Como observador agudo da contemporaneidade, Tonus elabora uma poesia que parte da constatação da própria impotência e que, à toda prova, foge dos clichês e dos lugares comuns. Agora vai ser assim é quase um livro-denúncia, um dedo a apontar o malfeito, a aberração, o fato que se desvia do humanamente tolerável. Em todo o volume, existe um sentido sublime de humanidade sintonizado com valores transcendentes e inegáveis, identificado com os despossuídos de todo o tipo em todo o mundo, fato que estabelece com o leitor uma empatia profunda e imediata. É uma delícia de ler, embora cause algum desconforto: quem é humano não está imune.
O livro começa com algumas experimentações poéticas, que decorrem ao longo da obra. Pequenos versos, símbolos (talvez um travessão atravessado, um super-hífen, um corte de fronteira), cubismos literários e figuras conhecidas da prosa nacional: sereia, brasil-colônia, escravidão e o terror. E é quando chegamos nesses assuntos que o livro toma mais corpo, no poema “Terror”, e um interessante protesto em “Um Corpo sobre a areia”. Sabemos sobre a incessante e insistente figura do homem cis branco de meia idade na literatura, e o quanto isso pode levar à caminhos (sem graça) e até grotescos, mas vejo aqui nesse poema uma reflexão pertinente e muito sensata sobre lugar de fala, o fim do lirismo diante do horror (aquela pergunta tão famosa ligada a Adorno: “É possível fazer poesia após Auschwitz?”), e até desmistificação da violência extrema como recurso narrativo. Seguimos com a volta de outras experimentações, poemas mais simples, um tanto repetitivos e não tão bem explorados até chegar em “Abelhas de Ruanda”, o melhor poema do livro. Destaco aqui dois versos que eu mesma gostaria de ter escrito: ... Ignorava-as em sua individualidade de abelha. ... Sua solidão em meu silêncio de inseto.
Adiante, encontramos diversas imagens-versos impactantes como “os cílios em concha / de um imigrante afogado”, comer carne com vidro esmagado (quem não chora na morte dos cães?), “nunca comi algodão doce... a espessura inexistente / da espera do que se espera / e que só é espera”, e, por fim, para não entregar tudo, “marujo ensinou-me a língua das formigas”.