«Grande sala. Ambiente geral discreto e severo. Mesa comprida, cadeirões, cofre, telex, vários telefones, um terminal de computador. (...) Está reunido um conselho. Assim se entra no mundo da política, segundo José Saramago. A Segunda Vida de Francisco de Assis é mais uma incursão no drama, desta vez à volta de um tema bem o capitalismo, a qualidade, as chefias, a política, as eleições, a bolsa, as valorizações e desvalorizações dos produtos e das pessoas. E uma luta entre a razão e a força. Estamos em 1986, já há computadores, mas muita coisa mudou. «As coisas já não são o que eram», diz a certa altura uma das personagens. «Houve muitas mudanças e nem todas estão à vista. Algumas nunca saem daquele cofre. São as que convém manter em segredo. E Francisco? Também mudou, claro. Nesta segunda vida, aprendeu algumas lições e aparece a lutar contra a pobreza. É a pobreza que deve ser eliminada do mundo», diz. Mais uma vez Saramago usa a ironia para fazer as suas críticas. «A pobreza não é santa. Tantos séculos para compreender isto. Pobre Francisco.»» (Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)
José de Sousa Saramago (16 November 1922 – 18 June 2010) was a Portuguese novelist and recipient of the 1998 Nobel Prize in Literature, for his "parables sustained by imagination, compassion and irony [with which he] continually enables us once again to apprehend an elusory reality." His works, some of which have been seen as allegories, commonly present subversive perspectives on historic events, emphasizing the theopoetic. In 2003 Harold Bloom described Saramago as "the most gifted novelist alive in the world today."
The title means that the Author does not simply intend to reprint, to the letter, the natural and historical figure of Saint Francis of Assisi, an Italian saint who was born around 1181/1182 in the Umbra city of Assisi and was the founder of the Order of the Friars Minor, dying in 1227. San Francisco's celebrity lies essentially in the evangelical ideal it proposed. In this ideal, absolute poverty appears as the first coordinate of detachment from the world. Instead, Saramago intends to re-present the figure of San Francisco, less loaded with religious ideals and somewhat secularized, but worthy of being a contemporary symbol in the face of the modern world's great capitalist and proletarianizing challenges, as a spokesperson for a real struggle against current pauperism, and as support for a fairer distribution of wealth.
Como era de se esperar, o teatro de Saramago é mais dinâmico que sua prosa, portanto, mais gostoso de ler. Aqui ele coloca todas as pessoas envolvidas na vida de São Francisco e transpõe para o mundo yuppie empresarial dos anos 80, obviamente como crítica à igreja moderna. Bem bom.
"A Segunda Vida de São Francisco de Assis" Mais uma obra-prima! Na linha temática do "Levantado do Chão" e do "Memorial do Convento"... Saramago não pretendeu simplesmente reeditar, à letra, a figura real e histórica de São Francisco de Assis... A celebridade de São Francisco está essencialmente ligada ao ideal evangélico da pobreza absoluta que aparece como primeira coordenada do desprendimento do mundo. A intenção de Saramago foi reapresentar a figura de São Francisco menos carregada de ideal religioso, mas como símbolo contemporâneo frente aos grandes desafios capitalistas do mundo moderno e contemporâneo, ou seja, como porta-voz de uma luta real contra a pobreza atual, e como apoio para uma distribuição mais justa da riqueza. «A Segunda Vida de Francisco de Assis» é um texto teatral em dois atos. As personagens são representações de figuras históricas presentes nas biografias clássicas de São Francisco. Assim, encontramos Elias, Bernardo, Gil, Leão, Junípero, Rufino, Masseo, Pica, Francisco, Clara, Inês, Jacoba, Pedro. Para todos há uma fundamentação histórica, à exceção do segundo Pedro, que representa os pobres e fica inteiramente por conta da ficção do autor. Francisco converte toda a sua determinação numa resolução concreta que revela a Elias: «Agora vou lutar contra a pobreza. É a pobreza que deve ser eliminada do mundo. A pobreza não é santa (Pausa). Tantos séculos para compreender isto." Esta segunda Vida de Francisco de Assis surge, assim, como uma metáfora moderna de um mundo que precisa de uma transformação humanística superior, de uma teoria do homem pelo homem. Esta metáfora, inspirada e apresentada por Saramago, mostra como o teatro e a literatura podem ser discursos ativos da realidade social. Ao tomar a decisão de lutar contra a pobreza, o novo S. Francisco denuncia que a pobreza é uma ignomínia, o grande mal contemporâneo, que torna miseráveis e viciados os nossos países e o nosso mundo. Maravilhoso!
José Saramago pergunta: e se Francisco de Assis ressuscitasse e visse no que se transformou o seu legado e a sociedade católica? Esta peça de teatro responde à pergunta, é certo com outras perguntas, e põe-nos a nós leitores ou espectadores a repensar o poder, a desigualdade económica e entre os géneros, a nossa sociedade, no fundo, e que dela fazemos.
«(...) nunca faças nada que possa enganar a esperança.» P. 138
Francisco regressa à companhia que ele mesmo fundou para descobrir que os seus objetivos foram desvirtuados. Ao descobrir que os seus discípulos seguiram os exemplos de Pedro, seu pai, e do qual ele nunca gostou por ter ido contra o seu voto de pobreza, ele decidiu destruir a sua companhia. Mas não será fácil.
"Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia".
Comecei a ler sem saber nada sobre o livro, e a primeira surpresa foi descobrir que é uma peça. Gostei bastante, acho que o texto fluiu muito bem, de uma forma que não ficasse cansativo - é um daqueles livros para ler "em uma sentada só".
Basicamente, a obra retrata a vida de Francisco de Assis, antes de virar santo. Ele retorna a "instituição" que fundou, e descobre que todos os ensinamentos e valores que ele defendia foram desvirtuados de alguma forma, trazendo uma crítica a essa disputa de querer ter poder, dinheiro e status, esquecendo-se dos mais pobres (ao meu ver, uma ideia básica do que hoje entendemos por desigualdade social e políticas públicas). Percebe-se, até mesmo, o uso da fé como meio de convencer as pessoas a fazerem alguma coisa.
De fato, para um livro de 1987 e por ser meu primeiro contato com o autor, surpreendeu bastante... ansiosa pelos próximos livros do autor.
“A segunda vida de Francisco de Assis” foi uma obra dramatúrgica que me surpreendeu pela positiva. Vindo de mim, que não costumo ler nada se não prosa, esta foi uma obra que eu gostei imenso de ler e que me fez refletir imenso. Senti que nenhuma das palavras ditas pelos personagens foram em vão e que todas elas, por mais insignificantes que parecessem, tinham algum tipo de significado, e que o mais provável é eu não os ter apanhado a todos. Creio que esta é uma daquelas obras que eu vou entender e interpretar de maneiras distintas, ou apenas mais de uma maneira mais profunda, à medida que vou ganhando experiência de vida. Acredito que todas as obras de José Saramago sejam assim. Obras que nos fazem refletir e questionar todas as nossas escolhas de vida.
Já tinha saudades de ler Saramago, ainda que não aprecie muito ler peças de teatro. A premissa é excelente, como sempre: São Francisco de Assis volta à Terra para descobrir que a sua Ordem é agora uma Companhia rica. Bons diálogos nesta peça que, situando-se em 1986, poderia passar-se atualmente. Gostaria de a ver em cena.
O teatro de Saramago é tão ou mais forte que a sua prosa. Quando o mundo empresarial e a igreja são grandes redes de poder, a denúncia mordaz não pode ser fácil nem inocente.