Antes de ler este quadrinho, eu considerava o melhor roteiro de quadrinho nacional, mas nacional com brasilidade, a HQ Sabor Brasilis, que tratava de outra paixão nacional, as telenovelas. Esse quadrinho tem bolas, mas não porque fala só sobre futebol, mas porque fala sobre um assunto do futebol que é sempre varrido para debaixo do tapete: a homossexualidade nesta "paixão nacional". O futebol é realmente uma "caixinha de surpresas", principalmente no que tange às atitudes que provoca nas pessoas, no caos que provoca, na imbecilidade que ele traduz. Mas também tem o seu lado bom, um lado que eu nunca encontrei, pois sempre sofri por não gostar do esporte, tendo sofrido uma espécie de rejeição até do meu próprio pai por causa disso. Isso sem falar da maneira como brasileiro te trata quando diz que não é ligado em futebol. O Outro Lado da Bola é um trabalho competentíssimo, de personagens multifacetados, com camadas, com a mesma esfericidade de uma bola, embora os torcedores de futebol custem para entender que a vida não é só amigos e rivais, time da casa e time visitante. Essa é a mesma forma que somos obrigados socioculturalmente a encarar a homossexualidade num eterno "nós versus eles", como se fosse uma peladinha de moleque, como é o futebol para muitos. Como se fosse algo que desse significado a uma vida medíocre que nada mais faz além de torcer para seu time "do coração" e sair matando e ferindo gente por causa disso. E aí entra a homofobia. Respeito, atitude perante a vida, maturidade, não são coisas de moleque. Mas para aqueles que encaram a vida como um eterno "nós contra eles", a própria existência nunca vai passar de criancice e da mais pura ignorância. Do Outro Lado da Bola é uma leitura que todas as torcidas organizadas deveriam ler. Mas se eles não leem nem os álbuns de figurinhas que compram, é um sonho que ponham a mão em um livro em quadrinhos com mais duzentas páginas.