Trechos sublinhados: "...Na disciplina, o indivíduo se torna 'discípulo' de si mesmo. É seu próprio professor, treinador, técnico e orientador. Platão dividiu a alma em três partes, ou funções — razão, paixão e desejo —, e disse que o comportamento correto resulta da harmonia entre esses elementos. Santo Agostinho procurou entender a alma hierarquizando as diversas formas de amor, em seu famoso ordo amoris: amor a Deus, ao próximo, a si mesmo e aos bens materiais. Sigmund Freud dividiu a psique em id, ego e superego. E vemos William Shakespeare observando os conflitos da alma, a luta entre o bem e o mal, em obras imortais como Rei Lear, Macbeth, Otelo e Hamlet. O problema volta sempre ao equilíbrio da alma. Mas a questão da ordem correta da alma não se atém ao domínio sublime da filosofia e do drama. Ela está no cerne da perfeita conduta no cotidiano... A avareza perde tudo por querer tudo ganhar... Quem tudo quer tudo perde... Não abusa do chicote e mantém a rédea curta. Os corcéis não precisam de açulamento; no entanto, precisas esforçar-te para contê-los. Não toma a estrada reta que atravessa os cinco círculos do Paraíso, toma a da esquerda. Evita as zonas boreais e austrais, fica dentro dos limites da região mediana. Verás as marcas das rodas e elas te guiarão. O céu e a terra precisam cada um da sua cota de calor; portanto, não anda muito alto, ou queimarás as moradas celestiais, nem muito baixo, ou tocarás fogo na terra. O caminho do meio é melhor e mais seguro... Diamantes e rubis; Despertam o desejo da gente; Mas as palavras gentis; Têm mais poder sobre a mente. Aos sonhos renunciamos; Em favor da honestidade, Ela exige complacência; E um pouco de paciência; Mas compensa, cedo ou tarde; Quando menos esperamos... Viver é desejar, e ser feliz é satisfazer os desejos... Com os homens nos tornamos justos ou injustos; pelo que fazemos em presença do perigo e pelo hábito do medo ou da ousadia, nos tornamos valentes ou covardes. O mesmo se pode dizer dos apetites e da emoção da ira; uns se tornam temperantes e calmos, outros intemperantes e irascíveis, portando-se de um modo ou de outro em igualdade de circunstâncias... Fica bem claro, pois, que em todas as coisas o meio-termo é digno de ser louvado, mas que às vezes devemos inclinar-nos para o excesso e outras vezes para a deficiência. Efetivamente, essa é a maneira mais fácil de atingir o meio-termo e o que é certo... Sempre que possível, devemos ajudar os outros, pois, muitas vezes, precisamos de quem é menor do que nós... Paciência e persistência podem mais do que força e do que raiva... Aqueles que desobedecem a uma lei injusta devem fazê-lo abertamente, com dedicação e disposição para aceitar a penalidade. Devo admitir que um indivíduo — ao infringir uma lei que sua consciência lhe diz ser injusta, dispõe-se inteiramente a aceitar a condenação a fim de conscientizar a comunidade quanto à sua injustiça — está na realidade expressando o mais elevado respeito pelas leis... Amizade é mais que afinidade e envolve mais que afeição. As exigências da amizade — franqueza, sinceridade, aceitar com a mesma seriedade as críticas e os elogios do amigo, lealdade incondicional e auxílio a ponto do sacrifício — são estímulos poderosos para o amadurecimento moral e o enobrecimento. A amizade genuína requer tempo, esforço e trabalho para ser mantida. A amizade é algo profundo. De fato, é uma forma de amor... Quando o motivo que os tornou amigos desaparece, a Amizade também se dissolve; pois que existia apenas em relação àquelas circunstâncias. A perfeita Amizade é a que subsiste entre aqueles que são bons e cuja similaridade consiste na bondade; pois estes desejam o bem do outro de maneira semelhante: na medida em que são bons (e são bons em si mesmos); e são especialmente amigos aqueles que desejam o bem a seus amigos por si mesmos, porque assim se sentem em relação a eles, e não por uma mera questão de circunstâncias; assim a Amizade entre esses homens permanece enquanto eles são bons; e a bondade traz em si