Tenho de confessar que nunca pensei ler este livro. Começam a ser demasiados jornalistas a dar uma perninha na escrita, vá-se lá saber porquê, fica-me sempre a sensação que se estão a aproveitar da fama para outros voos, sabe-se lá com que qualidade. Ou sabe-se lá quem é que realmente escreve os livros.
Mas depois a Márcia - pessoa que admiro imenso e que é muito exigente na leitura - leu estes Jogos de Raiva e descreveu-o com uma simples palavra: fenomenal. Fiquei curiosa, é verdade, mas ainda com algumas dúvidas.
Depois veio a Pequeno Caso Sério com a sua critica fantástica e eu achei que, bem, se calhar o melhor é ler mesmo. Aproveitei um bom vale que tinha na Bertrand e pronto. O livro veio cá para casa e foi lido (ou melhor, devorado) em menos de nada.
Jogos de Raiva é, muito provavelmente, um dos melhores livros que li este ano. É, muito provavelmente, um dos melhores livros de um autor português que alguma vez li, ali, taco a taco com Para Onde Vão Os Guarda-Chuvas. É um livro poderoso, um portento. Mas também um murro no estômago, angustiante e intenso.
Viajamos, ao sabor dos acontecimentos e das recordações, entre o passado e o presente de três gerações duma família, com segredos, desavenças, amores e desamores. Aborda temas tão dispares como a violência, bullying, adopção, redes sociais, amor, amizade, família, homossexualidade, sexualidade, remorsos, depressão e sofrimento. Critica, de forma dura, o jornalismo - aquele de que o próprio autor faz parte - que vive do sangue, da desgraça alheia e que não respeita nada nem ninguém.
Mas não só.
Jogos de Raiva desmonta, de forma fenomenal, a sociedade actual que vive através das redes sociais, cuja preocupação maior é perceber quantos likes as publicações tiveram, ou os comentadores profissionais que vivem nas caixas de comentários, sempre prontos a ofender e a criticar.
Jogos de Raiva obriga-nos a pensar. A repensar. Na nossa vida, na vida dos outros, na nossa família e na família dos outros. Revolta-nos, encanta-nos e deixa-nos, quando terminamos, com um vazio num estômago, com a nítida sensação que nada será como antes e sem sabermos, ao certo, como poderemos pegar noutro livro, tendo a certeza absoluta que nenhum outro será tão bom como este.
devia haver leitores profissionais, tão exigentes quanto atentos e sensíveis e inteligentes, e talvez, quem sabe, talvez assim aparecessem melhores escritores.