Na era dos Bourbons, Orleans e Bragança, a noção de magreza no Brasil denotava uma ameaça à reprodução saudável da espécie. A mídia da época, ao noticiar sobre os banquetes daquelas elites, saudava as iguarias preparadas à base de banha de porco como forma de ratificar no inconsciente coletivo o ideal de bonança, a imagem própria da felicidade na forma de fartura. Com o passar dos anos, no entanto, as relações - sempre íntimas - entre alimentação, obesidade e sucesso incorporaram outros valores, mudando de perspectiva de forma radical. É essa a jornada destrinchada por Denise Bernuzzi de Sant'Anna neste Gordos, magros e obesos - Uma história do peso no Brasil. O livro propõe uma viagem fascinante sobre como o peso do corpo de um sujeito "fala" sobre o tempo em que ele vive e o impacto disso em suas relações sociais. Aborda também as alterações dos hábitos alimentares no país ao longo do século XX, cujas consequências, fatalmente, estão sempre atreladas à balança.
Li esse livro pra monografia mas acho que todo mundo devia ler! Super didático, ele conta literalmente a história do peso no Brasil e todas as suas mudanças e nuances ao longo dos anos. Leitura leve mas ao mesmo tempo pesada (rs, piada sem graça que eu não podia perder) e muito necessária pra entender como nos relacionamos com nossos corpos hoje.
Em determinados períodos, ser gordo era sinônimo de saúde e prosperidade. No início do século XX, por exemplo, alimentos ricos em gordura, como banha de porco e manteiga, eram símbolos de status e abundância, enquanto a magreza era associada à doença e à pobreza. No entanto, com a industrialização e o avanço da ciência da nutrição nas décadas de 1930 e 1940, esse panorama se transformou, e a obesidade passou a ser vista como um problema de saúde e um obstáculo à produtividade.
Os estereótipos relacionados ao corpo são amplamente influenciados pelos meios de comunicação, que frequentemente ridicularizam pessoas gordas, mesmo com a presença de conteúdos audiovisuais que procuram enaltecer pessoas com a forma corporal que fogem de padrões. Curiosamente, na literatura erótica de tempos passados, corpos volumosos eram valorizados, enquanto mulheres magras recorriam a enchimentos para aparentar curvas mais pronunciadas. A obra propõe uma reflexão sobre a fluidez dos padrões de beleza e saúde, demonstrando que esses conceitos não são fixos, mas sim determinados pelo contexto histórico e cultural. Para aqueles interessados em história social, corpo e alimentação, o livro oferece uma análise aprofundada e bem fundamentada.
É uma obra com um bom repertório bibliográfico e que também está presente uma outra obra intitulada “A história da beleza no Brasil’’ pela mesma autora, no qual conhecemos as influências estrangeiras que a população brasileira tem há gerações sobre padrão de beleza e usos de dermocosméticos.
Ambas as obras possuem uma estrutura bem organizada, com capítulos que exploram os temas de forma aprofundada, embasados em estudos pré-existentes que reforçam a autoridade da autora em sua área. Além disso, a diagramação, aliada ao uso de fotografias e imagens, contribui para a qualidade do conteúdo e a força dos argumentos apresentados.