2.5 ⭐️
A obra “Rebecca”, de Daphne du Maurier (o meu livro favorito da vida!) esteve envolta em polémica de ter sido alegadamente plagiada a partir de “A sucessora”, de Carolina Nabuco, o que despertou desde logo o meu interesse para a sua leitura.
Uma vez que o meu interesse para a leitura de “A sucessora”‘advém da polémica gerada com “Rebecca”, é inevitável não comparar as duas obras. A ideia base é semelhante: um viúvo rico contrai segundo matrimónio com uma rapariga bastante mais jovem que ele que, ao mudar-se para a sua casa, tem de viver na sombra da primeira mulher. No entanto, as semelhanças terminam aqui. As personagens e a atmosfera dos dois livros são bastante diferentes, não só por se passarem em locais diferentes (com “A sucessora” a ter lugar no Brasil e “Rebecca” a ter Inglaterra como pano de fundo), mas também pela própria linha narrativa.
“Rebecca” traz-nos o melhor do romance gótico, com uma atmosfera misteriosa construída desde o início, à qual se alia a casa - Manderley - como personagem da obra. A narradora, nova mulher de Maxim de Winter, é jovem, inexperiente e sem família. Está completamente dependente do marido e do amor que este lhe devota. A presença de Rebecca é sentida em cada página e os receios da narradora bastante válidos. A atitude de Maxim altera-se, conforme esteja longe de casa ou próximo desta, o que faz todo o sentido dado o final. A narrativa encaminha-se para um clímax que conduz a um final espantoso e imprevisível. Já em “A sucessora”, Marina é uma jovem que opta por casar com Roberto quando tinha outras opções à sua disposição. Em face de problemas, tem sempre a casa da mãe em que se refugiar, tem um círculo íntimo que a rodeia independente do casamento, não é uma mulher sozinha a enfrentar o mundo. A presença de Alice não é tão notória na narrativa, apenas na forma de um quadro um pouco a lembrar “O retrato de Dorian Gray”. O fio condutor não é claro nem se foca somente na comparação das duas mulheres. O livro tem alguns episódios mais separados da narrativa principal (como seja o romance de Marina e Miguel), que tiram o foco ao que deveria ser o fio condutor, fazendo perder o interesse do leitor. Arrisco-me a dizer que, fora a impressão de Marina de ser comparada com Alice, na realidade essa comparação não existe.
Entre os dois livros, “Rebecca” é, sem sombra de dúvidas, uma narrativa superior: mais misteriosa e encaminhada para o final imprevisível, por comparação com “A sucessora”, com menos foco, é mais um conjunto de acontecimentos, alguns com pouca ligação entre eles.