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210 pages, Paperback

Published January 1, 2018

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Diogo Vaz Pinto

23 books8 followers

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Profile Image for Ricardo Gomes.
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April 25, 2022
Os poetas «iniciam a subversão e também a queda dos Titãs», escreveu Ernst Jünger, a subversão que impede «uma uniformização das imagens e uma decadência das imagens». Se nos faltam os poetas, se acabam os «grandes caçadores de imagens com as suas flechas desejosas da outra margem, nem bibliotecas estendidas como sombras a cavalo – cargas umas sobre as outras a conquistar território (…)» e em lugar deles «apenas moscas da fruta a perderem-se na memória», morre-nos a imaginação, perece o mundo por não termos palavras com que lhe afundar os significados - «os signos que não entendemos interpretam-nos melhor.»

Se à multidão de livros que chega os escaparates todos os meses tem faltado a coragem para fazer à mão, frase a frase, o mapeamento do estar vivo, num combate que obrigue o leitor a perder o pé, a bater de frente com «línguas impenetráveis que nos abrem, arrancam uma página, fixam as palavras perturbantes no meio de uma frase perdida de todo o sentido, e tiram o pulso a imagens de uma doçura que dá cabo dos dentes do leitor.» a este não falta obstinação para pontapear e esmurrar e esgadanhar o celofane do mundo até que as palavras se aproximem cada vez mais da revelação do lugar que nos calhou em sorte.

A prece de Herberto Helder, «Meu Deus, faz com que eu seja sempre um poeta obscuro» tem aqui consequência – a obscuridade não é uma concessão ao gratuito, antes pelo contrário, é justamente essa obstinação até às últimas consequências, uma guerra sem trégua ao lugar-comum, uma terraplanagem da linguagem, «às palavras (…) misturar o sangue de tal modo a que dessem outras. Aleijadas, loucas, para que perdesse – a língua -, delirante debaixo de sóis expulsos do mundo que vemos.» sem nunca lhes embotar a intenção, «não me interessa dizer coisas estranhas, mas sim, tenho apreço por uns tantos que quebram, vibram, desmontam o universo para tirar uma mola, um impulso para um verso.»

Se a poesia não há-de salvar porra nenhuma por si mesma, ao menos que nos erga do estupor em que vivemos com um pontapé nas canelas. Se «o que dói é o quanto, de certa perspectiva dá a sensação de que Deus chega ao fim”, então que tenhamos ao menos a coragem e o engenho de inquirir, «vendo o corpo Dele a ser destroçado», «para alimento de que flores?»
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