Muitos escreveram sobre José Dirceu, com mais erros do que acertos. Com tempo, na prisão, ele mesmo escreveu a fascinante história de sua vida. Os bastidores inéditos de sua militância estudantil nos anos 1960, o exílio e o treinamento para ser guerrilheiro em Cuba, a cirurgia plástica que mudou seu rosto, a vida clandestina no Brasil nos anos 1970, a volta à legalidade com a anistia, em 1979, e sua ascensão no Partido dos Trabalhadores, onde se tornou presidente e maior responsável pela eleição de Lula à presidência da República. Pela primeira vez ele revela segredos dos bastidores da luta política dentro do PT e do próprio governo, onde foi chefe da Casa Civil e provável sucessor de Lula, até ser abatido pelas denúncias do chamado "Mensalão". No primeiro volume de suas "Memórias" – outro virá, com novas revelações – ele expõe o que jamais foi dito sobre sua vida e sobre os principais líderes da política brasileira nos últimos 50 anos. Um livro imprescindível para se entender como foi a luta contra a ditadura militar, a redemocratização, a derrubada do presidente Fernando Collor, a oposição aos governos de Fernando Henrique Cardoso, a eleição de Lula e Dilma e o atual momento político do país.
Escrito durante parte de seu período no cárcere, o livro é uma radiografia interessante dos Anos de Chumbo (aqui, a tensão nos contamina; nos sentimos clandestinos, tal qual o autor), da fundação do Partido dos Trabalhadores e de sua luta política nas eleições democráticas que o tarimbaram e o alçaram ao poder. Não poupa críticas às figuras históricas e políticas do seu tempo. E não deixa de ser interessante analisar a perspectiva de quem estava nos bastidores da história política da segunda metade do Século XX e início do Século XXI e realmente possui muito para nos contar.
Também é bem verdade que determinados momentos, a narrativa cansa e os fatos acabam sendo soltos de maneira confusa - principalmente para quem não conviveu com aquela realidade política.
Se culpado ou inocente, a resposta é particular do leitor.
Dirceu é um personagem histórico fundamental para se entender o Brasil a partir do final da década de 1960, e aqui se prova, também, um autor digno de ser lido: suas memórias soam sinceras, inteligentes, ácidas, tristes, ressentidas, nostálgicas e sensíveis. Ao longo das quase quinhentas páginas, o livro flutua por entre basicamente todos os estados de espírito da condição humana, dando tridimensionalidade a um personagem que a maior parte do país conhece, se tanto, dos telejornais e capas de revista. Seu engajamento nos movimentos estudantis, na luta armada, na vida clandestina, na fundação e no estabelecimento do PT e no primeiro governo Lula são documentados, aqui, com riqueza de detalhes pelo próprio, em uma mistura que oscila entre o relato extremamente pessoal – com direito a digressões sobre diversas figuras públicas e privadas que conviveram com o autor durante toda a sua trajetória – e a análise de conjuntura política, que não deixa de poupar nomes, datas e dados. Para quem busca uma perspectiva detalhada sobre a ditadura militar brasileira e, sobretudo, a redemocratização e os governos de seus primeiros presidentes, é uma leitura mais que recomendada.
José Dirceu entrega um relato visceral escrito à mão na cela de Piraquara. É um livro que oscila entre a memória afetiva e o rigor do militante disciplinado. Para quem quer entender os bastidores do PT e a mentalidade de um dos personagens mais controversos da nossa história recente, a leitura é obrigatória.