Uma amizade através do caos
ANDRÉ DE LEONES lança romance sobre trajetórias paralelas de dois amigos
André de Leones estreou na ficção após vencer o Prêmio Sesc de Literatura de 2006 com seu romance de estreia, Hoje Está um Dia Morto, e no período de mais de uma década, quatro romances e um livro de contos, dedicou-se a lidar com alguns temas recorrentes da condição
contemporânea: a anomia, a confusão dos horizontes morais, o peso do mundo para personagens desajustados incapazes de capitular a concessões sociais básicas. Todas essas inquietações se condensam de forma bem ajustada em seu mais recente e ambicioso romance, Eufrates.
Aos 38 anos, o goiano Leones é autor de livros que mesclam suas obsessões temáticas com experiências formais no mundo dos gêneros. Dentes Negros (2011) é uma narrativa distópica pós-apocalíptica sobre um mundo assolado por uma praga misteriosa. Abaixo do Paraíso (2016) é uma narrativa em que, após cometer um crime inadvertidamente, um homem se lança a uma jornada em clima de road movie existencialista. São bons livros atrapalhados por um problema comum: ensaiam ser uma coisa e, após uma virada, tornam-se outra, menos interessante do que a premissa inicial. Talvez pela extensão, talvez pela estrutura episódica, Eufrates escapa dessa limitação ao narrar, em uma cronologia não linear, a história de uma amizade entre os anos 1990 e 2010.
O romance aborda as jornadas paralelas de Moshe e Jonas, que terão um no outro e na amizade que os une o único elemento consistente de suas vidas. Judeu, Moshe guarda um rancor surdo do pai, de quem teve que cuidar após este afundar no abismo depois de uma separação. Jonas remói a perda dos pais e a relação afetuosa, mas distante, com as irmãs. Ambos têm uma trajetória sentimental acidentada e casamentos fracassados.
Leones usa de modo hábil um recurso de que já havia lançado mão em seu romance anterior, uma espécie de paradoxo entre o movimento e a letargia. A narrativa se desloca constantemente, o que acentua o efeito da paralisia interior de seus personagens, incapazes de mudar a forma como encaram suas relações e suas vidas. Assim, enquanto Eufrates se desloca no tempo e no espaço por lugares como Rio, São Paulo, Buenos Aires, Brasília e Jerusalém, Moshe e Jonas são mostrados, em momentos diferentes de suas vidas, prisioneiros de suas teimosias e fraquezas. Solitários na multidão, que atravessam continentes sem sair do lugar.