O que Russel perdeu de vista no seu texto sobre a "ética" de Nietzsche? Simplesmente a base de sua filosofia:
a afirmação da vida e o combate à não-vida (ao niilismo).
Nietzsche mira suas armas contra todo tipo de niilismo (culto ao nada — às coisas que não existem), justamente porque faz uma afirmação da vida como ela é.
Por que Nietzsche vai fazer o elogio do aristocrata, do conquistador? Por que é cruel? Não. É simplesmente porque o aristocrata (o melhor) é o arquétipo do forte, do belo, do bom (excelente) — daquele que se expande (aumenta sua Vontade de Potência) no mundo da vida, cujos valores seriam afirmadores dela.
Daí, ele identifica o contrário: o conquistado, arquétipo do fraco, do feio, do ruim. — daquele que se esgota no mundo da vida (diminui sua Vontade de Potência), cujos valores seriam os negadores da vida.
Nietzsche está para Além de Bem e Mal — ele não submete a vida à moral; ele opera aqui sua reviravolta: ele submete a moral à vida.
Nesse sentido, Nietzsche não poderia concordar com o Buda do Russel, simplesmente porque este nega a vida, na medida em que nega o sofrimento.
Não existe vida sem sofrimento (nem para o forte nem para o fraco). A diferença é como esse sofrimento é experimentado pelos dois. O forte o afirma — passa por ele; o fraco deseja eliminá-lo a todo o custo, chegando ao ponto de criar um mundo imaginário onde esse sofrimento inerente à vida pudesse não existir, um não-mundo (uma negação do mundo — sintoma de esgotamento). Ou seja, alguns olham para a vida com tristeza (o filósofo que chora), outros olham para a vida com alegria (o filósofo que ri).
Outra coisa, o fato da filosofia de Nietzsche afirmar o sofrimento, reconhecendo que ele é inevitável, não faz dele um pessimista (filósofo que chora).
Quer porque ele faz uma "tresvaloração" do sofrimento — este pode ser bom—, quer porque ainda que possam existir coisas julgadas ruins, haverá sempre também as coisas boas — não há só miséria e tristeza. Portanto, é uma nova visão de mundo, mais complexa, menos dicotômica — propriamente a visão trágica de mundo.
Essa visão não pretende eliminar seus adversários, a visão niilista de mundo. Nietzsche não quer acabar com o cristianismo, com o budismo, com o kantismo — ele quer disputar com eles. O filósofo nos apresenta uma visão de mundo alternativa, comprometida com valores completamente positivos. Nietzsche é o sol: sempre lá, sempre brilhante, sempre positivo em sua máxima potência. Tudo o mais são nuvens passageiras.