A presente coleção reúne a obra completa de Maria Judite de Carvalho, considerada uma das escritoras mais marcantes da literatura portuguesa do século XX. Herdeira do existencialismo e do nouveau roman, a sua voz permanece intemporal, tratando com mestria e um sentido de humor único temas fundamentais, como a solidão da vida na cidade e a angústia e o desespero espelhados no seu quotidiano anónimo. Observadora exímia, as suas personagens revelam o ritmo fervilhante de uma vida avassalada por multidões, mas sempre reclusas em si mesmas, separadas por um monólogo da alma infinito.
O segundo volume reúne duas coletâneas de contos - Paisagem sem Barcos (1963) e O seu Amor por Etel (1967) - e uma novela - Os Armários Vazios (1966).
MARIA JUDITE DE CARVALHO nasceu em Lisboa a 18 de Setembro de 1921. Estreou-se com o livro de contos Tanta Gente, Mariana (1959) e foi galardoada com o Prémio Camilo Castelo Branco pela colectânea As Palavras Poupadas (1961). Além de contos, publicou romances e crónicas, cultivando também o jornalismo. Na sua obra reflecte-se o dramatismo da solidão do mundo urbano, onde há muita gente e pouca alma. Publicou Paisagem Sem Barcos (1965), Os Armários Vazios (1966), Flores ao Telefone (1968), Os Idólatras (1969), Tempo das Mercês (1973), A Janela Fingida (1975), O Homem no Arame (1976), Além do Quadro (1983), Seta Despedida (1995), A Flor que Havia na Água Parada (1998) e Havemos de Rir? (1998). Reuniu parte das suas crónicas em Este Tempo (1992) e Diário de Emília Bravo (2002, póstumo). Foi condecorada pela Presidência da República com o Grande-Oficialato da Ordem do Infante D. Henrique, em 1992 e recebeu, a título póstumo, o Prémio Vergílio Ferreira, pelo conjunto da sua obra, em 1998.
Este livro não seria, à partida, uma escolha óbvia de leitura para mim. Primeiro porque confesso desde já a minha ignorância quanto à obra da autora, de quem quase não ouvi falar e depois porque se tratam de contos, um género literário que ainda não me conseguiu conquistar. Mas a Almedina lançou-me o desafio e eu aceitei. E ainda bem! Sai da minha zona de conforto, não foi uma leitura fácil diria até que chegou a ser desafiadora, mas muito proveitosa.
«É um mau costume, esse de classificar as pessoas, espetá-las no sitio que nos parece adequado, como às borboletas. Boas e más, loucas e ajuizadas... Como se isso fosse possível! Entre um princípio e um fim, quantos lugares, quantos milhares deles.» (Os armários vazios, p. 192)
Se ainda precisava de confirmar o talento de Maria Judite de Carvalho, se precisava saber onde a colocar no patamar dos grandes escritores, se precisava perceber se fiz bem em comprar a sua obra completa: está confirmado, colocado no devido lugar e percebido que não poderia ter feito melhor coisa que investir na obra de uma Grande Escritora portuguesa (grandemente ignorada).
Rendida que estou aos contos, não deixo contudo, de ser exigente no seu consumo. Não serve qualquer coisa (gosto de pensar)... E se faz um mês me pus a dar 4 e 5 estrelinhas a tudo o que eram contos do Raymond Carver, convencida de que o senhor tinha a chave da estrutura perfeita para este género - ligeiramente ambíguo e impactante para os sentidos-, a nossa MJC acabou de me fazer compreender que, à luz da sua obra, poucas se lhe comparam - alguma lhe fará sombra?
«Não é a nós que dói a cabeça dos outros, não somos nós que morremos em vez deles. Ficamos mesmo, como direi, incólumes. Porque hão de ser comuns as outras coisas? Impossivel.» (Paisagem sem barcos, p. 51)
Continuo a catalogá-la junto do meu poeta de eleição. Continuo a emparelhar a sua obra com a de Mário de Sá-Carneiro pela sua intransigência na dor, na solidão, na morte. Mas ressalvo que são posturas díspares. Em MJC não existe um desespero suicida, existe sim uma doçura, uma melancolia com que encara a fatalidade que quase nos faz desejar estar também completamente sós, tristes e deprimidos para a experimentarmos mais completamente.
