Uma voz errante invade um corpo humano e sonda o que esse corpo sente enquanto mulher, o que finge sentir, o que é impenetrável nele, o que esse corpo significa para o outro ou a outra que o vê. Em Vaga Carne, um corpo de mulher vive a urgência do discurso à procura de suas identidades, à procura de pertencimento.
“Estão ouvindo? Você ouve, coração? Pulmão? Sangue? Osso? Lá fora existe um bicho feroz, coisa de manter flechas e armas nas mãos! Sabem que nome tem esse bicho? Sabem como se denomina esse bicho? Sabem que nome tem? O olhar dos outros.”
A voz não sente-se apenas voz a partir do momento em que encosta na carne da mulher. Ao mesmo passo em que tenta emaranhar-se, percebe todos os obstáculos que a afundam dentre os órgãos e as camadas dela.
Uma voz errante ocupa um corpo, após ter ocupado inúmeras outras matérias. Mas há uma especificidade, pois o corpo que recebe a voz é o de uma mulher negra...e essa voz sempre questiona sua materialidade, por não ouvir resposta a suas interpelaacoes. A voz, na verdade, nos obriga a ver esse corpo, que não responde. Obriga-nos a questionar o que há dentro, e o tem permissão de ser, de vazar, lá fora. Pergunto-me: o corpo aprisiona mesmo essa voz? O que sabe este corpo, o que ele não quer/não sabe dizer? Achei um exercício de outridade/alteridade muito interessante na forma teatral, principalmente nessa cisão entre corpo e voz, quem aparentamos, quem somos, e como isso atravessa a vivência de um mulher negra.
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