« - Conta-me um conto - digo-te.
- Como queres que ele seja?
- Conta-me um conto que nunca contasses a ninguém.»
Confesso que estes contos deram luta. Deram, aliás, muita luta, sobretudo por se tratar da primeira obra de Allende que me vem parar em mãos - e logo uma que requer algum conhecimento prévio do seu trabalho. Quando percebi isto, resolvi continuar a leitura e, chegando ao fim, partir numa pequenina pesquisa para alinhavar as pontas soltas. Essa pesquisa acabou por revelar que não se perde grande coisa em partir às cegas para este livro. Sim, há alguma ligação mais facilmente apreensível pelos leitores acostumados à sua obra, mas mesmo que não saibamos quem Rolf Carlé, o amante da Eva Luna, é, nem por isso gozamos menos a sua arte de narrar. Até porque, no final, ficará bem claro que Eva, Rolfe, Belisa, Açucena, Casilda e muitas outras personagens são apenas um desdobramento de uma narradora tão múltipla como as histórias que conta.
«Belisa Crepusculario salvou a vida e, além disso, descobriu a escrita por acaso. Ao chegar a uma aldeia nas proximidades da costa, o vento pôs-lhe aos pés a folha de um jornal.(...). Nesse dia(...) soube que as palavras andam soltas, sem dono, e que qualquer um com um pouco de manha pode agarrá-las para as vender. Considerou a sua situação e concluiu que para além de se prostituir ou empregar-se como criada nas cozinhas dos ricos, poucas eram as ocupações que podia desempenhar. Vender palavras pareceu-lhe uma alternativa decente.»
E apesar de alguns finais abruptos, muitos destes contos são francamente belos, tratando amor, paixão, obsessão, morte, perda, vingança... A escrita de Allende é visceral e crua, e representa, neste livro, uma espécie processo de análise da criação literária. Eva Luna, como Isabel Allende, como Xehrazade é uma contadora de histórias (de mulheres). E, de certa forma, fica implícito, é através delas que também Eva salva a sua vida - é, através de um intricado de forças abusivas, fraquezas imperdoáveis, justiças e injustiças perpetradas por personagens amantes, assassinos, violentados ou celerados que ela cronica, que Eva se expurga. E com ela, Allende.
Ainda assim, algumas destas personagens femininas, apesar de maioritariamente castiças, livres, fortes, inteligentes ou criativas, deixaram-me incomodada. Muitas usam da sua criatividade, do seu corpo, da sua sensualidade, do seu espírito, de todos os atributos possíveis para vingar, mas a verdade é que, no final, muitas destas mulheres acabam por se perder, em vez de se salvar, precisamente pelo uso das suas capacidades: acabam mortas, estropiadas, abandonadas, ou subjugadas - são mártires pela força do seu valor e não vencedoras.
Essa constatação entristece-me porque sou grande admiradora da fabulação que nos é legada por Xehrazade e aqui continuada por Eva Luna.
Por isso mesmo, entre muitas quatro e cinco estrelas, lá surgem umas apreciações menos simpáticas da minha parte - Allende, não tendo obrigação de agradar a ninguém, seguiu a fórmula que bem entendeu, e fez com isso muito bem.
Contos de Eva Luna é pois um longo desfiar de rituais linguísticos, onde, como os antigos, a narradora acredita no efetivo poder das palavras e, como numa ladainha, as tece para delas retirar a força vital. E nesse aspecto é brilhante.
«Há histórias de toda a espécie. Algumas nascem ao ser contadas, a sua substância é a linguagem e antes que alguém as ponha em palavras são apenas uma emoção, um capricho da mente, uma imagem ou uma reminiscência intangível. Outras chegam completas, como maçãs, e podem repetir-se até ao infinito sem risco de alterar o seu sentido. Existem umas que são tomadas pela realidade e processadas pela inspiração, enquanto outras nascem de um instante de inspiração e se transformam em realidade ao ser contadas. E há histórias secretas que permanecem ocultas nas sombras da memória, são como organismos vivos, nascem-lhes raízes, tentáculos, enchem-se de aderências e parasitas e com o tempo transformam-se em matéria de pesadelos. Por vezes para exorcizar os demónios de uma recordação é necessário contá-la como um conto.»
Duas palavras
⭐⭐⭐⭐
Menina perversa
⭐⭐⭐⭐⭐
Clarisa
⭐⭐⭐⭐⭐
Boca de sapo
⭐⭐⭐⭐⭐
O ouro de Tomás Vargas
⭐⭐⭐
Se me tocasses o coração
⭐⭐⭐
Presente para uma noiva
⭐⭐⭐
Tosca
⭐⭐⭐
Walimai
⭐⭐⭐⭐⭐
Ester Lucero
⭐⭐⭐⭐⭐
Maria, a tonta
⭐⭐⭐⭐
O mais esquecido do esquecimento
⭐⭐⭐
O pequeno Heidelberg
⭐⭐
A mulher do juiz
⭐⭐⭐⭐⭐
Um caminho para o norte
⭐⭐⭐⭐
O hóspede da professora
⭐⭐⭐
Com o devido respeito
⭐⭐⭐
Vida interminável
⭐⭐⭐⭐⭐
Um milagre discreto
⭐⭐⭐⭐
Uma vingança
⭐⭐
Cartas de amor atraiçoado
⭐⭐⭐⭐⭐
O palácio imaginado
⭐⭐⭐
Somos feitos de barro
⭐⭐⭐⭐⭐
«Deve ter-se muito cuidado com os nomes das pessoas e dos seres vivos, porque ao pronunciá-los toca-se o seu coração e estamos dentro da sua força vital. Assim nos saudamos como parentes de sangue.»