O premiado autor André de Leones traz em seu novo romance, "Eufrates", uma história sobre a fragilidade humana, relacionamentos e amizade. André de Leones sabe, como ninguém, transitar entre lugares e tempos narrativos de forma sutil. Seu livro de estreia, "Hoje está um dia morto", alçou o autor à categoria de autores brasileiros relevantes, e assim ele chega ao seu sexto romance. Eufrates narra a história de Jonas e Moshe, melhores amigos, e suas relações familiares e amorosas. O livro se passa entre os anos 1991 e 2013, em diversas cidades brasileiras, Argentina e Israel. Conduzido pelos protagonistas, o livro apresenta, com maestria e originalidade narrativa, as relações pessoais, os desencontros, as aspirações e as desventuras humanas.
André de Leones nasceu em 1980, em Goiânia. Foi criado no interior de Goiás, em Silvânia. Vive em São Paulo.
É autor dos romances "Eufrates" (José Olympio, 2018), "Abaixo do paraíso" (Rocco, 2016), "Terra de casas vazias" (Rocco, 2013), "Dentes negros" (Rocco, 2011), "Como desaparecer completamente" (Rocco, 2010) e "Hoje está um dia morto" (Record, 2006), e da coletânea de contos "Paz na Terra entre os monstros" (Record, 2008).
Escreve resenhas literárias para o jornal "O Estado de S. Paulo" e crônicas para "O Popular". Já colaborou com "O Globo", "Bravo!", "Diário de Cuiabá" e "Jornal do Brasil", entre outras publicações.
Segundo livro que leio do autor (o primeiro foi Abaixo do Paraíso). De Leones é dono de uma prosa elegante, sabe entrelaçar as diversas tramas num tecido bem estruturado e constrói personagens muito convincentes. Neste romance, especificamente, vemos o Moshe e Jonas em diversos momentos e lugares da vida. O enredo acontece sobretudo ao longo dos anos 2000-2010 e se passa em cidades tão diversas como São Paulo, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Brasília, Jerusalém e Belém (PA). Por mais que a narrativa avance e retroceda no tempo, a mão firma do autor não permite que o leitor se desgarre. Os arcos dos personagens são muito interessantes e, embora a dicção soe algumas vezes inapropriada, esse pequeno defeito passa facilmente despercebido.
Gostei muito do estilo do autor, que constrói os personagens via diálogos aparentemente banais, faz descrições minuciosas de momentos de silêncio e de situações rotineiras que criam um quadro amplo, além de facilitar um certo apego aos personagens. Lembrou-me o estilo do Karl Ove Knausgard - só que não voltado para dentro, mas para os outros. Poderia ser um pouco mais curto mas é um livro de leitura fluida, porém nunca leve.
A maioria dos comentários e resenhas sobre Eufrates, de André De Leones, vai pelo caminho da ode à amizade, o que não está errado, mas quero ir por outro lado: de uma certa masculinidade levemente tóxica dos dois protagonistas que vivem uma espécie de bromance. São duas figuras interessantes, que fazem o que acreditam ser o certo, repletos de boas intensões, mas ambos acabam abandonados pelas namoradas, que não conseguem suportar o comportamento deles – e acho bem compreensível.
Moshe e Jonas são dois caras legais, a princípio, mas com o tempo não são mais. Seus comportamentos geralmente são egoístas, e, como a narrativa toma o ponto de vista deles, as personagens ganham contornos vilanizados. O interessante é que o livro supera isso, mostra que elas são melhores do que eles. Talvez a eles dois interesse mais um ao outro do que a companheira. Passivos até dizer chega, se dão bem porque um tolera a toxidez do outro.
O autor é feliz nesse retrato ao deixar que essas duas figuras se exponham sozinhas, não é preciso um sermão do narrador para vermos o que há de errado com ambos. A prosa é espontânea, e os diálogos são certeiros, resultando numa leitura fluída, gerando uma curiosidade de onde esse livro vai chegar. A marcação clara das datas instiga ainda mais – especialmente nos segmentos centrados em junho de 2013. A maneira tangencial como os acontecimentos políticos daquele momento conturbado aparecem no livro explicita o estado de alienação e da maneira autocentrada da dupla. Nesse sentido, é revelador o retrato Eufrates que faz de uma juventude bem específica, mas de um espectro amplo.
livro ok, esperava um final mais interessante, ficou parecendo que não acabou, mas a historia é envolvente e as vezes engraçada, apenas as cenas de sexo excessivamente detalhistas que tornam o livro um pouco desconfortável
Uma amizade através do caos ANDRÉ DE LEONES lança romance sobre trajetórias paralelas de dois amigos
André de Leones estreou na ficção após vencer o Prêmio Sesc de Literatura de 2006 com seu romance de estreia, Hoje Está um Dia Morto, e no período de mais de uma década, quatro romances e um livro de contos, dedicou-se a lidar com alguns temas recorrentes da condição contemporânea: a anomia, a confusão dos horizontes morais, o peso do mundo para personagens desajustados incapazes de capitular a concessões sociais básicas. Todas essas inquietações se condensam de forma bem ajustada em seu mais recente e ambicioso romance, Eufrates.
Aos 38 anos, o goiano Leones é autor de livros que mesclam suas obsessões temáticas com experiências formais no mundo dos gêneros. Dentes Negros (2011) é uma narrativa distópica pós-apocalíptica sobre um mundo assolado por uma praga misteriosa. Abaixo do Paraíso (2016) é uma narrativa em que, após cometer um crime inadvertidamente, um homem se lança a uma jornada em clima de road movie existencialista. São bons livros atrapalhados por um problema comum: ensaiam ser uma coisa e, após uma virada, tornam-se outra, menos interessante do que a premissa inicial. Talvez pela extensão, talvez pela estrutura episódica, Eufrates escapa dessa limitação ao narrar, em uma cronologia não linear, a história de uma amizade entre os anos 1990 e 2010.
O romance aborda as jornadas paralelas de Moshe e Jonas, que terão um no outro e na amizade que os une o único elemento consistente de suas vidas. Judeu, Moshe guarda um rancor surdo do pai, de quem teve que cuidar após este afundar no abismo depois de uma separação. Jonas remói a perda dos pais e a relação afetuosa, mas distante, com as irmãs. Ambos têm uma trajetória sentimental acidentada e casamentos fracassados.
Leones usa de modo hábil um recurso de que já havia lançado mão em seu romance anterior, uma espécie de paradoxo entre o movimento e a letargia. A narrativa se desloca constantemente, o que acentua o efeito da paralisia interior de seus personagens, incapazes de mudar a forma como encaram suas relações e suas vidas. Assim, enquanto Eufrates se desloca no tempo e no espaço por lugares como Rio, São Paulo, Buenos Aires, Brasília e Jerusalém, Moshe e Jonas são mostrados, em momentos diferentes de suas vidas, prisioneiros de suas teimosias e fraquezas. Solitários na multidão, que atravessam continentes sem sair do lugar.