Depois de O Continente e O Retrato, O arquipélago finaliza a trilogia protagonizada pela família Terra Cambará. Santa Fé, o Rio Grande do Sul e o Brasil como um todo se modernizam e já não cabem nos planos das oligarquias tradicionais. Os Cambará retiram o apoio ao governo e aderem à revolução de 1923. A história fictícia da família se mistura com a realidade fervilhante do país na primeira metade do século XX. As disputas pelo poder, a bravura e o amor marcam esta obra que se firmou como um clássico da literatura brasileira.
Erico Verissimo (December 17, 1905 - November 28, 1975) is an important Brazilian writer, who was born in Rio Grande do Sul. His father, Sebastião Veríssimo da Fonseca, heir of a rich family in Cruz Alta, Rio Grande do Sul, met financial ruin during his son's youth. Veríssimo worked in a pharmacy before obtaining a job at Editora Globo, a book publisher, where he translated and released works of writers like Aldous Huxley. During the Second World War, he went to the United States. This period of his life was recorded in some of his books, including: Gato Preto em Campo de Neve ("Black Cat in a Snow Field"), A Volta do Gato Preto ("The Return of the Black Cat"), and História da Literatura Brasileira ("History of Brazilian Literature"), which contains some of his lectures at UCLA. His epic O Tempo e o Vento ("The Time and the Wind'") became one of the great masterpieces of the Brazilian novel, alongside Os Sertões by Euclides da Cunha, and Grande Sertão: Veredas by Guimarães Rosa. Four of Veríssimo's works, Time and the Wind, Night, Mexico, and His Excellency, the Ambassador, were translated into the English language by Linton Lomas Barrett. He was the father of another famous writer of Rio Grande do Sul, Luis Fernando Veríssimo.
Na última parte de "O Tempo e O Vento", acompanhamos o clã dos Cambará desde a metade das década de 1920 até 1945, num momento em que a saúde de Rodrigo se está frágil e as relações entre a família, deterioradas. Dividido em três partes, o livro nos mostra as transformações mais profundas pelas quais passam Rodrigo, ainda protagonista, e seus filhos, em especial Floriano e Eduardo, que se opõem a seus valores morais e posicionamentos políticos. O mais longo dos livros da saga de Erico Verissimo pode ser também o mais difícil de ser lido, não só pelo tamanho, mas também pela quantidade e complexidade dos eventos retratados. O mais interessante é que, assim como o Brasil e o mundo passam por mudanças drásticas durante o tempo em que a história é ambientada, os personagens também. Vemos Rodrigo se transformar em um homem conservador que age exatamente como aqueles que ele tanto criticava quando jovem e um político conservador, que colabora - por ação ou omissão - com um regime autoritário e violento. E vemos de que forma as suas ações moldam o caráter, as crenças e desejos de seus filhos. E, no entanto, nada no Rodrigo dos anos 1940 surpreende: tudo já estava embutido no íntimo do jovem Dr. Rodrigo Cambará que conhecemos em 1910 no livro anterior. Por acompanhar um mesmo grupo de personagens durante tanto tempo (diferente de "O Continente", que se estende muito mais porém acompanha uma grande variedade de "protagonistas" situados em diferentes fases), esse livro também carrega acontecimentos com grande impacto dramático: novas "revoluções", perdas de pessoas queridas, intensa polarização política, a dissolução da imagem idealizada de um "pai herói" e a constante busca por compreender a si mesmo. Alguns dos momentos marcantes dos personagens foram para mim até mais emocionantes e chocantes do que na primeira leitura. Não foi, porém, uma leitura fácil. Passei mais de quatro meses com este calhamaço, e durante uma parte deles, encarei mais um pouco do que me desagradou em "O Retrato", especialmente quando se discute política - não que o assunto não me interesse, mas os momentos em que isso acontece no livro são tão frequentes que tornavam a leitura cansativa. Por outro lado, essa fase também comporta lindos momentos de conversas íntimas entre os personagens, que conseguem, com o auxílio, de uma pessoa que se dispõe a ouvir com interesse, compreender melhor seus dilemas e conhecer a si mesmos. Alguns desses diálogos tornam o livro extremamente valioso e compensam os trechos que citei antes. Como não me lembrava da forma que a história acabava, posso dizer que não esperava pelo fim que teve. Entretanto, acho que foi o mais adequado para as pessoas que os personagens deste livro se tornaram. E posso dizer que quando terminei, já estava com saudade de tantas figuras incríveis que povoaram minha imaginação durante este ano enquanto eu relia essa saga.
Esse livro é a maior enrolação que eu já li na minha vida.
Um bando de gente chata fazendo chatices interlaçadas por fatos históricos, cenas de violência, misoginia e racismo. Eu sei que essa série começou na década de 40 e terminou na década de 60, mas eu ainda posso ter ranço desses fatos, ok? Ok.
Essa saga é aquele básico caso de ótimo primeiro livro, médio livro do meio e péssimo livro final.
