Neste livro-reportagem, a premiada jornalista Andrea Dip investiga as intricadas estruturas sociais, políticas e místicas que sustentam a escalada das Igrejas Evangélicas ao poder. COm linguagem ágil, apresenta pontos importantes, como a aliança de evangélicos com outros setores conservadores (como a CNBB e o Projeto Escola Sem Partido), o ataque aos direitos de grupos identitários (com as chamadas “cura gay”, “ideologia de gênero” e projetos antiaborto), a ocupação de um espaço deixado pelo Estado e o uso da mídia. ALém disso, busca identificar, sem preconceitos, quem são as pessoas que levam adiante o projeto evangélico de poder, como se articulam e em nome de quem levantam suas bandeiras.
Andrea Dip fez um trabalho primoroso, eu como cristão nunca tinha ouvido falar da teologia do domínio, apesar do tema ter sido apresentado de forma introdutória no livro, parece que ele é fundamental para a compreensão de como agem as bancadas evangélicas. Algumas generalizações no livro não me agradam, tais como, colocar os pentecostais tão próximos dos neopentecostais, teologicamente estão muito distantes... Contudo, vale demais a leitura! Apresenta um panorama imprescindível para se ter em mente quais os projetos de poder desses grupo da elite religiosa e também econômica, porque essas lideranças são ricas. Vale a leitura, porque as entrevistas colocam contrapontos importantes, elucidam, apresentam as contradições do movimento evangélico. Enfim, o livro vale a pena!
Quem vive na periferia, sabe o que é uma periferia. Algumas dificuldades cotidianas incluem ser atendido no posto de saúde, as escolas de ensino público são precárias, o serviço de limpeza é irregular o policiamento sempre deixa a desejar. Se alguém fica doente, perde o emprego, tem problemas com a lei, precisa ser internado em clínicas de desintoxicação, entre outros problemas comuns, recorre às redes de ajuda mútuas das igrejas. Pesquisas apontam que a conversão ao cristianismo evangélico melhora a condição de vida dos brasileiros pobres. O número de episódios de violência doméstica relacionados ao alcoolismo cai após a conversão porque o fiel precisa abandonar o consumo de álcool e drogas para ser batizado. Igrejas também oferecem atividades diárias, além de cultos e escolas dominicais, como aulas de música e dança, que atraem crianças e adolescentes que passam parte do dia sem assistência. Algumas igrejas tem creches e escolas próprias. Também disponibilizam cursos de alfabetização de adultos e encorajam os fieis a voltar a estudar. Em síntese, a Igreja Evangélica funciona porque o estado é falido, corrupto e ineficiente. As grandes redes evangélicas sempre estiveram em franca expansão em países pobres. Em especial, os do continente africano. Países como Noruega, Suíça, Finlândia e Dinamarca não são alvos das grandes redes de igrejas. Porque eles não precisam de milagres. O estado funciona. Tudo funciona. Evangélicos representavam 5% dos brasileiros em 1970. Hoje são um terço da população e serão maioria dos brasileiros daqui há 10 anos, de acordo com projeções estatísticas. Quando entramos no plano político, é preciso entender que enquanto intelectuais e formadores de opinião definirem o evangélico progressista como aquele que defende a legalização do aborto e da maconha, não haverá diálogo com a maioria dos evangélicos no país. Se a definição de evangélico progressista incluir aqueles favoráveis a melhorar a qualidade do ensino público, combater a corrupção e promover a justiça social, o número de evangélicos progressistas será muito maior. Está em jogo o resultado da eleição do ano que vem.
E o voto evangélico?
Mulher candidata não tem vida fácil na hora do voto. Porque a regra é clara: Não existe pastora, nem de consideração. A mulher é a esposa do pastor. Cada um fica na sua convocação para a qual foi chamado. O homem é o pastor e a esposa dele é a auxiliadora. É o caso do apóstolo Paulo, a quem se atribui esta passagem: Quero porém que saibam que Cristo é o cabeça de todo homem, e o homem é a cabeça da mulher e Deus é a cabeça de Cristo. Se Paulo era machista, o que dizer de Jesus que escolheu doze homens para compor o ministério da igreja nascente? Como a mulher candidata quebra essa regra|? É simples: retórica. Jesus rompeu paradigmas e nunca se referiu as mulheres de forma preconceituosa. Foi primeiro para elas que ele apareceu, após ressuscitar. Voto não se ganha, se conquista. Assistencialismo a igreja já faz. Lembre-se que Jesus foi o maior orador da história. Capriche na narrativa. Amém, meus irmãos? Amém, minhas irmãs?
Andrea Dip é uma jornalista e livros de jornalistas sempre são muito bons.
O livro mostra a história da igreja evangélica no Brasil desde o momento da fundação, a virada de jogo e aproveitamento de brechas eleitorais pra começarem a entrarem na política. O livro também trás as duas principais vertentes evangélicas no Brasil e as teorias que defendem (Poder e Domínio) e o crescimento da comunidade, que hoje é de 33% da população brasileira.
No final, o livro responde a pergunta da capa: Em nome de quem estas pessoas estão falando? quais são os reais interesses por trás de uma bancada evangélica com 97 parlamentares atuais?
O livro é um trabalho enxuto, mas instigante acerca dos bastidores do poder político, sobretudo o federal, e de uma de suas bases de influência mais significativas, a evangélica. A abordagem sem rodeios da autora traz um ponto de vista no mínimo indispensável para a compreensão de como chegamos ao cenário do momento em que escrevo, pós-eleições majoritárias de 2018, ainda que sua produção seja bem anterior a este período. Leitura recomendada, pois mostra uma perspectiva não tão trivial deste que é um dos momentos mais importantes da política nacional nas últimas décadas.