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Vai correr tudo bem, digo-lhe eu, duas ou três vezes, sabendo que estou a mentir: não há indulto que o salve da sua sentença nem volta atrás na nossa história esgotada. Vais curar-te, insisto. Nesse momento noto que respiro com dificuldade: sim, agora, sou eu quem arqueja, sinto-me sufocar e vejo-me obrigado a sair precipitadamente para o jardim.
Sobre “Paris-Austerlitz”, um dos habitantes mais recentes das minhas estantes, apenas sabia que era sobre a relação entre dois homens, por isso, não suspeitava que me envolvesse tanto nem que o livro abordasse o tema da Sida quando esta ainda era uma sentença de morte certa.
Voltar atrás, à estação de partida. Que o movimento das agulhas à saída da gare mude a direção da composição e o comboio percorra outros lugares, alcance outro fim de trajeto. Os olhos enchem-se-me de lágrimas ao pensar nessas palavras: fim de trajeto. Leio-as nos livros, vejo-as em filmes e programas de televisão, ouço-as nas declarações de familiares de doentes, esposas, maridos, amigos leais.
Paris-Austerlitz é a estação que liga a capital francesa aos países do Sul, de onde vêm os homens que Michel mais amou e, mais recentemente, onde chegou um jovem pintor madrileno de classe alta, momentaneamente sem casa, que é acolhido por esse operário francês, quase 30 anos mais velho. É uma história de amor com final infeliz, mas também um conflito de classes.
O rumor do caruncho. A presença de uma pedrinha ou de um prego no sapato: um homem esforça-se por continuar a andar, na esperança de que o hábito dissimule o incómodo, mas, muito pelo contrário, o incómodo transforma-se em dor e a dor torna-se insuportável. Se o Michel só me tinha a mim – dizia-mo constantemente: 'je n’ai que toi' – eu decidira também, por minha livre iniciativa, tê-lo só a ele: não é verdade que o ser humano se constrói a si mesmo, com a sua teimosia, com o controlo dos seus impulsos, com a sua vontade?
Saltando entre um passado mais recente e outro ligeiramente mais distante, entre o internamento de Michel devido à “peste” e uma paixão que acabou por azedar, é pungente a degradação física e mental de alguém consumido pela doença e igualmente doloroso o retrato de um homem com um passado traumático que se entrega plenamente aos outros, física e psicologicamente, até mesmo com consequências para a sua integridade física.
Michel ia-se apagando, tal como definhava, a cada dia de visita, a débil luz invernal no quadro da janela. Estendido na cama, o homem que o tinha substituído dirigia-me a palavra (certos dias com um sorriso forçado, outros dias com tristeza, outros dias com raiva). Olhava-o e escutava a voz de velhota rouca que agora tinha, e deixava-me invadir por uma indiferença agressiva e culposa que se substituía à compaixão.
É depurada a escrita nesta obra póstuma que Rafael Chirbes levou quase 20 anos a concluir, que não se torna vulgar nem nas cenas de sexo nem com a secura deste jovem narrador espanhol.
Um reparo apenas à tradução. Se editam um livro espanhol em português, em princípio é para que quem não domina aquela língua tenha acesso ao livro. Então, porquê manter as inúmeras frases em francês no original, sem ao menos uma nota de rodapé? Todos os portugueses dominam obviamente o francês, deve ser isso.