Sérgio Vaz é poeta, e, como poeta, sabe ser simples. Como simples, sabe tecer o coletivo. Como coletivo, sabe ser nós. E como nós, faz-nos grandes ao seu lado. "No meio de uma terra devastada pela canalhice plantada a tantos anos, alguém quer semear a poesia e certamente colherá incompreensão. Os pensamentos vadios do poeta se disseminam quando vê que subindo a ladeira mora a noite, e na margem do vento numa rua de terra ele lê a poesia dos deuses inferiores. Se outros poetas pedem silêncio, ele pede mais barulho. Se outros escritores pedem paz, ele quer guerra". Se você, leitor, quer saber mais do que ora comungo, leia este incansável "Colecionador de pedras", você vai se apaixonar.
Há livros de poesia que pedem interpretação. Colecionador de pedras pede disponibilidade. Sérgio Vaz escreve como quem conversa na calçada, mas cada verso chega depois de atravessar décadas de desigualdade, luto, afeto e resistência. O resultado é uma poesia de aparência simples e construção rigorosa. Quanto menos palavras emprega, maior costuma ser o impacto.
O eixo do livro está na recusa do anonimato. Seus poemas recolhem pessoas que a sociedade reduz a estatísticas, manchetes ou estereótipos e devolvem a elas nome, rosto e história. Deixam de representar "os miseráveis" para existir como indivíduos. A denúncia social nunca substitui a humanidade dessas figuras, ela nasce dela.
Essa escolha define também a concepção de poesia do autor. O poema não é ornamento nem exercício de virtuosismo formal. Ele constrói pontes, preserva memória, produz comunidade e disputa linguagem. Quando afirma que a poesia pode esconder "o açúcar e a pólvora", resume toda a proposta do livro: ternura e confronto pertencem ao mesmo gesto.
A coletânea alterna poemas narrativos, aforismos, sátiras, textos amorosos e homenagens sem perder unidade. Um poema de quatro versos pode abrir uma ferida que permanece por páginas. Outro pode provocar riso antes de revelar sua dimensão trágica. Há momentos de delicadeza absoluta convivendo com textos de enorme contundência.
Porém, o maior mérito do livro é que Sérgio Vaz recusa a ideia de que a periferia ocupa apenas o lugar da falta. Ela aparece como território que produz imaginação, humor, amor, filosofia, infância, solidariedade e arte. A violência está presente, mas não define seus habitantes. A poesia existe justamente porque a vida insiste.
Poucos livros alcançam esse equilíbrio entre sorriso e choro. Vaz entende que emoção não depende do tamanho do poema, mas da verdade que ele concentra. Ao terminar a leitura, fico com a percepção de que cada pedra recolhida por Sérgio Vaz pesa menos como denúncia do que como prova de que a literatura ainda pode mudar a maneira como olhamos para as pessoas. É daqueles livros que não permanecem na estante. Passam a fazer parte daquilo que oferecemos a quem queremos bem.
Ler a poesia de Sérgio Vaz é sempre um presente. Nesse livro, as dificuldades da vida, o amor, a história e a falta são conduzidos pelo poema, arma e alimento, em versos que apostam no poder da rima. A poesia como salvação (não em sua acepção vulgar) encontramos em Vaz.
Havia muitas pedras pelo caminho, e Sérgio Vaz sabe como atirá-las, como desviar delas, como recebê-las e fazer delas um lapidado poético. Sintomático. Poesia para ser lida em voz alta. Ritmada. Absorvida. Com classe, sem medo, e com repertório. Poesia da vida.
Sérgio Vaz consegue tocar nossos corações e nossa mente com versos que chegam nas pessoas da periferia, com situações que são o nosso cotidiano. Por isso é mágico VIVA SERGIO VAZ!