Quanto menos protagonismo as mulheres têm na história, pior ela fica. De todos os homens da saga, só o Pedro Terra (e talvez o pai dele) se salva. O resto ou é totalmente sem noção (Capitão Rodrigo) ou inútil (Licurgo e Floriano) ou chatíssimo (Doutor Rodrigo).
Ana Terra, Pedro Terra e Maria Valéria Terra (e Silvia, um pouco) são os melhores personagens (conseguem perceber o ponto em comum, i.e., ausência de sangue Cambará??? pois é).
A parte ruim dos Cambará não é nem eles serem pessoas horríveis. Pessoas horríveis que são bem escritas fazem ótimos personagens. O problema é que eles são pessoas horríveis, mas ficam fingindo que não são.
Sobre a parte histórica: na maioria das vezes, os fatos históricos e políticos são muito bem contados e explorados pelo autor. Como a maior parte desses fatos é contada pelos personagens (e quase sempre em um diálogo ou discussão entre personagens de mentalidade diferente), não tem uma tendência a qualquer dos lados. A única exceção é em “Noite de ano bom” porque parece mais um manual de história do 8° ano, sem condições.
O Rodrigo defendendo o integralismo foi honestamente nojento. Fascistinha idiota que defende a família e a religião, mas vive fazendo coisas erradas por aí. Ele é tão defensor da família que só nesse volume ele teve umas 6 amantes diferentes e não pisou em uma missa sequer. Típico retrato de metade da população brasileira, eu sei, mas me deu ódio de qualquer forma.
Conclusão sobre a saga como um todo: a parte 1 (O continente) é a única que eu posso dizer com toda a certeza que vale a pena. O retrato (parte 2) é um looping do Licurgo sendo apático e do Rodrigo indo pra lá e pra cá conversando com alguém ou traindo a esposa → bem mediano. O arquipélago (parte 3) é o mais histórico, então eu acho que vale a pena se essa for a parte que é do interesse (se não, esse livro é uma grande enrolação, com Floriano sendo um inútil no presente e o Rodrigo sendo um predador no passado).
Avisos de conteúdo: violência física, violência sexual (principalmente por parte do Dr. Rodrigo que adora atacar sexualmente todas as meninas que vê pela frente, inclusive as filhas dos próprios amigos, e as mulheres também), misoginia (presente em todos os livros, mas no 3° é em um grau elevadíssimo), racismo (o racismo contra indígenas volta na última parte em várias vezes e o racismo contra pessoas pretas é muito presente. Devo ressaltar que em mais da metade dos casos, o racista é desafiado por outro personagem, principalmente pelo Floriano), xenofobia (esse livro trata do integr*lismo, então o n*zismo também é muito mencionado, pois estamos no sul né mores), homofobia (tem uma cena com uma fala super pesada no final do Arquipélago do Rodrigo como se fosse piada. horrível demais).
Escrever O Arquipélago custou a Erico Verissimo seu primeiro infarto, em 1961. E é compreensível. O livro fecha 200 anos de saga de O Tempo e o Vento com uma tarefa nada fácil: retratar a transformação do país entre a República Velha e o Brasil do fim do Estado Novo.
Apesar da dificuldade, Verissimo completou sua missão com maestria. O Tempo e o Vento é, ao mesmo tempo, a história do Brasil, do Rio Grande do Sul e de uma família. Em Santa Fé, é por meio de personagens muito bem construídos que vemos as maravilhas e as misérias do nosso país.
O Arquipélago narra a transformação de Dr. Rodrigo Cambará, de idealista a um homem que contradiz seus princípios para defender a ditadura de seu amigo Getúlio Vargas. É claro que algumas coisas não mudam e os defeitos do Rodrigo de O Retrato persistem, mas agora causam sofrimento também aos filhos. E em especial, a Floriano.
O filho mais velho dos Terra Cambará é desconectado com a sua terra, não desenvolve seu talento literário por completo e nutre uma relação difícil com o pai, o homem que, ao mesmo tempo, admira e despreza. E perceber quanto de Erico há em Floriano faz do romance ainda mais pessoal. Até uma conversa sobre como a saga surgiu aparece nas conversas entre o primogênito de Rodrigo e o Tio Bicho (personagem incrível, inclusive!).
Na introdução desta edição, Luiz Ruffato diz que O Tempo e o Vento é o romance da reconciliação por excelência: do autor com suas raízes, seu país, consigo mesmo e com a crítica. Na terceira parte, Veríssimo consegue tratar no ponto certo de temas amplos como liberdade, solidão e fé. Esse último, aliás, faz de “Diário de Sílvia” um dos melhores capítulos de toda saga.
Diante de uma obra tão monumental desde a primeira parte, Verissimo consegue dar no desfecho de Floriano o final que a saga merecia. E talvez seja por isto que O Tempo e o Vento seja tão apaixonante: todos temos um pouco da resignação dos Terra Quadros e um pouco do ímpeto incontrolável dos Cambará.
