Livro de estreia da carioca Yasmin Nigri, Bigornas é um trabalho surpreendentemente sólido. Mais que uma simples coletânea de poemas, o livro é construído sobre a ideia de formação poética e tangencia questões como solidão, violência e fracasso. Dividido em quatro partes, reúne desde alguns de seus primeiros poemas, mais distendidos e bem-humorados (Rua de Ontem), passando por uma série dedicada a artistas que influenciam seu olhar (Recibos) e por um romance entre mulheres (Mulher Malevich), até os da última parte (Bigornas), cuja concisão e densidade lhes atribui a eficácia dos golpes bem-assestados.
Desde que me embrenhei na psicanálise na última década fiz as pazes com a leitura e escritura de poesia, mas em 2021 me assusta a falta do ler e fazer poético na minha vida. Entre a compra do Bigornas da Yasmin Nigri e a sua leitura hoje, fiz um curso na Casas das Rosas sobre fazer poético com a autora. Tendo uma garrafa de vinho branco comigo hoje, me perguntei: por que não esse livro? Não me arrependi, enquanto a poeta traça claramente suas influências (céus, tem até referência à Harmonias de Werckmeister do Bela Tarr!), também insere pequenas familiaridades pessoais que obviamente não sabemos se são mesmo confessionais ou mera licença poética, tudo num emaranhado que realmente nos faz pensar e sentir a pulsividade lírica.
yasmin tem um dom de criar imagens com sua poesia — isso não é pra todo mundo. muita gente tenta e falha, mas ela consegue tanto que seus poemas estão comigo até agora depois do fim.
Pouco me separa do eu-lírico dos poemas de Yasmin, mas esse pouco no distancia no que esse muito que nos une significa para cada um de nós. Em um do poemas, um verso diz que outras irmãs irão entendê-la. Quando há um recorte da experiência feminina, por mais empático que eu possa ser, passo a viver num cânion de distância entre o que ali se sente e aquilo que eu penso sentir quando ouso entender o que lá se sente. Isso não quer dizer que os poemas não são bons e consistentes. A escolha da autora foi direcionar sua literatura para determinado público e respeito essa escolha. Há poemas que gostei mais e outros menos, só que isso não importa. O que importa é que mais pessoas, no compartilhamento dos temas trazidos neste livro de estreia, possam seguir com o diálogo que ele propõe.
Gostei muito de uns, nem tanto de outros. Alguns dos breves não me empolgada muito, mas gostei da maioria dos longos! Como é um livro de estréia, é esperado, então fico no aguardo do próximo.