As crónicas escritas para o jornal brasileiro Folha de S. Paulo, que mostram Ricardo Araújo Pereira como nunca o lemos antes.
Do elogio do silêncio à crítica ao império dos telemóveis e das redes sociais, passando pela defesa da liberdade de expressão e pela metafísica do pecado, estes textos tanto falam de Cristiano Ronaldo como de Kierkegaard, do Candy Crush como de Flaubert. Pelo caminho, desmonta‑se o mito da auto‑ajuda, discutem‑se problemas de linguagem que só a RAP apoquentam, questionam‑se intolerâncias alimentares contemporâneas e o intemporal complexo de Édipo, levantam‑se questões prementes para os casais de hoje, como a escolha entre ter filhos ou ser feliz para sempre, e pergunta-se que papel desempenha no mundo a pessoa, a gente, o povo e a humanidade.
«Edith Piaf declarou famosamente que não se arrependia de nada. Que sorte. Eu sou o seu rigoroso inverso: arrependo‑me de tudo. Isto que vou fazendo não é exactamente viver. É o rascunho de uma vida. Precisava de outra para passar tudo a limpo e comportar‑me como deve ser. O meu epitáfio será, provavelmente: ´Aqui jaz Ricardo Araújo Pereira, com a mão na testa.´ É isso que vou fazer, parece‑me, mesmo antes de morrer. Levar a mão à testa e dizer, desconsolado: ´Ah. Então era assim que devia ter vivido.´Devia ter feito muitas coisas que não fiz e não devia ter feito a maior parte das coisas que fiz. Os franceses têm uma expressão: L’ esprit d’escalier, o espírito da escada. Serve para designar aquela resposta brilhante da qual a gente se lembra quando já é tarde demais. O orador abandona a tribuna e, no momento em que já vai a descer a escada, ocorre‑lhe o que, de facto, deveria ter dito. Eu terei o espírito da escada aplicado à vida: o espírito da tumba. Suspeito que só saberei viver depois de ter vivido. Só terei espírito quando já for um espírito.
Filho de um piloto da TAP, Artur Álvaro Neves de Almeida Pereira, e de uma assistente de bordo, Emília Rita de Araújo, foi aluno de colégios de freiras vicentinas, franciscanos e jesuítas até se licenciar em Comunicação Social e Cultural, na Universidade Católica Portuguesa. Seguiu-se o trabalho como jornalista, na redacção do Jornal de Letras, Artes e Ideias.
De seguida tornou-se argumentista da agência de criadores Produções Fictícias, tendo sido co-autor de vários programas de sucesso do humor português, entre eles Herman 98 e Herman 99 (RTP, 1998 - 1999), Herman SIC (2000 - 2005), O Programa da Maria (SIC, 2001), Hermandifusão Portuguesa (RDP, 1999 - 2001), as crónicas Felizes para Sempre, no semanário Expresso e As Crónicas de José Estebes, no Diário de Notícias, entre outros.
Por volta de 2003, depois das primeiras aparições na televisão, designadamente no programa de humor stand-up comedy, Levanta-te e ri, na SIC, e criando, já ao lado de Zé Diogo Quintela, Tiago Dores e Miguel Góis, várias rubricas no programa de Nuno Markl, O Perfeito Anormal, na SIC Radical, dá arranque ao projecto Gato Fedorento, cujo colectivo se tornou uma referência do humor português contemporâneo.
A equipa assinou várias séries do programa Gato Fedorento, na SIC Radical (Série Fonseca, Série Meireles e Série Barbosa), e depois na RTP1 (Série Lopes da Silva). Também na RTP1 apresentou Diz Que é Uma Espécie de Magazine em 2007, para de seguida voltar à SIC, com Zé Carlos, em 2008, e Gato Fedorento: esmiúça os sufrágios, em 2009. Na internet os humoristas mantêm o blogue homónimo, onde Ricardo Araújo Pereira assina as suas entradas com as iniciais RAP. Teve ainda várias aparições no programa de humor da SIC, Levanta-te e Ri, onde mostrou por várias vezes os seus dotes no stand-up.
Actualmente escreve todas as semanas no jornal A Bola e na revista Visão. Na TSF integra o painel do debate Governo Sombra, com Pedro Mexia e João Miguel Tavares.
As personagens de Ricardo Araújo Pereira, que encontram eco na actualidade política, desportiva ou social, destacam-se pelos tiques que «saltam» para a rua (como acontecia com as criações de Herman José) e são absorvidos em regime multi-geracional, alimentando campanhas publicitárias de sucesso.
