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A Chuva Imóvel
Para Carlos Heitor Cony, que assina as orelhas, "A chuva imóvel marca o melhor momento da obra de seu autor. E mais: é um livro que honra toda a literatura brasileira. O protesto de Campos de Carvalho contra as bombas nucleares, as partículas de estrôncio, o esfacelamento de placentas gêmeas, a morte, os cheiros, os miasmas - tudo a compor, pesada sobre cabeças ocas, a chuva imóvel do nosso tempo - é muito mais que um simples testemunho: é uma confissão. Esta chuva imóvel serei eu que estarei cuspindo. Essa não é apenas a última frase de seu romance. É o primeiro grito de revolta de todo um tempo, de todo um homem. E esse homem não é apenas Campos de Carvalho. Somos todos nós."
128 pages, Hardcover
First published January 1, 1963
About the author
Campos de Carvalho
12 books20 followersWalter Campos de Carvalho (Uberaba, 1º de novembro de 1916 — São Paulo, 10 de abril de 1998), foi um escritor cujos trabalhos são singulares na literatura brasileira. Em 1938 formou-se em direito, tendo se aposentado como procurador do estado de São Paulo, onde viveu em companhia da esposa Lygia Rosa de Carvalho.
Sua vida sempre esteve ligada à literatura, tendo publicado inicialmente Banda forra (ensaios humorísticos), em 1941, e Tribo (romance), em 1954. Mais tarde, escreveu os romances A Lua vem da Ásia (1956), Vaca de Nariz Sutil (1961), A Chuva Imóvel (1963) e O Púcaro Búlgaro (1964), hoje considerados verdadeiros marcos da literatura brasileira. A Lua vem da Ásia e A Chuva Imóvel chegaram a ser traduzidos para o francês.
Campos de Carvalho, como ficou conhecido no meio literário, também colaborou com O Pasquim e trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo, no período de 1968 a 1978.
Sua vida sempre esteve ligada à literatura, tendo publicado inicialmente Banda forra (ensaios humorísticos), em 1941, e Tribo (romance), em 1954. Mais tarde, escreveu os romances A Lua vem da Ásia (1956), Vaca de Nariz Sutil (1961), A Chuva Imóvel (1963) e O Púcaro Búlgaro (1964), hoje considerados verdadeiros marcos da literatura brasileira. A Lua vem da Ásia e A Chuva Imóvel chegaram a ser traduzidos para o francês.
Campos de Carvalho, como ficou conhecido no meio literário, também colaborou com O Pasquim e trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo, no período de 1968 a 1978.
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August 9, 2025“Sentia-me tão lúcido que nem um instante me ocorreu a hipótese de estar sonhando, dormindo, ou mesmo morto”.
Talvez o mais fragmentário dos textos tão fragmentários do super fragmentário Campos de Carvalho.
Estou lendo os livros do autor em ordem. E, exatamente por isso — por atentar explícito e fragmentário contra qualquer resquício de ordem, por clamar o assassinato peremptório dos professores de lógica — noto uma paradoxal continuidade lancinante. Um narrador que é muitas coisas e, por isso, não é nada.
“Não sou o que sou neste instante, mas um só desde que nasci: múltiplo, múltiplo, múltiplo. Cada fio do meu cabelo é uma verdade diferente, e todos me pertencem: respiro por todos os poros, cada um por sua vez, e só assim não morro de asfixia. O que pode pensar um lógico através dos seus poros é que eu não sei.”
A melancolia, que existia no primeiro livro e dava o tom do segundo, ergue-se no terceiro ao status de caricatura e termina por converter-se em revolta ainda mais explícita. O narrador se revolta contra a desgraça, o homicídio e o inverno nuclear. Mais que isso, revolta-se contra o homem, em tudo que isso signifique de civilizado e de seu oposto.
“Assim como está é que não é possível: hoje foi o latim como poderia ter sido o grego ou o sânscrito, amanhã será a trigonometria ou a guerra do Peloponeso, o Manual de Civilidade ou a Bíblia: e o pior é que não me levam a sério e ainda me repreendem. Estas fôlhas de papel em branco, a obrigação de datá-las em cima e à direita, Prezado Senhor, e isso e mais aquilo, e as vírgulas tôdas no lugar, os dedos batendo um allegro de Mozart e as palavras brotando indecorosas do outro lado: não há fígado que resista e muito menos útero”.
No seu ímpeto anarquista e amoral, a revolta é sombria, concreta e metafísica. Nada tolera-se. Tudo condena-se. E tudo termina condenado.
“Espero pelo pior, mas já a esta altura o pior será apenas mais um motivo para eu lhes lançar meu testemunho no rosto, o meu testemunho e o meu cuspo, e não apenas em meu nome mas no de todos, desde que o homem foi inventado e com êle o câncer e a bomba atômica, a cadeira elétrica ou o amor não correspondido. (…) Mesmo morto continuarei dando meu testemunho de morto. Esta chuva imóvel serei eu que estarei cuspindo.”
Talvez o mais fragmentário dos textos tão fragmentários do super fragmentário Campos de Carvalho.
Estou lendo os livros do autor em ordem. E, exatamente por isso — por atentar explícito e fragmentário contra qualquer resquício de ordem, por clamar o assassinato peremptório dos professores de lógica — noto uma paradoxal continuidade lancinante. Um narrador que é muitas coisas e, por isso, não é nada.
“Não sou o que sou neste instante, mas um só desde que nasci: múltiplo, múltiplo, múltiplo. Cada fio do meu cabelo é uma verdade diferente, e todos me pertencem: respiro por todos os poros, cada um por sua vez, e só assim não morro de asfixia. O que pode pensar um lógico através dos seus poros é que eu não sei.”
A melancolia, que existia no primeiro livro e dava o tom do segundo, ergue-se no terceiro ao status de caricatura e termina por converter-se em revolta ainda mais explícita. O narrador se revolta contra a desgraça, o homicídio e o inverno nuclear. Mais que isso, revolta-se contra o homem, em tudo que isso signifique de civilizado e de seu oposto.
“Assim como está é que não é possível: hoje foi o latim como poderia ter sido o grego ou o sânscrito, amanhã será a trigonometria ou a guerra do Peloponeso, o Manual de Civilidade ou a Bíblia: e o pior é que não me levam a sério e ainda me repreendem. Estas fôlhas de papel em branco, a obrigação de datá-las em cima e à direita, Prezado Senhor, e isso e mais aquilo, e as vírgulas tôdas no lugar, os dedos batendo um allegro de Mozart e as palavras brotando indecorosas do outro lado: não há fígado que resista e muito menos útero”.
No seu ímpeto anarquista e amoral, a revolta é sombria, concreta e metafísica. Nada tolera-se. Tudo condena-se. E tudo termina condenado.
“Espero pelo pior, mas já a esta altura o pior será apenas mais um motivo para eu lhes lançar meu testemunho no rosto, o meu testemunho e o meu cuspo, e não apenas em meu nome mas no de todos, desde que o homem foi inventado e com êle o câncer e a bomba atômica, a cadeira elétrica ou o amor não correspondido. (…) Mesmo morto continuarei dando meu testemunho de morto. Esta chuva imóvel serei eu que estarei cuspindo.”
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