um princípio de permanência... O TRABALHO É O ESFORÇO APLICADO; é qualquer coisa a que nos dedicamos, qualquer coisa em que gastamos energia para conquistar ou adquirir algo. O sentido fundamental do trabalho não é aquilo por que lutamos para viver, mas o que fazemos com nossa vida. A felicidade, como Aristóteles disse há muito tempo, reside na atividade, tanto física como mental. Reside em fazer coisas de que se possa orgulhar por fazer bem e, portanto, que se tenha prazer em fazer... É a harmonia com a Natureza o que se aprecia. Os judeus antigos da mesma forma apreciam a Lei como 'verdade'. Mas, comum a tudo isso, existe algo que não podemos negligenciar. É a doutrina do valor objetivo, a crença de que certas atitudes são realmente verdadeiras, e outras realmente falsas, em relação ao tipo de coisa que o universo é e ao tipo de coisas que nós somos... A lealdade é muito diferente da amizade, embora frequentemente andem juntas... A língua é sincera, mas o coração é perverso... Os homens têm o que lhes apraz mais do que a vida e o que lhes desgosta mais do que a morte... O nascimento não é um início; a morte não é um fim. Há existência sem limitações; há continuidade sem um ponto inicial. A existência sem limitações é o espaço. A continuidade sem um ponto inicial é o tempo. Há o nascimento, há a morte, há o prosseguimento, há o ingresso. Aquilo em que alguém ingressa e de onde sai sem ver a forma são os Portais de Deus. Os Portais de Deus são a não existência. Todas as coisas surgiram da não existência. A existência não poderia fazer da existência a existência. Ela só pode ter surgido da não existência, e a não existência e o nada são uma coisa só. Nisto reside o sábio. Descarte os estímulos do propósito. Liberte a mente das perturbações. Livre-se dos emaranhados da virtude. Atravesse as obstruções ao Tao... NÃO TARDA A CHEGAR a época de deixarmos a segurança do lar e nos aventurarmos mundo afora por nossa própria conta. De início, avançamos lentamente, pé ante pé, alcançando novos marcos sem nos darmos conta de que conduzem à independência — a primeira viagem ao outro lado da rua sem ninguém nos dando a mão, o primeiro dia de aula, o primeiro pernoite na casa de um amigo, o primeiro emprego nas férias, o primeiro rito de passagem na igreja ou no templo, e assim por diante até que, um belo dia, olhamos para trás e descobrimos que o lar ficou bem distante. Percebemos, num lampejo, que o mundo é vasto e, com frequência, pouco familiar. E a jornada está apenas começando... A vida pode ser uma jornada rude e trabalhosa; o chão pode ser áspero, o ar pode ficar frio. Algumas lições ensinam a adquirir e manter os bons hábitos necessários para suportar a longa escalada. Por exemplo, há histórias sobre a observância do que dizemos, e como as boas maneiras podem nos levar mais longe. Descobrimos formas de encarar o dever, desempenhar tarefas e executar um bom trabalho. Observamos o valor de se controlar o apetite, o temperamento e o ego. Para aguentar a viagem inteira, vamos precisar dessas lições de autodisciplina e responsabilidade... Descobrimos a importância de conhecer nossas forças e fraquezas — e as dos outros. Aprendemos a fazer bom uso do que ganhamos e conquistamos; a discernir entre o que é bom para nós e o que só vai nos trazer problemas; a questionar se uma luta vale a pena, ou perceber claramente que não. Compreendemos que há um tempo de pedir conselhos e um tempo de confiar no nosso próprio julgamento. Às vezes, o mundo chega a ser um lugar perigoso. Encontramos todo tipo de estranhos, alguns gentis, outros não; é bom ficar de sobreaviso... Na verdade, adquirimos sabedoria e virtude a partir dos nossos próprios fracassos, tanto quanto dos nossos sucessos. Como se diz, quem nunca cometeu um erro também nunca fez uma descoberta. E, já que o mundo às vezes é um mestre severo demais, os exemplos deste capítulo podem ajudar a arrefecer os golpes. Pelo menos nos confortaremos sabendo que, se erramos, não estamos sozinhos. E a maioria dos erros não