É co-autor do livro O Futebol é Isto Mesmo (ou então é outra coisa completamente diferente) e do disco O disco do Benfiquista, naturalmente. Compilou as suas melhores crónicas da revista Visão nos livros Boca do Inferno e Novas Crónicas da Boca do Inferno. Com Pedro Mexia realizou uma adaptação da peça de teatro Como Fazer Coisas com Palavras, do filósofo inglês John Austin, que também interpretou, no Teatro São Luiz em 2008.
É casado com a produtora de rádio Maria José Areias, com quem tem duas filhas, Rita e Maria Inês. Vive na Margem Sul, Quinta do Conde, e gosta de afirmar que é o sócio nº 17 411, do Sport Lisboa e Benfica, clube de que é adepto fervoroso. Foi militante do Partido Comunista Português, partido que veio mais tarde a abandonar. Continua, porém a afirmar-se como "Marxista não Leninista".
Estar Vivo Aleija é o mais recente livro de crónicas de Ricardo Araújo Pereira (RAP), que reúne as crónicas publicadas pelo humorista português na Folha de São Paulo, entre abril de 2017 e agosto de 2018.
Ainda que nem sempre concorde com as opiniões veiculadas por RAP, dá-me um imenso gozo ler o que escreve, pela forma sarcástica, perspicaz e acutilante com que aborda os vários temas. Estes são da mais variada índole, sobre coisas com maior ou menor importância no panorama geral do mundo; o que RAP consegue sempre é que, seja qual for o grau de importância que atribuamos ao tema sobre o qual discorre, o leitor fique com a sensação que o autor poderia escrever sobre a coisa mais desinteressante do mundo com uma graça ao alcance de poucos.
Tenho de confessar que gostei mais desta compilação de crónicas do que da anterior, Reaccionário com Dois Cês, precisamente porque o tom destes textos é menos incendiário, focando-se mais no humor, na observação de pequenos tiques e costumes da vida moderna, sem nunca esquecer a atualidade e as suas preocupações humanas. Aliás, são várias as vezes que RAP refere a sua avó, e no meio do humor com que o faz, é possível ver o carinho e a saudade que permanecem.
Li Estar Vivo Aleija num único dia. Deixei-me embalar por estes textos divertidos, que tiveram o condão de me fazer rir mas também de me emocionar. Recomendo!
Já tinha este livrinho para ler há algum tempo e, foi preciso vir uma quarentena/isolamento social obrigatório, para pegar nele a sério e lê-lo até ao fim.
Não posso dizer que fiquei encantada com o livro, mas dei algumas gargalhadas em algumas passagens que por lá encontrei. Outras houve em que foram apenas passagens e que nada de novo trouxeram.
Acho que Ricardo Araújo Pereira é dono de uma inteligência e humor raros. Daquele humor sarcástico que nos leva efectivamente a pensar primeiro e só depois rir às gargalhadas! Sou fã dele desde a altura dos "Gato Fedorento" e, até hoje sigo o trabalho dele na televisão.
No entanto, tenho de ser sincera e dizer que esperava mais deste livro. Tem passagens muito, muito inteligentes e finas na sua mensagem, mas tem outras que simplesmente não tiveram o efeito normal, pelo menos em mim.
O que gostei, particularmente, neste livro foi o facto de que é muito pessoal. Ele fala muito em pessoas próximas de si. Na avó (adorei a crónica dele em relação às batatas moles da avó), nas filhas, na esposa e até nos animais de estimação. Acho que, dessa forma, ele conseguiu aproximar-se mais dos leitores do que se tivesse arranjado apenas exemplos à sorte que nada tivessem a ver co ele.
De qualquer modo, aconselho vivamente a lerem estas crónicas, umas deliciosas outras nem tanto mas igualmente interessantes.
Este é um conjunto de crónicas escritas pelo Ricardo Araújo Pereira para o jornal brasileiro ‘Folha de S. Paulo’ entre Abril de 2017 e Agosto de 2018.
“Isto de estar vivo ainda um dia acaba mal”. Por isso Ricardo decidiu escrever todas as semanas sobre a vida, angústia e desespero, que culminam na morte.
Algumas das crónicas gostei imenso, outras nem por isso, não me acrescentaram nada. É uma boa forma de passar um bom bocado, sobretudo pelo humor inteligente sempre presente. Acho que esperava um pouco mais do livro. 🤷🏻♀️
Este senhor dispensa apresentações. Rádio, Tv e Imprensa, este homem não pára e nem têm intenções de o fazer. A sua capacidade de escrita e a facilidade em decorar citações, deixa-me cada vez mais rendida à sua pessoa. Todas as semanas a sua crónica para a Visão é de leitura obrigatória, confesso que me desloco à papelaria mais próxima para abrir na última página e ler. Não o devia fazer, mas o Sr. Pios já me conhece e já diz que a cliente chata está sempre a ler.
