A família Hyeon era perfeita, todos diziam. Até um desastre acontecer e transformar profundamente Jack Hyeon. Ela decide então que a vida é curta demais para viver de aparências e que precisa começar a fazer suas próprias escolhas. Como primeira decisão, aproxima-se de uma colega de escola, Ede, que é o contrário dos padrões que os senhores Hyeon impuseram para a filha. Já Edeline carrega sua própria lista de infortúnios e descobre na amizade uma forma de superar o passado. Mas a vida dá uma reviravolta quando percebe que seus sentimentos estão tomando um outro rumo. [Contém conteúdo sensível]
Uma boa introdução aos escritos de A. S. Victorian. Porém, ao meu ver, com pontos a serem melhorados.
O estilo da obra, tanto em quesito escrita quanto na editoração, são incríveis. Amei a simbologia das bonecas, primeiramente, na introdução das três partes constitutivas da obra e como apontam esse processo de desacomodar e, ao fim, quebrar das bonecas, o que, em verdade, não representa totalmente algo ruim, e isso está explícito muito bem na obra. E, num segundo momento, o modo como a simbologia das bonecas se transmuta, dentro da obra, para os enfeites do quarto de Jack que, no decorrer do texto, como vidas para um gato, vão se partindo até que somente uma resta.
Com uma escrita rápida e que despensa longas elucubrações sobre os cenários, Victorian dispõe seu foco sobre a construção identitária dessas personagens e, acima de tudo, sobre o seu desvencilhar das feridas de um passado que, de um jeito ou de outro, ainda as persegue. Tendo como pilar de sua obra as rachaduras nas psiquês dessas duas personagens, o que, em suma, percebo como uma falha de seu texto, é que esperava, por conta desse enfoque, um maior aprofundamento psicológico de Ede e Jack. Digo isso porque, em alguns momentos, a ideia que fica expressa, principalmente ao referenciar cenas bastante pesadas de abuso sexual, estupro e outras violências que permeiam a obra, como aquelas sofridas por Jaqueline na casa dos pais, elas surgem, muitas das vezes, como uma pedra no sapato, algo que retiramos com um balançar, uma fuga, um forçado esquecer e cujas sequelas pouco vislumbramos nas personagens.
Em conclusão, a proposta de Victorian é refrescante, tanto por se tratar de um romance sáfico que quebra com alguns repetitivos tropos literários e fílmicos para textos desse gênero quanto por nos guiar através de um emaranhado de emoções boas e ruins que, continuamente, nos relembra justamente de que, após algo muito horrível, há de vir um momento melhor, uma mensagem valiosa para o público a quem se destina a obra e que, como um todo, deve ter contato com a representatividade de casais que fogem ao padrão das obras românticas e melosas que preenchem as estantes das livrarias atualmente. Quanto aos problemas por mim observados, acredito que pedem, para sua solução, por mais material, por um corpo maior de texto, por um respiro das loucuras e desastres enfrentados por Ede e Jack que permita que elas reflitam e, ao invés de investir em ataduras, finalmente curem suas feridas. E, por favor, que elas visitem um terapeuta.