«Sou uma ilha, Paula. Sim, uma ilha pequena, sem arquipélago, e à volta o oceano desconhecido e um nevoeiro tão denso que não deixava ver os barcos, se os havia. Mas era natural que os houvesse. Há sempre barcos em volta das ilhas.» (Paisagem sem barcos, p. 72)
As suas mulheres continuam a ser mulheres impressionantes - pouco pactuantes com estereótipos e modelos femininos socialmente aceitáveis. Munidas de uma revolta interior poderosíssima, são almas modernas encarceradas pelo regime em corpos castos, brutos, ignorantes; manietadas, usadas e abusadas por uma sociedade antiquada e recalcada que anula o valor individual da mulher.
«Enfim, o que pensas fazer?» Ela encolheu os ombros. «Sei lá. Estou à espera. De qualquer coisa que venha do exterior ou de mim própria. Por enquanto não há nada. O vácuo. Haverá alguém capaz de ter pensamentos no vácuo?» (Paisagem sem barcos, p. 37)
PAISAGEM SEM BARCOS ⭐⭐⭐⭐⭐ Tudo Vai Mudar⭐⭐⭐⭐ Rosa Numa Pensão À Beira-Mar ⭐⭐⭐⭐⭐ Anica Nesse Tempo ⭐⭐⭐⭐⭐ Uma Pressa Louca ⭐⭐⭐⭐⭐
OS ARMÁRIOS VAZIOS ⭐⭐⭐⭐⭐
O SEU AMOR POR ETEL ⭐⭐⭐⭐⭐ A Flor Da Vida⭐⭐⭐⭐⭐ Levo-os No Meu Coração⭐⭐⭐ Adelaide⭐⭐⭐⭐⭐
Paisagem sem Barcos “Sou uma ilha, Paula.” Sim, uma ilha pequena, sem arquipélago, e à volta o oceano desconhecido e um nevoeiro tão denso que não deixava ver os barcos, se os havia. Mas era natural que os houvesse. Há sempre barcos em volta das ilhas. Estivera um dia numa ilha assim… A voz de Paula ria na sua sala, no seu divã. “Todos o somos, não és original.” “Mas eu sou aquela ilha.” Pequena e com praias de cascalho, não muito belas, voltadas para oriente. O sol abandonava-as a meio da tarde, e então fazia frio e a água ainda há pouco morna e confortável tornava-se gélida, matéria opaca, cheia de vida, de morte e de mistérios. Só havia uma coisa a fazer, subir, subir à procura de um resto de sol. Mas do lado ocidental era o reino das gaivotas e dos rochedos a pique. Coisas só para olhar. Ruídos que eram silêncio. E acabava sempre por regressar à tenda onde estava acampada com uns amigos. Cansada. Farta. A querer ir-se embora e sem partir.
Tudo vai Mudar Observar com atenção tudo aquilo que deixa, tudo, bem de frente, por uma vez sem receio, e verificar que não tem pena de se ir embora. Não fugir, não se escapar pelas ruas transversais, não se esconder na primeira porta aberta. Não sonhar. Sobretudo não sonhar.
Anica Nesse Tempo Isso de felicidade … não é um estado inerte, pois não, major? Vai mudando com o tempo.
Os Armários vazios
Uma história sobre como os homens traem as mulheres e sobre como as mulheres se traem umas às outras.
Era um dia igual a tantos, agora que eu vivia só. Mais um número a subtrair à minha conta-corrente.
Talvez gostasse também, embora menos, com os homens nunca se sabe. Os pobres foram feitos para ter um harém em que todas as mulheres se entendessem como Deus com os anjos, e isso foi-lhes proibido pela Santa Igreja. O que hão-de eles fazer? Acumular ou então, mais raramente, deixar uma para pegar noutra, é normal.
