Um livro radical. De narrativa veloz, sem diálogos ou interpretações. Continua sendo, 37 anos depois de seu lançamento, uma criação vigorosa. Capa do artista plástico José Roberto Aguilar, e prefácio inédito de Caetano Veloso, que afirma: "José Agrippino de Paula vivenciou os conteúdos da vida no final do século passado com tanta frieza e tanta paixão que talvez não haja no mundo nenhuma obra literária contemporânea de seu PanAmérica que lhe possa fazer face. O livro soa (já soava em 1967) como se fosse a Ilíada na voz de Max Cavalera".
Bizarro, visceral e alienígena numa poluição de imagens surreais e de figuras famosas; ezquizofrenicamente e psicodelicamente barroco do começo ao fim, que apesar da loucura que não deixa de ser crítica permear o livro todo, oscila muito entre belos e magníficos trechos surreais e outros malucos extremamente repugnantes (e bota repugnante nisso) e outros bem cômicos até numa montanha russa de sensações. Esse oscilar é tao intenso num fluxo de consciência absurdo e cortes abruptos que eu nem me darei a faculdade de avaliar este livro, já que não sei nem organizar meus pensamentos numa conclusão uniforme, pois sem dúvida alguma esse livro é definitivamente algo oposto a qualquer uniformidade sã que exista na terra... É fenomenal e uma merda completa ao mesmo tempo, barroco psicodélico. Mas há de ressaltar que no meio da loucura gostosa de ler e da loucura insuportável há partes realmente profundas e muito bem feitas que são realmente pérolas que juntas as duas anteriores consolidam PanAmérica como um objeto não indentificado, anômalo e intrigante no meio do universo da literatura brasileira.
PanAmérica é um monumento, começando pela sua forma. Vinte capítulos que são colocados como vinte parágrafos e funcionam com vários sonhos ou delírios. O enredo pouco importa e é difícil defini-lo. Uma ode à Marilyn Monroe? Uma hecatombe com anjos e arraias voadoras? Um filme épico no meio de um mar de gelatina verde? As regras não se aplicam por aqui. As personagens morrem e vivem, somem e desaparecem, com muitas elipses e uma não temporalidade. Em comum os elementos pop do final dos anos 60, os cortes cinematográficos, a sexualidade pungente, e uma escrita que engole a todos, mesmo que seja dentro de um peixe cósmico.
Que viagem lisérgica! É uma experiência por vezes incômoda e totalmente imprevisível, embora a repetição utilizada pelo autor seja algo que permeia a escrita de uma maneira quase obsessiva. Me parece um grande fluxo de pensamento, o que dá a ideia de que a narrativa parecia girar em círculos não chegando a lugar nenhum, o que acabou provocando um certo cansaço em mim. Porém depois tornou-se um recurso que funcionou ao pensar na leitura concluída. O que dá para pensar é que a maquinação da indústria cultural e seus ídolos criados, tão presentes e tão característicos como a figura de estrelas de cinema da magnitude de Marilyn Monroe, John Wayne, Cary Grant, entre outros é mais uma parte da sociedade de consumo e claramente um produto do tempo na qual o livro foi escrito, meados da década de 1960 em plena ditadura militar. A subversão é recorrente e válida, não foi fácil ler, tive algumas pausas porque o ritmo frenético e pouco narrativo me cansaram, porém é intrigante.
Os anos 1960 e 1970 ressoam hoje como décadas míticas, de efervescência política e cultural, de transformações aceleradas no mundo, de enfrentamentos diretos com o capital no terreno da política social mas também da subjetividade, de movimentos culturais que se constituiriam como referências incontornáveis por décadas a fio.
O livro de José Agrippino de Paula é inegavelmente parte desse turbilhão no Brasil, antecipando o tropicalismo e injetando na literatura uma dose excessiva de alucinação e urgência. Mais do que simples referências à cultura pop, o que o livro faz é ousar constituir uma forma literária que suga elementos da pop art e da indústria cultural para conceber uma epopeia desenfreada, lisérgica e grandiosa.
O livro se estrutura em capítulos narrados através de parágrafos únicos, blocos de texto que se estendem por páginas e páginas. O narrador utiliza a todo tempo o pronome “Eu”, marcando assim objetivamente no texto que está se apropriando da guinada subjetiva dada pelo capitalismo e usando o individualismo como um ethos.
A narrativa percorre de maneira anárquica locais e personas da indústria cultural e da esquerda, constituindo entre elas um irônico senso de equivalência. Che Guevara e a guerrilha, Hollywood e Marilyn Moroe, os porões da ditadura e os protestos de massa, Di Maggio e Burt Lancaster, Marlon Brando e os comunistas, a estátua da liberdade e tantas outras figuras e lugares icônicos são percorridos por um narrador que abusa das repetições, das frases que são como pequenos slogans publicitários, de todo o imaginário das propagandas capitalistas. Ao final, todas essas imagens, homogeneizadas e excessivamente exibidas explodem em uma apoteose tão grandiosa quanto irritante, banal e risível, tal como o espetáculo capitalista que tentam emular.
Há algumas cenas em que o narrador faz sexo ou flerta com meninas de dez anos de idade, em momentos que podem sugerir o despudor do capitalismo e da sociedade de massas, que não poupa ninguém e a tudo profana. Mas na forma como tais cenas são construídas não contém nada de transgressor, sendo apenas incômodas e até de mal gosto.
A sensação de esgotamento do romance é rápida. O estilo é propositadamente repetitivo e sem muitas variações, mas é daí que vem o incômodo. O romance tem pouco a oferecer e parece se esfarelar nas nossas mãos quando procuramos algo mais profundo além do que ele já nos oferece na superfície. O livro é, ao fim, a emulação perfeita de uma mercadoria capitalista.Mas não deixa de ser um documento de época importante.