usos e costumes, fruto das suas deslocações e dinamismo - mas sempre mantendo as tradições próprias.
Hoje em dia, a percepção da diáspora (que começou há 700 mil anos) é ramificada pelas diferentes gerações, pelos milhares de órfãos filhos do genocídio, o que se traduziu numa obrigação social em casar. A partir daqui, várias gerações vivem juntas a fim de de protegerem contra a miséria, procurando a primeira acumulação de capital
Este é um povo que não desiste, mesmo após séculos de tentativas de afogamento e maldade.
Ser arménio hoje é sentir-se arménio, como afirma a socióloga Anna Bakalian quando diz “Being to feeling Armenian”.
Na descrição está tudo dito. Resumindo: A estupidez humana, o fanatismo religioso, a ganância por poder, são mortíferas e provavelmente nunca vai existir maneira de parar.