O líder de origem burguesa que desafiou Álvaro Cunhal e foi apagado da história do PCP
A Revolução Russa de 1917 foi um dos acontecimentos mais importantes do século xx. O comunismo alterou a correlação de forças mundiais e é nesta torrente de mudança que em 1921 nasce o Partido Comunista Português, que irá atrair centenas de jovens dispostos a lutar por uma nova sociedade. Júlio Fogaça aderiu ao PCP na mesma altura que Álvaro Cunhal e durante várias décadas defenderam orientações políticas opostas. Prisões e libertações intermitentes adiaram as consequências dessa conflitualidade mas, eventualmente, o PCP tornou-se pequeno demais para os dois. Esta é a biografia desse jovem fidalgo rural do Cadaval que se converteu ao comunismo em Lisboa e chegou ao poder depois de ter sido várias vezes preso, torturado e por duas vezes desterrado para o Tarrafal. Acabou por ser expulso do PCP, mas as circunstâncias dessa expulsão e da derradeira prisão pela PIDE ainda hoje continuam encobertas.
Terá sido denunciado à PIDE pelo seu companheiro ou pelos próprios comunistas? Porque terá sido deixado para trás na fuga colectiva de Caxias? Ser homossexual terá pesado na sua expulsão? E que papel teve Álvaro Cunhal no seu apagamento da história do PCP?
Testemunhos inéditos de Domingos Abrantes, Edmundo Pedro e Carlos Brito ajudam a resgatar a intensa vida de um revolucionário esquecido.
ADELINO CUNHA nasceu em 11 de Maio de 1971, em Lisboa. É licenciado em História pela Universidade Lusíada e doutorado em História, pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, com a tese Os comunistas portugueses no exílio (1960-1974). É professor de História Contemporânea e de Jornalismo da Universidade Europeia e investigador integrado do Instituto de História Contemporânea (IHC-NOVA/FCSH). Foi editor de política nos jornais A Capital, Correio da Manhã e Jornal de Notícias, director da revista Focus (2007-2008), além de membro do plenário do Conselho Económico e Social (2011/2012) e Adjunto do Ministro-Adjunto do Primeiro-Ministro do XIX Governo Constitucional (2011/2012).
TInha bastante curiosidade em ler este livro, pois esta pessoa esteve sempre muito "escondida" , nem eu sei bem a razão porquê? Apenas sabia que Júlio Fogaça tinha sido um importante vulto do PCP, nos tempos da ilegalidade, e sim, também sabia que era homossexual. E sabia que teria sido expulso ou afastado do partido, também sem saber as razões... Adelino Cunha, neste seu livro explica e muito (demasiado) as razões do seu afastamento do PCP e conta também detalhadamente o que foi a sua actividade no longo período da seu empenhamento partidário, o seu bim entendimento com com o fundador e primeiro Secretário Geral do PCP, Bento Gonçalves, com quem conviveu na sua primeira estadia no Tarrafal e onde BG morreu. Depois Adelino Cunha preenche cerca de 90% das páginas do seu livro com a descrição minuciosa e fastidiosa de todas as guerras internas dentro do Partido Comunista, com relevo para a guerra pessoal entre Fogaça e Álvaro Cunhal, que iam alternando a sua importância no partido, nas ausências por prisão, um do outro. É um tema talvez interessante para quem queira conhecer a história do PCP, mas eu queria conhecer mais o homem que foi Júlio Fogaça. E tirando as páginas iniciais, onde ele mostra as origens de Fogaça, oriundo de uma burguesia agrícola não distante de Lisboa, e até à sua vinda para a capital onde resolve aderir à causa da defesa dos trabalhadores e à luta contra a ditadura salazarista, e depois na parte final, onde ele reconquista finalmente a liberdade e regressa à sua já tão depauperada propriedade. Sobre a sua homossexualidade, uma referência à sua última detenção, na Nazaré e onde foi preso junto ao seu companheiro afectivo e pouco mais. Não está provado que tivesse sido essa a questão do seu afastamento, embora todos saibamos que o PCP em certos aspectos da vida social é extremamente conservador... Enfim, uma certa desilusão este livro, tendo eu andado tempo demasiado a ler coisas e notas e mais notas que pouco me interessam sobre a vida do Partido Comunista Português. Esperava outra coisa...
Júlio Fogaça, filho de uma família rural abastada, chegou a ser durante alguns anos um dos principais dirigentes do Partido Comunista Português na clandestinidade, no período da ditadura de Salazar. Esteve preso várias vezes, tendo sido desterrado para o Tarrafal. A sua vida política terminou quando foi preso pela PIDE (a polícia política) uma última vez, em 1960, na Nazaré, onde se tinha deslocado com o seu namorado.
A tarefa de escrever a biografia de um dirigente homossexual do PCP na clandestinidade não pode ser fácil. E a vida de Júlio Fogaça foi atribulada, cruzando a história de um partido revolucionário em tempos de ditadura, quase desde a sua fundação, passando pelo pós-guerra de onde a União Soviética saiu triunfante, até à revolução de abril e à democracia. As raízes de Fogaça na burguesia rural, a sua prisão na colónia penal do Tarrafal, que foi "inaugurar", a sua ascensão e queda como dirigente do partido, aparentemente em confronto com Álvaro Cunhal, a questão da sua homossexualidade, não aceite na sociedade portuguesa à época e, talvez, também no interior do PCP, tudo fazem com que uma biografia de Fogaça possa transformar-se num livro interessantíssimo.
Mas neste livro há tantas incoerências, tantas interrogações, quando procuramos respostas, tanta especulação misturada com factos, tanta prosa e figuras de estilo desconcertantes, tanta repetição do que já estava dito, que acabamos frustrados com a leitura e com mais dúvidas do que certezas. É, infelizmente, uma oportunidade perdida de contar a vida de um homem corajoso e marcante.