Não sou feliz. Na verdade não sou feliz. Note que gosto muito da Manuela. A verdade é que é precisamente essa a razão por que não sou feliz e procuro aqui e além, desculpe a franqueza, um momento de exaltação.
Ernesto embrenhou-se numa confusa tragédia de casal sem filhos e do desgosto que tinha de não os possuir. Ele, Ernesto Laje, era um lutador, mas que gostaria de saber para quê ou para quem lutava.
Eu julgava que o problema dele não se chamava Manuela e afinal… Arranjara maneira de eu ser o seu problema. Era infeliz por eu não ter filhos e procurava compensações lá fora. Ao mesmo tempo, porém, gostava muitíssimo de mim e não podia trocar-me por mais ninguém. Um círculo vicioso muito vicioso.
Entrada direta para o top dos melhores livros lidos este ano. Guardo "Os Armários Vazios" como um dos meus contos preferidos de sempre. Escrita irrepreensível, intensa, bem ao jeito único da enorme Maria Judite de Carvalho.
Atmosferas escuras das almas, uma escrita aparentemente simples mas que encerra a complexidade das gentes. Tantas as gentes, as almas perdidas, as desesperadas, as esperançosas. Mas não as almas penadas.
3,5⭐️ A qualidade da escrita de Maria Judite de Carvalho é inegável. No primeiro volume das obras completas fiquei rendida. Tem aquele poder de escrever sobre o quotidiano e dar-lhe um significado e uma carga enorme. E embora tenha gostado muito de alguns contos, de outros nem por isso. Os contos que não gostei tinham um denominador comum: longos e praticamente sem uma resolução. Em comparação com a obra reunida no primeiro livro achei este inferior. Ainda assim, vão ler o terceiro volume para pelo menos saber para que lado pende a balança. Fica aqui a classificação que atribuí a cada um dos contos: Paisagem sem barcos 2⭐️ Tudo vai mudar 5⭐️ Rosa numa pensão à beira-mar 4⭐️ Anica nesse tempo 2⭐️ Uma pressa louca 3⭐️ Os armários vazios 5⭐️ O seu amor por Etel 4⭐️ A flor da vida 3⭐️ Leva-os no meu coração 4⭐️ Adelaide 4,5⭐️
Escrita bela, depurada, feita de detalhes e de uma capacidade de observação do que é humano fora do comum. Escrita que nos dá socos na alma e que chega a ser cruel de tão verdadeira. Tal como o primeiro volume, uma obra-prima.
“Nunca havia horas tão importantes como aquelas em que estava sozinha. As outras eram igualmente ficção e só depois, a sós consigo própria, adquiriam uma certa consistência e uma atualidade relativa.”
“«Ao fim desse prazo a morte é inevitável. Há tantas coisas que não fiz, Jô, e que já não posso fazer!» «Todos devem pensar o mesmo», disse ela fatigada. « Ninguém fez o que queria fazer, todos se perderam pelo caminho.»” -Paisagem sem Barcos
O segundo volume das Obras Completas de Maria Judite de Carvalho reúne duas colectâneas de contos, "Paisagem sem Barcos" (1963) e "O seu Amor por Etel" (1967), e uma novela, "Os Armários Vazios" (1966).
Os contos são um género narrativo difícil na medida em que, por vezes, como leitora sinto não me conseguir conectar o suficiente às personagens, ao ambiente. Os contos de MJC, mesmo os mais pequenos, são quase todos perfeitos, nada fica a faltar.
Nos contos e na novela que compõem este volume, somos transportados para a sociedade urbana da época em que foram escritos. As personagens são, na sua maioria, mulheres desse tempo. Um tempo já distante, os anos 60, mas que, em certa medida, ainda encontramos nos dias de hoje. A solidão da vida nas cidades, a angústia do quotidiano, a razão da existência, o papel das mulheres.
Estou rendida à escrita de MJC e vou continuar a descobrir a sua obra através da leitura dos restantes volumes.
