*uma nota entre 3.5 e 4 ⭐
aviso de gatilhos: machismo, misoginia, abuso sexual, estupro, racismo, homofobia, ideações suicidas, pedofilia, transfobia, bulimia, soropositividade e outros que não consigo lembrar.
Em suma, “Todo mundo merece morrer” é um livro composto por altos e baixos.
Comecei a trama achando tudo muito estranho, diferente e sem uma opinião muito forte. Então, com o passar das páginas, cada história de cada sobrevivente (não vítima, sobrevivente) foi adquirindo um teor de discussão sobre moral e ética, fazendo-me duvidar até de mim mesmo e meus pensamentos – e eu gosto de tramas assim, diga-se de passagem, gosto mesmo de duvidar de mim.
No entanto, à medida que eu lia, fui percebendo certas repetitividades entre uma história e outra, como se estivesse faltando criatividade da parte da autora. O que me pegou mesmo é que esta falta de criatividade culminava justamente em gatilhos e problemas sociais que, ao meu ver, não passava de uma pornografia da violência sem muito cuidado com o que estava mexendo, trazendo para o enredo apenas para chocar. Certo que o livro é sobre pessoas horríveis, mas precisa haver uma responsabilidade na hora de falar sobre racismo, por exemplo. Faltou uma leitura sensível, com certeza.
A escrita de Clarissa é impecável e para mim essa é a melhor coisa do livro. Minha gente, tem até um ponto de vista narrado como se fosse versículos da Bíblia – com vocativos, verbetes e vocábulos perfeitos que só fizeram desse capítulo mais verossímil. Ponto para a pessoa que editou e outras que estavam por detrás desse conjunto de páginas. Eu gostaria MESMO de ler qualquer outra história escrita por ela e tenho certeza que, com atenção aos cuidados que mencionei, seria um livro grandioso.
A narração do capítulo final simplesmente me deixou sem ar. ”Todo mundo merece morrer” foi uma experiência muito louca, apesar destes e outros pecados. Vale a pena, mas tome cuidado (teve um capítulo que eu sequer consegui finalizar de tão agoniante).