“O Berro do Bode” é o segundo livro da escritora paulista Verena Cavalcante. A obra lançada pela editora Penalux reúne contos carregados por elementos simbólicos que flertam com o sagrado feminino, além de tocar em temas como o xamanismo e o animismo.
Verena Cavalcante é mãe, escritora, tradutora, revisora de textos e professora de idiomas. Formou-se em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCC) e atualmente também divide seu tempo com o estudo da psicanálise. Verena publicou seu primeiro livro, Larva em 2015, aos 25 anos. Em 2018, lançou seu segundo livro, O Berro do Bode. Sua voz única e visceral carrega um alto teor de verdade, especialmente quando aborda a infância e os terrores do universo feminino. A realidade na ficção de Verena Cavalcante é absolutamente chocante, e ela mergulha em diferentes universos (femininos e masculinos, infantis e adultos, mágicos e mundanos) de maneira bastante peculiar. Nesses tempos pandêmicos, vive reclusa em uma casa no interior de São Paulo com dois gatos, dois cachorros, um homem, um bebê, e seus demônios.
Foi muito revigorante ler os contos de terror de Verena Cavalcante, porque eles são de uma violência e de um pavor que transitam de braços dados com a estética literária e o poético. Fazer bons contos é difícil, mas fazer contos marcantes é muito mais, porque mesmo o bom pode ser esquecido. E esta seleção tem alguns títulos especialmente memoráveis. Recomendo.
“Ela vem com o canto das cigarras, meu bem. Quando as bichinhas começarem a cantar, preste atenção ao berro do bode. Ele vai te mostrar o caminho da casa dela. Ela é a mãe de nós tudo. Ela é o Céu e o Inferno.”
Não à toa destaco o trecho acima, trata-se de um convite. Não um convite à leitura de um ótimo livro de contos, mas a um sabbath, para dançarmos nus ao redor de uma fogueira no meio de uma floresta habitada por assombrações e criaturas com um elenco de mulheres intrigantes, instigantes e famintas.
Somos assombrados por essas estranhas criaturas provenientes de recônditos escuros e invisíveis, mas tão próximos e domesticados; próximos, pois estão nos cantos escuros, esquecidos de nosso interior, sagazmente projetados ao derredor. Domesticados, vez que aprendemos a domar, domesticar nossos apetites, dando-lhes limites estranhos a própria natureza, cedendo com charme, eloquência, cordialidade. E é pelo contraste que Verena pouco-a-pouco vai revelando, desnudando cada um deles, conclamando a paradoxal luminosidade das trevas.
O sagrado e profano revelam-se indivisíveis, uma só coisa, uma só essencial, como se afluentes a desaguar no leito do mesmo rio. Vai nos conduzindo ao feminino e pelo feminino, ao selvagem dos corpos nus, da simbiose entre o homem e o animal, o civilizado e o primitivo. Produz uma experiência catártica, percebemo-nos enredados, envolvidos, seduzidos por integrantes de uma seita, aprisionados no ventre de um gigantesco boneco de palha e oferecidos como oferenda ao fogo. Tudo isso em um lugar entre a consciência e o desejo.
A mulher-loba mostra seus dentes, garras e majestade em A Tempestade. A solidariedade, a maternidade e a perda despontam em Um pardal pousa na janela. Aliás, a maternidade perpassa os dez contos, ora por sua sacralidade, ora por sua profanação, como na mãe que assiste os filhos definharem na esperança de que seu homem retorne pela mesma estrada que partiu (em Papa-formiga), na professora obstinada (em O berro do bode), na criança violada (em Bonecas), no heroísmo da mãe oprimida (em Porquizôme). A violência e a morte também estão presentes nos ciclos, nas bestas e na magia em torno do feminino.
Verena dedica o livro as suas avós, “exímias contadoras – e ouvidoras – de causos“, e isso sinaliza uma outra característica marcante do livro, o tom de causos (o que, em alguns momentos, me fez lembrar a ótima Dinorath do Vale). Além disso, tudo soa como algo entre anacrônico e o atemporal das histórias contadas nas cidades de interior. Fez-me lembrar de meu pai contando histórias junto ao balanço no terraço de nossa casa, e dele mesmo lembrando da velha senhora que reunia as crianças da rua numa roda para contar causos de assombrações, todos genuinamente “verídicos”.
A escrita está ainda mais afiada (em comparação a Larva, seu livro de estreia), com maior requinte e apuro, o que carrega em metáforas prontas a confundir (no bom sentido) os significados e intenções no texto e por trás do texto. Tudo bem medido e estruturado faz com que o livro fuja a regra de livros de contos, quando há alguns excepcionais e outros não tão bons, haja vista terem todos a mesma qualidade e tensão. Verena faz um ótimo retorno e, se antes eu já prestava atenção a seu trabalho, confesso estarei ainda mais atento.