Penso que é correto dizer que a cultura medieval europeia tem grande influência no desenvolvimento da tradição popular brasileira, principalmente no que diz respeito, no presente caso, a criação literária e teatral nordestina, sendo o "Auto da compadecida", de 1955, um belo exemplo.
A comédia teatral tem como ponto inicial a procura por João Grilo e Chicó pelo padre da cidadezinha de Taperoá , no sertão nordestino, para que abençoe o cachorro da mulher do padeiro, e patroa de João. Sujeito esperto, João cria daí, intencionalmente, uma série de situações para se beneficiar, o que resulta na morte de quase todos os personagens da peça (João Grilo, o bispo, o padre, o sacristão, o padeiro e sua mulher, o cangaceiro Severino e seu ajudante), sobrando apenas o palhaço, o frade e Chicó.
É difícil destacar um ponto alto, pois praticamente todos possuem sua carga dramática e cômica. No entanto, o julgamento realizado por Manuel (Emanuel ou Jesus), em razão das acusações dirigidas pelo Encourado (o diabo), mas com a intervenção aos mortos da advogada, Nossa Senhora, a Compadecida, mostra-se imensamente hilária.
Ariano Suassuna foi um grande mestre ao tirar da tradição popular, elementos necessários à construção do presente "Auto". Braúlio Tavares, no posfácio à obra, trata de afastar eventuais acusações de que Suassuna não criou uma obra, visto que se baseou em folhetos de cordel, trazendo inclusive o exemplo de que mesmo Shakespeare se baseou em uma história anterior para escrever seu "Romeu e Julieta". Na verdade, a criação autoral é profícua em utilizar bases anteriores para novas criações e isso é o que se chama "domínio público". Praticamente todas as criações literárias (inclusive o teatro) têm por base criações anteriores que por sua vez se baseiam em outras criações, o que importa em dizer que a originalidade não é um requisito tão importante nos direitos autorais, mas sim a forma de expressão de um/a autor/a, que imprime na nova criação suas características próprias. Os exemplos abundam-se.
E voltando ao assunto inicial, Suassuna, ao imprimir sua expressão própria nessa interessante comédia, só faz bem à tradição cultural na qual se insere e na qual busca suas fontes, traduzindo nas linhas dessa obra mais do que a cultura brasileira ou mesmo regionalista (já que se fosse o caso, muitos personagens da obra retratam a sociedade brasileira como um todo), mas sobretudo alçando-a ao universal.