Mais um livro extraordinário de Afonso Cruz, que nos deixa sem palavras, ao mesmo tempo que nos enche de palavras, frases, texto que têm o dom de transmitir clarividência. Este livro faz-nos reflectir sobre a construção da identidade pessoal, sobretudo em duas grandes linhas - o papel da(s) memória(s), e o papel dos hábitos e das rotinas. O psicólogo William James dizia que a partir do momento em que as nossas vidas tomam forma definida não passam de uma amálgama de hábitos. Os hábitos e as rotinas estruturam-nos, dão-nos segurança, tecem o tecido vital estável que nos permite seguir um rumo, desbravar um caminho. Mas há sempre o outro lado da moeda - fecham-nos, prendem-nos a esse caminho, moldam a nossa mente, os nossos gostos, os nossos gestos, escolhem por nós, limitam o campo da nossa visão, roubam-nos a curiosidade, a novidade, a liberdade de enveredar por outras vielas. Porque vivemos demasiadamente perto de cada gesto, repetido, de forma igual vezes sem conta, porque vivemos presos às urgências ditadas pelas rotinas, não nos conseguimos afastar e ver o quadro completo da nossa vida. Se o fizéssemos, talvez nos interrogássemos mais vezes se isso é viver.
Nas palavras de Afonso Cruz: "Tenho a certeza de que a vida morre com a rotina e não com a morte, e que o hábito nos petrifica, um dia olhamo-nos ao espelho e estamos transformados em estátuas (...) queremos o conforto da banalidade daquilo que conhecemos, sentarmo-nos num restaurante e pedir sempre o mesmo bitoque, olhar para a corrupção quotidiana como quem olha uma montra de um pronto-a-vestir, fazer sempre as mesmas maldades, dobrar as camisolas da mesma maneira, votar nos mesmos criminosos, saber que as meias estão na gaveta certa, ignorar a miséria (...)
(...) a rotina embacia-nos, torna-nos indefinidos, desfocados, fantasmas, máquinas, ao mesmo tempo que nos solidifica em estátuas de sal. A consciência da morte é o que nos desperta dessa morte em que vivemos, que nos diz o que deveríamos ter feito, o que deixámos de fazer, a morte é um despertador, um despertador que nos acorda para a inevitabilidade dos nossos erros. (...) A solução seria termos todos uma caveira na mesinha de cabeceira (...) para nos servir de despertador e todos os dias sabermos que temos de acordar, não para viver a rotina fatal do quotidiano, mas para a vida apaixonada de alguém que ainda sabe que existem nuvens, céus e beijos.
É preciso tomarmos uma gota de cianeto todos os dias para não morrermos envenenados, lembrarmo-nos da morte para sabermos o que fazer (...).
Porque viver não tem nada a ver com isso que as pessoas fazem todos os dias, viver é precisamente o oposto, é aquilo que não fazemos todos os dias." (Flores, pág. 73-75)