Comprei este livro e sentei na praça de alimentação. Dez páginas depois, os gritos dos garçons, os choros das crianças, o blablabla dos comensais e transeuntes foram levemente se apagando. Meu cenário não era mais uma praça de alimentação de shopping. Era uma praia francesa onde um menino de treze anos conhecia as primeiras experiências do amor. Existem leituras que tem esse poder. Nos deslocar do nosso lugar, nos submergir dentro de um outro universo, tal o seu poder. Há cinco anos atrás eu me deparava com O Gosto do Cloro, primeira narrativa de Vivés, um cara que tem a minha idade (suspiro). O poder era o mesmo, só que dessa vez, com mais páginas e uma narrativa mais madura, menos lacunar. Uma irmã daria um belíssimo filme indie. A, digamos, direção de Vivés na escolha dos enquadramentos, da montagem do ritmo, é perfeita. Também consigo ver que o desenho de Vivés evoluiu bastante, por vezes até lembrando o mangá. Vale destacar também que é uma narrativa bem atual, em que os personagens usam whatsapp, facebook e as crianças desenham Pokémons. É muito legal a maneira como o autor constrói a relação entre os três personagens principais: Antoine e seu irmão, Titi, e a hóspede Hélene. Não é uma história cativante, nem tocante, nem de disparar a adrenalina. É uma história de cotidiano, que poderia acontecer com qualquer um de nós. E é aí que se encontra a sua força: uma cotidianidade explosiva, potente e que faz o mundo ao redor de nos entrar em um fade out. Nisso, li três quartos de Uma Irmã enquanto estava na praça de alimentação do shopping.