«A crise histórica dos sistemas liberais do Ocidente, aquela que vivemos, potenciada pela época neoliberal do capitalismo, parece tender para a emergência de um novo tipo de regimes “pós-democráticos”, autoritários, populistas e xenófobos. (…) Os paralelismos com a primeira grande crise dos sistemas liberais nos anos vinte do século passado e com o seu desfecho trágico na época dos fascismos e da guerra são, pois, incontornáveis, apesar das importantes diferenças de contexto histórico. (…) Permitam-me, por isso, a sugestão de que este livro possa também ser lido sob essa perspetiva» (do Prefácio do autor).
Este livro apresenta uma reflexão revista e aprofundada dos fatores que estiveram por detrás do sucesso da Primeira República e dos que contribuíram para a sua derrota em 1926. A crise de legitimidade da governação republicana, a rutura com o movimento operário e o seu refluxo, os efeitos desastrosos da intervenção na Grande Guerra são algumas das principais linhas de análise do historiador Fernando Rosas, num ensaio tão relevante para conhecermos o passado como para evitar repeti-lo.
FERNANDO ROSAS nasceu em Lisboa, a 18 de Abril de 1946. Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (1969), mestre em História dos séculos XIX e XX (1986) e doutorado em História Económica e Social Contemporânea pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (1990).
Foi, entre 1996 e 2016, professor catedrático de História Contemporânea. Em 2019 tornou-se o primeiro professor emérito da NOVA/FCSH, distinção pelo seu percurso académico ímpar. Na mesma faculdade, foi Presidente do Instituto de História Contemporânea (1995-2012). Entre 1988 e 1995, integrou o conselho de redacção da revista Penélope – Fazer e Desfazer a História. Entre 1994 e 2007, dirigiu a revista História.
Desenvolveu a sua investigação sobretudo em torno da História Contemporânea e da História de Portugal no século XX, com especial incidência no período do Estado Novo. Publicou variadíssimas obras como autor, dirigiu, coordenou e é co-autor de muitas outras na área da sua especialidade (história portuguesa e europeia do século XX), entre elas: As primeiras eleições legislativas sob o Estado Novo: as eleições de 16 de Dezembro de 1934 (1985); O Estado Novo nos Anos 30. Elementos para o Estudo da Natureza Económica e Social do Salazarismo (1928-1938), (1986); O salazarismo e a Aliança Luso-Britânica: estudos sobre a política externa do Estado Novo nos anos 30 a 40, (1988); Salazar e o Salazarismo (co-autor), (1989); Portugal Entre a Paz e a Guerra (1939/45), (1990); Portugal e o Estado Novo (1930/60), (co-autor), (1992); História de Portugal, vol. VII - O Estado Novo (1926/74), (1994); Dicionário de História do Estado Novo, (dir.), (1995); Portugal e a Guerra Civil de Espanha, (coord.), (1996); Armindo Monteiro e Oliveira Salazar : correspondência política, 1926-1955, (coord.), (1996); Salazarismo e Fomento Económico, (2000); Portugal Século XX : Pensamento e Acção Política, (2004); Lisboa Revolucionária, Roteiros dos Confrontos Armados no Século XX (2007); História da Primeira República Portuguesa, (co-coord.), (2010); Salazar e o Poder. A Arte de Saber Durar (2012); Estado Novo e Universidade. A perseguição aos Professores (coautor), (2013); O Adeus ao Império - 40 anos de descolonização portuguesa (org. et al.), (2015), História a História: África (2018), Salazar e os fascismos (2019), Ensaios de Abril (2023) e Direitas Velhas, Direitas Novas (2024).
Autor dos programas de televisão, História a História e História a História - África, produções Garden Films para a RTP.
Foi deputado à Assembleia da República (1999/2002; 2005/2011) e candidato à Presidência da República, em 2001, pelo Bloco de Esquerda, tendo obtido 3% dos votos. Em 2006 foi condecorado, pela Presidência da República, com a Comenda da Ordem da Liberdade e foi galardoado com a Medalha de Mérito do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (2017) e a Medalha de Honra da Sociedade Portuguesa de Autores (2018).
