"A Segunda Vida de São Francisco de Assis"
Mais uma obra-prima! Na linha temática do "Levantado do Chão" e do "Memorial do Convento"...
Saramago não pretendeu simplesmente reeditar, à letra, a figura real e histórica de São Francisco de Assis...
A celebridade de São Francisco está essencialmente ligada ao ideal evangélico da pobreza absoluta que aparece como primeira coordenada do desprendimento do mundo.
A intenção de Saramago foi reapresentar a figura de São Francisco menos carregada de ideal religioso, mas como símbolo contemporâneo frente aos grandes desafios capitalistas do mundo moderno e contemporâneo, ou seja, como porta-voz de uma luta real contra a pobreza atual, e como apoio para uma distribuição mais justa da riqueza.
«A Segunda Vida de Francisco de Assis» é um texto teatral em dois atos. As personagens são representações de figuras históricas presentes nas biografias clássicas de São Francisco. Assim, encontramos Elias, Bernardo, Gil, Leão, Junípero, Rufino, Masseo, Pica, Francisco, Clara, Inês, Jacoba, Pedro. Para todos há uma fundamentação histórica, à exceção do segundo Pedro, que representa os pobres e fica inteiramente por conta da ficção do autor.
Francisco converte toda a sua determinação numa resolução concreta que revela a Elias: «Agora vou lutar contra a pobreza. É a pobreza que deve ser eliminada do mundo. A pobreza não é santa (Pausa). Tantos séculos para compreender isto."
Esta segunda Vida de Francisco de Assis surge, assim, como uma metáfora moderna de um mundo que precisa de uma transformação humanística superior, de uma teoria do homem pelo homem. Esta metáfora, inspirada e apresentada por Saramago, mostra como o teatro e a literatura podem ser discursos ativos da realidade social.
Ao tomar a decisão de lutar contra a pobreza, o novo S. Francisco denuncia que a pobreza é uma ignomínia, o grande mal contemporâneo, que torna miseráveis e viciados os nossos países e o nosso mundo.
Maravilhoso!