Sou suspeita: gosto bastante do Ricardo Araújo Pereira. Talvez por isso tenha saído um bocadinho desapontada depois da leitura deste livro, pois senti que conhecia muito daquilo que li: a história das batatas da avó (uma das suas melhores crónicas, para mim), do pão parvamente cortado e outros "clássicos", já dados a conhecer na rádio e noutras entrevistas. Ainda assim, todas elas são pautadas pela sua piada inteligente, tão característica, e por pitadas de sarcasmo e acidez que dão mais sabor à leitura. As crónicas são curtas, de fácil leitura - mesmo que o tema não cative (como houve alguns, no meu caso, relacionados com política brasileira), não é um "sacrifício" que dure muito. É um bom livro para se ir lendo, crónica a crónica, quando nos apetece; ou para ler de fio a pavio, numa boa tarde de verão, enquanto ouvimos interiormente a tão conhecida voz do Ricardo a ler as suas piadas exclusivamente para nós.
As minhas crónicas favoritas: "Aquele Momento", "Amor e Batatas", "Curriculum Vitae", "Maus-tratos a Livros", "Chamaram-me um Nome" e "Perigo: Importantes Lições de Vida".
Sendo um livro de crónicas, é impossível apreciar todas de igual modo. Alguns temas não me disseram nada e está tudo bem, o certo é que a inteligência, a acutilância, o humor e a sagacidade estão lá sempre. RAP escreve muitíssimo bem, sabe utilizar a língua portuguesa ao favor do humor, sem esquecer a importância dos grandes temas e enaltecendo os pequenos. Desde chulé até ao milésimo de segundo em que sabemos que vamos sentir dor, desde a tecnologia moderna às memórias de neto, o autor vai-nos colocar a pensar, nem que seja "que parvoíce, isto é tão parvo que tem muita graça". E poucos livros nos deixem de bom humor, com um misto de esperança e desilusão pelo mundo em que vivemos. Tinha claramente saudade de aproveitar o tempo com o RAP cronista.
É maravilhosa a forma como Ricardo Araújo Pereira consegue criar um humor tão inteligente com as banalidades do dia a dia! Um livro que é uma bela companhia, desde o início até ao fim.
Este livro lê-se num ápice porque cada crónica ocupa apenas 1 página e meia e são todas excelentes. Adoro o humor e a perspicácia de Ricardo Araújo Pereira e acho que este livro consegue agradar à grande maioria das pessoas.
Talvez por estas crónicas serem publicadas num jornal brasileiro tenha gostado ainda mais dos temas abordados - fala de tudo um pouco e não surge tantas vezes o tema do futebol (como nos livros da Boca do Inferno), o que para mim é um plus.
Adorei particularmente as crónicas: Sobre um Sorriso, Fui ao Mercado Comprar Silêncio, Amor e Batatas, Seja Sério na Brincadeira, O Rocinante e o BMW Z4: Teste Comparativo, Sobre Cães e Gatos, Escanção de Silêncios, Desliga e Liga de Novo, Ter ou Não ter, Há Gente que é Pessoa, Algumas Reflexões sobre Chulé.
Estas crónicas específicas de RAP são bastante diferentes das usuais, porque ao serem destinadas aos leitores da Folha de São Paulo acabam por não poder fazer uso de referências comuns que o autor normalmente utiliza. Isto ajuda a que sejam mais universais (ou até por vezes especificamente brasileiras) e mais interessantes.
É impressionante a forma como Ricardo Araújo Pereira continua a apresentar-nos material novo, constante, sempre fresco e sempre brilhante. A sua simplicidade mundana é cativante e empática, e o seu saber literário fascinante. Graciosamente consegue combinar pequenos aspectos do quotidiano com grandes pensadores da literatura, sem nunca soar pretensioso ou desmedido. Assim, acaba por nos alimentar na nossa sapiência, e na nossa curiosidade. "Estar Vivo Aleija" é um compêndio de crónicas que o autor escreveu para a "folha de s. paulo", onde consegue transpor as diferenças linguísticas entre Portugal e Brasil - como grande mestre da língua portuguesa - e unir dois povos sobre o seu imaginário e o humor.
Ou muito me engano, ou os nossos filhos estudarão Ricardo Araújo Pereira nas aulas de Língua Portuguesa.
