É a segunda história que leio, depois de "O Gerânio", de Flannery O'Connor, uma das mais referenciadas escritoras de contos dos EUA. E, pela segunda vez, chego ao final sem me identificar com o brilhantismo que se lhe aponta. Reconheço as competências na atenção ao detalhe, no suporte aos personagens e sua evolução, mas aquilo que assume ser a razão da escrita da história não me diz nada.
Concedo que, como diz Flannery O'Connor numa análise feita ao seu próprio conto, a história funciona melhor numa segunda leitura, porque o suspense desaparece, e podemos concentrar-nos em todos os pequenos detalhes, tornando-nos muito mais conscientes da técnica e focados no que se vai efetivamente dizendo. Contudo, o núcleo das ideias continua a não falar comigo.
O conto foca-se numa família com a qual vive a avó, mãe do pai de família. Estes decidem fazer uma viagem, mas descobrem que um criminoso fugiu da cadeia, pelo que a avó tenta mudar o rumo da viagem sem sucesso. Contudo, a meio do percurso, acaba conseguindo essa mudança, e por essa mesma razão acabam encontrando o criminoso, e a sua enorme violência.
Esta estrutura de eventos só ganha sentido para os leitores se contextualizada por uma visão cristã da realidade. A força do confronto ilustrado, pelas palavras e gestos da avó e a reação do criminoso, depende de acreditarmos numa condição humana balizada pela Redenção. Pelo que sem essa, nos quedamos a olhar para uma cena mecânica, expectável e totalmente desprovida de significado.
Podíamos tentar interpretar o conteúdo como uma visão crítica, mas não podemos porque a autora foi uma devota cristã, pelo que aqui temos faz parte da crença nessa realidade. Isto levanta outra questão muito debatida sobre a autora, que é o constante surgimento de quadros racistas nas suas histórias, que acreditando poderem servir a caracterização dos personagens, do Sul dos EUA, chocam pela sua constante presença.