Este livro está escrito sob o signo da eloquência e do raciocínio circular. Dificilmente consegue esclarecer os fenómenos históricos vividos em Portugal, entre 1910 e 1926. Chega a ser confuso no exercício do autor para se pôr em bicos dos pés. Quando tiver oportunidade, voltarei a lê-lo. Talvez, então, consiga reter e perceber algo mais. Infelizmente comprei na mesma altura outro livro do mesmo autor. Entretanto, irei procurar ler outros historiadores menos preocupados com a expressão da sua grandiloquência, como Vasco Pulido Valente.
(PT) Um livro didático, educativo e elucidativo sobre este período da História de Portugal. Foram dezasseis anos curtos e intensos, bem explicados num pais em que, larga medida, se resumia a Lisboa.
Permite ter uma visão geral das origens da implantação da I República e posteriormente do seu fim. Em duas ou três situações pareci-me que o autor se contradiz nos argumentos que vai apresentando.
No total, acho que este é um bom pequeno tratado sobre a Primeira República, mas vou primeiro despachar os aspetos negativos. O autor repete-se com bastante frequência, chegando a repetir o mesmo ponto em dois parágrafos seguidos. Há também o problema de se assumir que o leitor já tem conhecimentos decorados sobre datas e eventos, o que complica a leitura, já que certos acontecimentos são explicados muito antes de serem devidamente apresentados. Isto teria sido resolvido com uma cronologia introdutória.
A primeira metade do livro não trata propriamente da República, mas sim da crise nos últimos anos da monarquia e das condições em Portugal (sobretudo em Lisboa) à época da revolução.
É na segunda metade do livro, onde o autor analisa as falhas e crises da Primeira República, que a obra realmente brilha. O autor apresenta cinco razões principais pelas quais a República fracassou, todas com grande poder explicativo:
1. A incapacidade da Primeira República de ultrapassar o cerco político em que se encontrava, o que manteve o republicanismo como um movimento minoritário. A tentativa de isolar a direita republicana governando em função dos seus interesses não trouxe os apoios esperados.
2. O fracasso em alargar o sufrágio e construir uma base social sólida. A República herdou o sistema de caciquismo do regime monárquico, ao ponto de organizar eleições ser praticamente uma pré-condição para as vencer.
3. Ter deixado que a questão da laicidade do Estado se transformasse numa “questão religiosa”. Ao contrário de outras áreas onde a República vacilou ou recuou, na laicidade foi firme. Mas a sua intervenção em matérias da esfera privada ou social (como cerimónias religiosas), aliada ao antirrepublicanismo virulento da Igreja Católica, deixou o vasto mundo rural — maioritariamente religioso — nas mãos dos senhores da terra e das igrejas. As medidas da República foram vistas como ataques à religião. Eventualmente, isso foi atenuado quando as relações com a Santa Sé foram reativadas.
4. A rutura com o movimento operário, outrora aliado da República e do Bloco de 5 de Outubro. A repressão por parte dos governos do PRP/PD contra os operários — com deportações para as colónias, assassinatos, violência e recusa de concessões — alienou grande parte deste bloco. A tal ponto que parte do movimento operário saudou o golpe sidonista e o regime militar por porem fim à República dos “bonzos”. As tentativas de pacificação, como dar brevemente a pasta do Trabalho ao Partido Socialista Português e, mais tarde, as iniciativas do governo “canhoto” do Partido Republicano da Esquerda Democrática, foram demasiado curtas e inaceitáveis para o centro republicano.
5. A entrada suicida na Grande Guerra, ostensivamente para afastar o possível risco de anexação por parte da Espanha neutral e pró-alemã, foi vista pelos republicanos como uma oportunidade para unificar o país em torno da causa — mas o resultado foi o contrário.
Quando chega o golpe militar que põe fim à República, esta já estava cansada e deslegitimada. O movimento operário estava enfraquecido pela repressão violenta, e a direita republicana e liberal já havia deixado de investir nas instituições da República. Ao longo de todo o período republicano, esta direita, nunca tendo alcançado o poder — sempre nas mãos do PRP —, foi-se convencendo progressivamente das posições da direita antiliberal, militar e da direita insurgente inspirada pelo fascismo italiano.