É difícil classificar um volume que reúne uma novela e duas colectâneas de contos... o que posso dizer é que não é um livro tão bom quanto o primeiro desta saga das Obras Completas da autora. O estilo é o mesmo, nota-se alguma dificuldade em manter o foco em textos maiores e alguns aspectos são muito próprios da época que retratam. A novela é muito catita e três dos contos foram maravilhosos, alguns não percebi, outros são mais do mesmo. Averiguaremos no próximo volume.
Personagens de uma densidade profunda, tragicamente definidas por via dessa escrita com profundidade e sensiblidade que caracteriza a MJC. A minha preferida - Dora Rosário - em a "Paisagem sem barcos", primeiro, numa vivência apagada , triste, para depois se revelar e terminar, de novo, em plano sofrido e amargurado.
Impressiona-me a sobriedade desta escritora, como o texto brilha pelo desencanto, a desesperança, a espera infinda que condena as personagens a uma errância sem fim à vista.
Numa melancolia provocatória explora de que são feitos os silêncios e os silenciamentos, do medo e dos tabus, numa rebelião (ou não) que magnetiza.
Sinto-me tocada pelo estilo íntimo e minucioso que imprime na sua narrativa do mundo interior feminino.
Num conjunto de histórias escrutina a banalidade dos dias, sobre tudo e sobre nada, sondando o tumulto dos sentimentos, dos dramas resguardados dos olhares alheios, aferrolhados porque assim tem de ser.
Sobretudo mulheres. Contidas nos gestos, de uma eloquência feita de (As) Palavras Poupadas; carregadas de uma força interior que têm de ocultar, submeter, anular.
De todos os contos destacaria Os Armários Vazios, que adorei, com o exemplo perfeito da mulher submissa do Estado Novo, Dora Rosário que se vê subitamente atropelada pelo destino e convertida em “viúva de carreira”. Magistral.
This second volume of Judite de Carvalho's collected works contains two short stories volumes (Paisagens sem Barcos, from 1963, and O Seu Amor por Etel, from 1967) and the novella Os Armários Vazios (1966). Most of the stories are about rather unhappy persons and their gloomy lives (Os Armários Vazios). Others are about the inability to be happy even when the long-sought goal is achieved (Rosa Numa Pensão à Beira-Mar and O Seu Amor por Etel). The stories are beautifully written in an engaging style and, in spite of the general sadness that surrounds them, ocassionally unexpected humorous pinch occur, as when, in Os Armários Vazios, the antiquary shop is called Matusalém (the Portuguese for Methuselah) because its proprietor was named Matos and came from Alentejo... This volume, as the first one in this series, is a wonderful reading.
Histórias de mulheres e homens sós, com alguma angústia e fitos por realizar, e que terminavam de foram abrupta. É uma escrita interior, tudo se passa dentro de cada personagem, e, muitas vezes, dentro de portas. Lembrei-me muito de Elena Ferrante, pois Maria Judite de Carvalho, que não criou pseudónimos, também optou sempre pela discrição, por escrever fora dos holofotes. Mas não foi descoberta por um crítico dos Estados Unidos, e, por isso, ainda está na neblina das escritoras. Sei que a ideia é dá-la a descobrir a novos leitores, mas o (des)acordo ortográfico era desnecessário.
Não sei o que me prende tanto nos contos de Maria Judite de Carvalho, mas são incríveis. Gosto muito da escrita, das histórias e das mensagens que a autora pretende transmitir. Foi uma ótima (e oficialmente a) primeira leitura das férias de verão! Amei.
Da conhecida Flor discreta da literatura, uma autora muito ignorada pelo protagonismo de Urbano Tavares Rodrigues. A Obra Completa nos seus múltiplos volumes presenteia o leitor com uma escrita depurada e introspetiva. Este volume, em particular, apresenta contos e uma novela num género que despersonaliza a narrativa tradicional ao colocar no centro a vida interior das personagens independentemente da sua coerência ou verossimilhança. « " Acontece que tenho de fazer as malas e consequentemente de as desfazer. Um trabalho improfícuo, mas necessário. De resto ele já se tornou mecânico para mim, e vou-me aperfeiçoando dia a dia. Uma especialização como outra qualquer. O que deve ir no fundo, o que é melhor ir ao de cima, o que se pode meter aos lados. E a arte de preencher os espaços vazios, major... já não é uma mala, a certa altura. É um retângulo de matéria bem compacta." fez um silêncio. Estou sempre pouco tempo...» (Anica nesse tempo, p.103) «J'ai conservé de faux trésors dans des armoires vides» Éluard (Armários vazios, p.137).