Fiquei a saber que claramente parto parvamente o pão. E que há pessoas, gente, povo e humanidade. As pessoas não usam setas no trânsito, a humanidade foi à lua. As pessoas deitam lixo no chão, a humanidade atinge os cumes da civilização, como as vacinas, ou o gin tónico. E que as línguas bárbaras como o inglês ou o francês nunca saberão o que é ir devagarinho ou estar no quentinho.
Publicado em 2018, Estar Vivo Aleija é uma compilação das melhores crónicas publicadas por Ricardo Araújo Pereira para o jornal brasileiro Folha de S. Paulo. Como já é habitual, das suas crónicas podemos esperar as mais variadas reflexões sobre o mundo e a atualidade, onde temas triviais convivem em perfeita harmonia com assuntos e figuras da maior relevância.
Uma desvantagem que encontrava nestas compilações do humorista – e, na verdade, neste tipo de livros com crónicas de jornal compiladas – era a validade de certos temas. Não foram raras as vezes em que li compilações de crónicas já datadas, sem relevância à luz dos dias de hoje. Estar Vivo Aleija foi, de todos, a compilação mais intemporal que já li do RAP, e alguns textos com uma sensibilidade poética que ainda não tinha identificado no autor, até então.
Textos simples, análises sempre com o seu sofisticado toque de humor e reflexões que nos convidam a pousar o livro depois de acabar um texto e deixá-lo ‘marinar’ no nosso cérebro. Foi o meu preferido dele, até à data!
As crónicas são bastante variadas. Algumas achei razoáveis, mas não foram particularmente memoráveis. Algumas foram nostálgicas. Que sorriso eu dei quando li sobre partir parvamente o pão! Ou quando li a do "cuidado com a língua". Algumas piscam claramente o olho ao leitor brasileiro (acabando por não ter tanta piada para mim). Outras são aquelas divagações que parece que só mesmo o Ricardo sabe fazer sobre coisa nenhuma, e que acabam por se revelar extremamente perspicazes no seu aparente ridículo! E finalmente, há mesmo algumas que ficaram comigo. Como foi por exemplo o caso da crónica “vende-se angústia” (pergunta ao padre). Genial! Ou da “amor e batatas” (sobre a avó). Há sempre algo de profundamente enternecedor quando ele fala da avó!
Portanto, não diria que é imperdível, mas é engraçado e há uma ou outra crónicas pela qual vale mesmo muito a pena ler.
Este livro é o terceiro que já li do mesmo autor. É muito engraçado. Consiste em artigos escritos para um jornal brasileiro, Folha de São Paulo. O autor brinca com diversos assuntos desde futebol até à linguagem. É tudo muito divertido e inteligente, como sempre.
Estar Vivo Aleija é a compilação das 69 crónicas que Ricardo Araújo Pereira escreveu para o jornal brasileiro, "Folha de S. Paulo". Nestas crónicas, o autor questiona a (sua) vida com sarcasmo e muito sentido de humor.
Aborda assuntos muito diversos tais como o sorriso, o silêncio, as redes sociais, os telemóveis, estudos de saúde, a língua portuguesa, a gastronomia, o receio da morte, entre muitos outros. Faz citações e apresenta referências de vária ordem: obras, autores, cantores, jogadores de futebol… Ao longo do livro e de crónica em crónica, Ricardo Araújo Pereira vai contaminando o leitor com as suas preocupações, emoções e zombarias de forma brilhante.
O facto de recorrer a aspectos simples do quotidiano e a uma linguagem clara e cativante torna a leitura deste livro muito agradável. O leitor rende-se à sapiência cultural e linguística do autor.
Gostei muito! Já vi o Ricardo Araújo Pereira em vídeos do YouTube, na televisão e já o ouvi algumas vezes na rádio, mas nunca tinha lido nada dele. Apesar de a experiência de ler ser diferente de ouvir, é engraçado como conseguia ouvir a voz de Ricardo Araújo Pereira e dizer as palavras que ia lendo. Já conhecia três ou quatro crónicas mas todas as outras eram novas para mim, algumas mais engraçadas que outras mas todas dotadas de boa imaginação e humor.
É um descorrer de dilemas existenciais e morais que me lembraram levemente a introspeção do Livro do Desassossego, de Pessoa, e a absurdidade e observação do óbvio, despromovida da invocação de falsos "bons" sentimentos, de Camus. Também pode ter sido por os ler todos ao mesmo tempo.
Primeiro livro que li do Ricardo Araújo Pereira e não deixa a desejar. O conjunto de crónicas pertence a um jornal brasileiro - o que torna a leitura mais rica e interessante, devido a alguns temas e ajustes de vocabulário que Araújo Pereira faz (e bem). Uma leitura super rápida e divertida, que me convenceu a espreitar mais livros escritos pelo autor.