é fatal. Em quase todos os caminhos que escolhemos por engano, há um retorno à mesma encruzilhada para tentarmos de novo, um outro dia... Naquele tempo as pessoas tratavam os cegos com negligência ou crueldade. Às vezes eram expulsos pela família e viviam de esmolas. Às vezes eram contratados para trabalho pesado, como bestas de carga. Em alguns lugares, a cegueira era vista como obra do demônio ou como castigo divino... Os golpes da adversidade podem ser excelentes chances para melhorar. A pedra não pode ser polida sem fricção, nem o homem ser aperfeiçoado sem provação, diz um provérbio chinês. Todo sucesso real, todo prêmio que vale a pena provavelmente será conquistado à custa de alguns fracassos. Fixamos nossa intenção e tentamos várias vezes, até atingirmos o objetivo. O teste máximo, entretanto, não é se finalmente alcançamos a meta, mas como nos conduzimos durante o processo. Se às vezes o caminho é íngreme demais para prosseguirmos até o topo, devemos acreditar que o esforço em si valeu a pena e nos preparar para novos testes, sabendo que, como o clérigo Henry Ward Beecher disse há mais de cem anos, estamos sempre na forja, ou na bigorna; através das provações, Deus está nos moldando para propósitos mais elevados... Os valentes romanos queriam divertimento mais forte, mais excitante. As portas dos calabouços em torno da arena se abriam, soltando diversos animais selvagens — tigres, rinocerontes, touros e leões, leopardos, ursos —, e as pessoas assistiam com feroz curiosidade aos vários tipos de ataque e defesa, admirando os urros e rugidos das nobres criaturas. A gente imagina que animais selvagens se despedaçando e devorando-se uns aos outros deve satisfazer qualquer tendência ao horror, mas os espectadores exigiam adversários mais nobres para enfrentar as feras. Traziam homens em armadura que lutavam com coragem e, geralmente, com sucesso. Ou caçadores praticamente desarmados que obtinham a vitória por meio de agilidade e destreza, jogando uma rede sobre o leão, por exemplo, ou enfiando o punho até o fundo da garganta da fera... Aristóteles já disse que o casamento é na verdade um relacionamento baseado nas virtudes. A principal destas é a responsabilidade, pois o casamento, afinal de contas, é um contrato que repousa na dependência mútua e nas obrigações recíprocas. Mas os casamentos bem-sucedidos são algo mais que o cumprimento das condições do contrato. Nos bons casamentos, o homem e a mulher procuram se aprimorar pelo bem do ser amado. Ambos oferecem e inspiram força moral, dia após dia, compartilhando compaixão, coragem, honestidade, disciplina e uma série de outras virtudes. Assim o todo de uma união se torna mais forte e belo que a soma de suas partes. 'Que bem maior possui a alma humana', diz George Eliot, 'do que sentir que tem uma companhia para a vida inteira — para contar com o outro nas horas de dor, estimular um ao outro no trabalho, estar com o outro em lembranças mudas, inefáveis, no momento da última despedida?'... Nada de bom pode vir a uma nação — dizia ele — cujo povo reclama e espera que outros resolvam seus problemas. Deus dá as coisas boas da vida a quem lida com os problemas por conta própria... Com frequência encontramos obstáculos e fardos no caminho. Podemos reclamar em alto e bom som enquanto nos desviamos deles se assim preferirmos, ou podemos erguê-los e descobrir o que eles significam. A decepção é normalmente o preço da preguiça... Os antigos filósofos gregos acreditavam que o autoconhecimento é o objetivo mais elevado: 'A vida que deixamos de examinar não vale a pena ser vivida', diziam eles. É fácil admitirmos que sabemos bastante sobre nossas próprias vidas. Mas, na verdade, o sentimento de estarmos à deriva no mundo pode ser, em grande escala, o resultado de não conseguirmos viver conforme a máxima dos antigos: 'Conhece-te a ti mesmo.' Conhecer a si mesmo requer esforço, e por essa razão conferimos a tal conhecimento elevado grau de apreciação, ao ponto de lhe atribuirmos a categoria chamada sabedoria..."