Me encantó el punto de vista femenino de esta escritora. Fue una revelación para mí. Me imagino que la condición de mujer en aquellos años en Portugal no debería ser fácil.
A solidão é o fio que agrega cada personagem, é a porta que se abre e que nos recebe nas suas vidas - ou serão as nossas vidas ali espelhadas?
Com uma escrita melancólica, irrepreensível, que se foca «nas gentes portuguesas», Maria Judite de Carvalho divaga sobre problemas reais, sobre momentos de angústia, de desassossego e de tristeza; mas também descreve a mágoa, os pequenos raios de felicidade e os debates internos que nos mostram tantos mundos, expondo o nosso lado mais sombrio. Como plano de fundo, encontramos, ainda, «os cativos resignados», os desamores, os estereótipos e mulheres que se distanciam daquilo que é socialmente aceite.
Neste volume, dividido em dois contos e uma novela, há uma ideia que também me parece transversal: a falta de pertença, como se estas personagens sentissem que não há lugar para elas.
💭 "Ela deteve-se porque tudo o que dissesse ia parecer importante de mais depois de todo aquele silêncio e sentiu-se intimidada perante as palavras por dizer."
💭 "Era uma imagem que perdera muito da sua intensidade. O tempo fora-a, naturalmente, corroendo, mas com tanta lentidão que ela a maioria das vezes não se preocupava muito com esse desgaste natural. A imagem duraria até ela durar, não era preciso mais."
Encontrei em Maria Judite de Carvalho aquilo que, até à data, só tinha encontrado em Saramago: uma escritora-casa
Na escrita de MJC, encontro-me a mim. Vejo o meu desassossego, a minha angústia, a minha forma de encarar isto a que chamam de vida. Penso "quem me dera algum dia conseguir escrever assim", ao mesmo tempo que me sinto uma sortuda por conhecer Maria Judite de Carvalho. Caramba, que escritora! Como, como é que MJC não é mais conhecida? Há um antes e um depois de Maria Judite de Carvalho na minha vida. Agora sei que terei sempre uma casa à minha espera na literatura, sei que, por mais livros que leia, por mais vida que viva, por mais angústias que passe, tenho nos livros da autora alguém que me compreende
Encontrei em MJC um desassossego, uma solidão, a descrição bela da tristeza, o querer sentir, sentir tudo, a felicidade, a mágoa, a raiva. Viver é um desassossego constante e MJC transmite esta sensação de uma forma extraordinária em todos os seus contos.
Com histórias tristes, personagens melancólicas e uma escrita irrepreensível, Maria Judite de Carvalho transformou-se numa das escritoras da minha vida
Eu, que não era a leitora mais assídua de contos, encontrei em Maria Judite de Carvalho uma das escritoras que mais me fala à alma. Não importa o tamanho da história, quem sabe escrever impacta sempre o leitor.
"Sofria por estar só, era humano, mas ao mesmo tempo desejava estar mais só ainda para sofrer melhor, mais completamente, para pensar melhor em Duarte, com mais ponderação, sem palavras alheias que lhe detivessem os pensamentos, sem olhares alheios e insignificativos a sujarem-lhe a imagem. Era uma dor que se queria asséptica."
Regressei a Maria Judite. E foi tão bom. É sempre um prazer regressar à escrita daquela que se tornou numa das minhas autoras preferidas.
A sua escrita simples e profunda tem o poder de nos desarmar, de pôr a nu, sem brilhos ou artefactos, aquilo que pulsa cá dentro, o nosso lado sombra pautado pela solidão e por uma melancolia que parece ter nascido colada a nós. Maria Judite escreve sobre tudo isso como poucos escreveram. E faz-nos sentir, critério para mim fundamental numa boa leitura.