“Rui de Leão” e “O imortal” são duas versões da mesma história: um português recebe de um pajé um elixir da imortalidade, e toma um gole dele, se tornando imortal. A partir daí, a narrativa segue as desventuras dele através dos séculos.
“Rui de Leão”, a primeira versão da história, é narrada em uma terceira pessoa onisciente deliciosamente sarcástica. Essa versão é mais leve em acontecimentos históricos, se focando em satirizar costumes.
O imortal, por outro lado, tem ares da segunda geração do romantismo: a história do imortal Rui de Leão é contada pelo seu filho a dois colegas em uma taverna. A narrativa do filho é mais sóbria, e mais recheada de eventos importantes.
É quase tentador pensar que “O imortal” é uma continuação de “Rui de Leão” — as diferenças na história são frutos do filho do Rui encorpando a história do pai com detalhes mais europeus para impressionar mais os amigos. Porque, sejamos francos, deve ser meio embaraçoso dizer que o pai usou o dom da vida eterna para passar duzentos anos coçando o saco.
Dentre as duas, confesso, a minha favorita foi a Primeira, muito mais sarcástica (se bem que pode-se argumentar que a segunda passou melhor o enfado da imortalidade, mas divago).
Tanto “Rui de Leão” quanto “O Imortal” são bastante interessantes por antecipar movimentos posteriores, com a valorização da Amazônia. Em verdade, agora eu me toquei de algo. Se a segunda versão do conto, “o imortal”, é evocativa do romantismo, “Rui de Leão” parece uma previa do modernismo. O filho do Rui se sentiria em casa nas tavernas de Álvares de Azevedo, mas o Rui em si ficara mais à vontade ao lado de Macunaíma.
A plutão é uma editora que já começou mostrando ter um potencial imenso — a edição é primorosa, e conta com uma instrução excelente do Roberto de Souza Causo. Eu realmente estou ansioso para ler o próximo lançamento dela, aqui quem fala é da terra.
Recomendadíssimo para fãs da sci-fi que querem conhecer os primórdios do gênero no Brasil.