O mito de Fausto parece ser central na obra de Bruno Ribeiro. Se, em "Febre de Enxofre", temos o poeta e dj Manuel di Paula aliciando o colega Yuri Quirino a segui-lo até a Argentina, a fim de escrever sua biografia, em "Glitter", temos o artista performático Guilherme Boaventura, idealizador do La Poésie Vivant, cooptando um séquito de modelos, produtores e estagiários em sua obra suicida: um misto de desfile de moda, sarau e reality show no qual as participantes, confinadas num shopping center fechado especialmente para a ocasião, desfilam numa passarela perante o público, declamam seus poemas e se autoflagelam num autêntico banho de sangue. Boaventura é esta figura a princípio ausente, que paira no depoimento de três sujeitos de sua loucura: Viddi, seu braço direito, um produtor egocêntrico e mau caráter; Eva, uma ubermodel, figura influente no círculo de modelos de La Poésie Vivant; e Lana, o estereótipo da modelo de carreira, vinda do interior, com grandes aspirações, confrontada pela nem um pouco glamourosa indústria do glamour. Nesta espiral verborrágica, Bruno se alterna entre a crítica ao status quo da moda (há frases emblemáticas: "A moda é um cadáver que ri", "A morte não é a melhor metáfora da eternidade?") e à própria sociedade do espetáculo, na qual ser não é mais ter: é mostrar, e sobretudo aparecer - e ele não nos poupa de toda a horripilância e escatologia que há por trás dessa capa reluzente de maquiagem e de flashes. Ocorre que, em certo momento, esta crítica acaba ficando um tanto repisada, e a apoteose do La Poésie Vivant, que poderia funcionar como o grande clímax, o ponto alto deste espetáculo que vemos ser construído a partir das lembranças do produtor e das modelos, acaba perdendo sua força - já que a performance é dada logo no início, e os desdobramentos acabam ficando a cargo do "segredo" de Eva e das histórias de personagens incidentais que são introduzidas a partir dos poemas (que têm a dupla função de apresentar as outras modelos e atuar como um "respiro" em meio às divagações alucinadas de Viddi, Eva e Lana).