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"Os grandes arranha-céus têm a capacidade de oscilar com o vento... Sabias? Pois é. Se não oscilassem, no viriam abaixo. Assim é a fé. Uma fé dura e inflexível pode transformar-se em fanatismo ou então quebrar-se. A fé que se verga como um junco quando passam as ventanias, essa resiste intata. Portanto, não te preocupes. Continua a duvidar. Deus está acostumado a essas nossas fraquezas". (p. 858)
"Ora, um dia vais compreender que essa separação entre nós e os outros não é tão nítida como parece. Não descobriste ainda que para os outros nós somos os outros?" (p. 900).
"É um perigo a gente pensar que liberdade é sinônimo de solidão." (p. 901)
“Nunca te esqueças do que vou te dizer agora. Vocês literatos escrevem romances, poesias e ensaios. Os filósofos interpretam a vida e o mundo. Os cientistas e os técnicos inventam ou descobrem coisas e procuram domar a natureza, pondo-a a serviço do homem. Mas para fazer uma civilização não bastam os literatos, os filósofos, os santos, os profetas, os cientistas e os técnicos. É preciso também homens de ação e paixão como o teu trisavô, o capitão Rodrigo, e como o teu tio Toríbio, homens que não têm medo de sujar as mãos de barro, nem mesmo de sangue, quando necessário. Sem esse tipo de gente, a roda da história não anda…” (p. 913)
"Estou convencido de que os mortos não têm nada a ver com a morte. A morte é assunto exclusivo dos vivos" (p. 934)
Ao terminar "O Retrato" eu me questionava quanto de história ainda haveria a ser trabalhado em quase mil páginas que tratariam de apenas uma geração da família Terra-Cambará. No fim das contas, talvez este tenha se tornado o meu livro favorito da saga.
"O Arquipélago", por várias razões, reflete muito da maturidade do Érico como escritor. Além de algumas experiências da vida do autor terem influenciado o livro - o que sabemos pela cronologia e textos de apoio desta edição - boa parte da trama nos é apresentada pela perspectiva de Floriano Cambará, também um escritor.
E a partir dele, de Roque Bandeira, Irmão Toríbio e Sílvia, surgem algumas das principais reflexões da história. Já mais próximo do fim do que do começo da vida e tendo enfrentado um infarto, Érico parece usar dos personagens, em especial dos citados, para refletir sobre a finitude da existência, a liberdade, as paixões que nos movem, a política nacional - no auge do getulismo e, em paralelo, ascenção do Partido Comunista -, a presença (e o silêncio) de Deus e até mesmo acerca da personalidade de outros personagens que passaram pela trama ao longo dos três volumes que compõem a saga.
"O Tempo e o Vento" como um todo é um trabalho magistral, "O Arquipélago" é o cume da montanha. Acho que vou sentir saudades desses personagens.
A saga de “O Tempo e o Vento” foi a minha companhia na metade de 2018. Érico Veríssimo é um autor fantástico e esse épico traz todos os elementos das grandes obras. Em “O Arquipélago”, os acontecimentos estão mais próximos e mais registrados na história, mas ainda assim a literatura tem sua força. O personagem auto-biográfico é a combinação perfeita do intelectual neutro e observador e o ser que sofre quieto, que engole a sua humanidade pelo medo. Pelo medo de ser como o pai, pelo medo de não ser homem, pelo medo de não ser. Os diálogos (e discussões) entre Rodrigo Terra Cambará, Terêncio, Tio Bicho, Eduardo, Floriano e Irmão Zeca são verdadeiras aulas de história do Brasil e das diferentes ideologias que formam o país. De certa forma, ele desnuda os diferentes argumentos para o autoritarismo e oligarquia que imperam na nossa história. Ao mesmo tempo, que esse positivismo está lá engrenhado, as amarras vão se quebrando. Em certo momento, alguém lembra que Tia Maria Valéria fala que o tempo é como um barco a vela, quando o vento está a favor, o dia passa rápido. Quando o vento está contra, o dia passa devagar. É justamente essa sensação que essa obra me passa. Às vezes, vai devagar, às vezes, vai rápido. Mas a certeza é de que o tempo passa e o vento sempre traz mudanças.
The third and final novel in the trilogy “O tempo e o vento” narrates the return of Rodrigo Cambará to Santa Fé after spending many years in Rio de Janeiro alongside the then president Getúlio Vargas, his friend and ally. Thus, the power of the Terra Cambará family, which was only local, acquires a national scope in “O Arquipélago”. After the end of the Estado Novo, Rodrigo is defeated politically and also sick.
Fim dessa trilogia maravilhosa, que vai deixar muitas saudades. Não é o melhor livro da trilogia, mas não consigo apontar nenhum defeito significativo pra tirar ponto dele. Tivemos novos personagens aqui, como Floriano e Silvia, além dos antigos como Rodrigo, que continua sendo cheio de contradições. Assim como os outros volumes, ele aborda pontos importantes da história brasileira, tem personagens marcantes, crítica social e humor. Um ótimo final para essa saga.