Personagens se acotovelam desesperados na esperança de receber um pouco de atenção e ser foco de um causo
Cerca de 40 personagens se acotovelam nesse fininho volume pela chance de ter sua história revelada para o leitor. O narrador vai nos empurrando os causos. Uma testemunhou um assassinato, outro foi vítima, um terceiro o assassino. Voltamos alguns dias no tempo pra ficarmos sabendo de uma tal Maria e o que aconteceu numa noite em sua rede com uma outra mulher, Carangueja, que mora com outras duas e pratica necromancia. Sabemos desse episódio pela confissão que ela faz ao frei Zezinho, porém falávamos de um assassinato, falemos um pouco de Leonor que fora a testemunha, mas não sem antes mencionar en passant uma porção de ciganos e a corrida do ouro que desfez algumas famílias e criou algumas questões para quem ficou no Rio, sem esquecer também um ou dois casamentos e de algumas tradições de pureza, mas pulemos disso para falar de Ramiro, casado seis ou sete vezes e as esposas, todas mortas, coitadas, mas isso fica pra depois, falemos de Silvério que acaba de se mudar para a rua e vem muito elegante e todos gostam dele exceto Piolho, este também mora por ali, temos também uma biblioteca com livros raríssimos e alguns secretos, temos na verdade várias bibliotecas, mas do que estávamos falando mesmo? Ah sim, todos esses causos são muito importantes pois lidam com questões fundamentais da condição humana, são causos matéria prima das grandes histórias das mitologias dos povos, exceto que tudo sempre lida com questões fundamentais da condição humana de alguma maneira.
Uma explosão de nomes ocupa cada página e fui tropeçando por cima e por baixo de todo esse povo cheio de problemas e incidentes e segredos da rua do Egito, enquanto eles se acotovelam por todos os lados, o narrador vai me puxando pelo braço sem que eu, leitor, tenha a chance de olhar bem para a cara de nenhum deles, me puxa e sempre sorridente vai me falando de uma porção de coisas, coisas fundamentais da condição humana, coisas da cidade, de fantasmas e mortos e encantados. Tudo sem termos tempo de parar um único segundo. E a coisa começa, anda e termina assim. Uma barafunda de coisas que até que parecem ser bem importantes e que com certeza abordam temas importantes, temas importantíssimos, me garante o narrador. Já eu mesmo tive bem pouca chance de concluir qualquer coisa, o narrador sorri mas sua missão é a de impor. Nunca temos um único momento a sós com nenhuma das situações ou com os personagens, não dá tempo de sentirmos coisa alguma por ninguém, o narrador que já sabe de tudo e já se apossou de todas as coisas, vem arrastando todos os moradores da rua do Egito por coleiras e nos dita aquilo que devemos saber.
O sentimento que fica é daquele quando somos convidados por um colega para um evento onde ele conhece todo mundo e você ninguém. Ele vai te puxando, apresentando todo mundo em grande velocidade, contando as faltas e virtudes de todos os presentes, mas você mesmo nunca tem a chance de falar com nenhum deles. O jeito é acatar o que seu colega está dizendo.
Dou três estrelas porque sinto que aqui tem histórias muito boas se tivéssemos a sorte de ter alguém com a paciência necessária para contá-las e deixasse que as próprias figuras nos revelassem sem pressa o que ela possam significar, se é que significam alguma coisa.