Antes de mais nada, é preciso que se diga: a escrita de Chico Buarque é muito gostosa. Ok, as letras também, os poemas idem, imagino que cozinhe bem e alguma coisa muito incrível na cama esse homem deve fazer na cama, ainda hoje, mas aí saímos do assunto.
Não espanta, óbvio, que Chico seja bom, aliás, ótimo escritor, já que passou a vida fazendo isso mesmo, escrevendo. Assim, ele nos traz esse livro, por sinal um tanto curto e bastante autobiográfico. Nele, um rapaz descobre, por acaso, que tem um irmão alemão, de antes do casamento do pai com sua mãe. Daí se desenrola a trama, com o protagonista e narrador de tudo fazendo para descobrir o tal irmão, por ele se obcecando.
O melhor do livro é a própria escrita de Chico, já que é um livro tranquilo, plácido, onde bem dizer não acontece muita coisa. O protagonista tem lá seus problemas, inseguranças e idiossincrasias, não é lá uma pessoa de muita moral e que te faça torcer para que se dê bem. Mas Chico escreve muito bem (já mencionei isso) e acaba sendo um prazer ir acompanhando a história, especialmente por descrever um pouco do Brasil, mais especificamente São Paulo, ali pelos anos 1960, com alguns dos horrores da ditadura respingando na família Hollander. Para quem ama livros, as frequentes referências são divertidas, sem chegar a ser didáticas.
No final, que se passa já na época atual, a cosia fica um tanto apressada e atropelada, com bastante infodumping e correlações entre pessoas, sobrenomes e parentescos. Confuso mesmo. Some-se a isso o estilo de Chico, com parágrafos enormes, por vezes durando duas, três páginas, e a leitura sai um tanto prejudicada. Algo, aliás, que ele mesmo tira onda em um momento da história.
Mas é um livro bom de ler, melancólico em alguns momentos, engraçado em outros e (ok, última vez) muito bem escrito. Leva um 3,75, arredondado com gosto para 4 estrelas.